a dignidade da diferença
10 de Março de 2012

 

 

«Whitman é um dos poetas que mais me impressionaram em toda a minha vida. Penso que há uma tendência para confundir o Sr. Walt Whitman, o autor de Folhas de Erva, com Walt Whitman, o protagonista de Folhas de Erva, e aquele Walt Whitman dá-nos menos uma imagem e mais uma espécie de ampliação do poeta. Em Folhas de Erva, Walt Whitman escreveu uma variedade de épica cujo protagonista era Walt Whitman – não o Whitman que escrevia, mas o homem que ele gostaria de ter sido. É claro que não digo isto em desfavor de Whitman, pois a sua obra não deve ser lida como constituindo as confissões de um homem do século XIX, mas, antes, como uma épica sobre uma figura imaginária, uma figura utópica que é, em certa medida, uma ampliação e uma projeção do escritor, bem como do leitor.

 

 

Está lembrado que em Folhas de Erva o autor funde-se várias vezes com o leitor e, é claro, isto expressa a sua teoria da democracia, a ideia de que um só e único protagonista pode representar toda uma época. A importância de Whitman nunca é destacada em demasia. Mesmo se tivermos em conta os versículos da Bíblia ou de Blake, podemos afirmar que Whitman foi o inventor do verso livre. Ele pode ser visto de duas maneiras: há o seu lado cívico – o facto de que ficamos cientes da existência de multidões, de grandes cidades e da América -, e há também um elemento íntimo, embora não possamos ter a certeza sobre se ele é genuíno ou não. A personagem que Whitman criou é uma das mais cativantes e memoráveis de toda a literatura. É uma personagem como Dom Quixote ou Hamlet, mas não é menos complexa do que eles, e possivelmente é mais cativante do que qualquer deles.»

Harold Bloom, O Cânone Ocidental, tradução: Manuel Frias Martins

 

10 de Junho de 2008

Agora que estão aí a chegar as eleições para as presidenciais americanas, só faria bem se algum dos candidatos dedicasse um pouco do seu tempo a ler a obra magistral de Walt Whitman, o poeta verdadeiramente apaixonado pela democracia.

Nascido em Long Island, em 1819, foi, sem qualquer dúvida, um dos mais originais e corajosos poetas de dimensão universal, possuidor de um sentido de grandeza e majestade, a par de um lirismo profundo, que lhe concederam uma vida com uma dimensão que muito poucos obtiveram.

 

Foi, além de notabilíssimo poeta, jornalista, tipógrafo e editor, conhecendo por dentro a guerra civil do seu país, impondo-se pela sua franqueza, frontalidade e radicalismo, sendo célebre o que dele próprio disse: não sou traduzível, nem fui domesticado!

Para a posteridade, deixou essa obra imensa, publicada em 1855 e que foi aumentando até morrer a 26 de Maio de 1889, a poesia de uma vida inteira «Leaves of grass» que no nosso país foi traduzida como «Folhas caídas» e se encontra editada pela Assírio & Alvim e pelo Círculo de Leitores.

A originalidade da sua escrita tinha os traços de uma linguagem coloquial que rompia com a tradição, possuindo  um aroma e uma sensibilidade desafiadoramente livre no verso escolhido.

Foi ele, inquestionavelmente o grande poeta da América, antes de tudo, pela sua profunda crença na liberdade. Como muitos já o disseram, tinha dentro de si todos os sonhos do mundo.

E, por fim, como português, não podia acabar sem referir a extrema admiração que o genial Fernando Pessoa, pela voz de Álvaro de Campos, sentia pelo poeta americano, bem expressa na magnífica «Saudação a Walt Whitman».

 

Celebro-me e canto-me,

E aquilo que assumo tu deves assumir,

Pois cada átomo que a mim pertence a ti pertence também.

 

Vagueio e convido a minha alma,

À vontade vagueio e inclino-me a observar a erva do Verão.

A minha língua, cada átomo do meu sangue, composto deste solo, deste ar,

Aqui nascido de pais aqui nascidos de outros pais aqui nascidos, e dos seus

            Pais também,

Eu, aos trinta e sete anos, de perfeita saúde começo,

Esperando que só a morte me faça parar.

 

Suspensos os credos e as escolas,

Retiro-me por certo tempo, deles saturado mas não esquecido,

Sou o porto do bem e do mal, e seja como for falo,

Natureza sem obstáculos com a sua energia original.

 

Excerto de «Canto de mim mesmo» traduzido por José Agostinho Baptista

 

Nunca posso ler os teus poemas a fio... Há ali sentir a mais...

Atravesso os teus versos como uma multidão aos encontrões

e cheira-me a suor, a óleos, a actividade humana e mecânica.

Nos teus poemas, a certa altura, não sei se leio ou se vivo,

Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos.

 

Excerto de «Saudação a Walt Whitman» de Álvaro de Campos

 

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