a dignidade da diferença
07 de Outubro de 2015

 

levanta-se o réu

 

Recuperando - num estilo literário pleno de humor e imaginação sem, contudo, se afastar do essencial - uma centena de histórias de faca e alguidar, originalmente publicadas no Público entre 1990 e 2007, umas caricatas outras comoventes, recolhidas em sessões públicas que o autor assistiu no tribunal, vividas por pessoas reais, tão verdadeiras que parecem inventadas, Rui Cardoso Martins obtém, com Levante-se o Réu, um notável retrato da sociedade portuguesa: velhos e crianças, polícias e ladrões, homens e mulheres violentos, bêbedos e burlões, loucos e sonhadores. A prosa ágil e concisa do cronista, dominada por rápidas, precisas e expressivas pinceladas de tons claros, descreve casos insólitos ou chocantes sobre a amizade, o amor, o sexo, a traição, o incesto ou a violência doméstica e constrói personagens de carne e osso, representantes de uma comédia humana de antologia. Rui Cardoso Martins traça-lhes o adequado perfil psicológico e oferece aos seus leitores um belíssimo, gracioso e comovente enunciado das suas características mais evidentes: o ciúme, a bondade, a maldade, o divertimento, a estupidez, o egoísmo, a mesquinhez, o arrependimento ou a ignorância.

04 de Janeiro de 2015

paulo varela gomes.png

 

«A Internet é a primeira prótese de memória digna desse nome de que a humanidade se dotou até hoje. Ao princípio havia a escrita e a produção de imagens que ajudaram os homens a recordar coisas mais para os vindouros do que para eles próprios, mas também serviram como bases de dados auxiliando a memória individual e colectiva. (…) A Internet, ao ligar em rede todos os computadores a bases de dados que vão armazenando em crescendo toda a informação existente e, finalmente, ao permitir o acesso quase imediato a esta rede, provocou uma alteração essencial: os humanos já não precisam de guardar no cérebro qualquer informação excepto aquela que é indispensável para sobreviverem (…) no seu meio imediato. (…) Um cérebro que precisa de bancos de dados externos para praticamente toda a sua cultura adquirida, digamos assim, um cérebro que está constantemente dependente da prótese e sofre da espécie de Alzheimer-da-Internet que é o esquecimento das conexões, não é o mesmo cérebro que existia há dez ou vinte anos. E isto é apenas um dos muitos aspectos em que a Internet alterou a maneira como o cérebro lida com o mundo (…) é como se andássemos todos à procura de tudo com GPS em vez de mapas. Será um novo tipo de inteligência que conhecemos ainda mal. Mas à primeira vista parece burrice.

Paulo Varela Gomes, Ouro e Cinza

publicado por adignidadedadiferenca às 19:18 link do post
01 de Maio de 2012

 

 

Retrato da viagem que Henry Miller fez à Grécia a convite de Lawrence Durrell, O Colosso de Maroussi, publicado em 1941, é uma prodigiosa coleção de pequenas histórias vividas pelo seu autor. Uma linguagem vibrante e fascinante onde se cruzam as emoções sentidas por Miller, entre o encantamento e o entusiamo próprios de quem acaba de mergulhar num momento transcendente e essencial. Uma viagem ao coração da pátria dos deuses - para a qual contribuiu decisivamente Betty Ryan, com quem Miller partilhou casa em Paris, ao transmitir-lhe a sua verdadeira atmosfera -, que nos conduz ao seu espaço físico, às suas personagens e aos seus contrastes, onde Henry Miller procura uma correspondência entre passado e presente (entre a luminosidade anterior e o progresso cómodo mas frio), cuja escrita inconformista – ampla e justificadamente hiperbólica - mistura estados de alma tão contraditórios ou complementares como introspeção, narrativa, reflexão, adoração ou paixão. Um manjar rico e inesgotável, digno de verdadeiros deuses. Uma obra que respira uma sensualidade muito mais atrativa, por exemplo, que o famoso erotismo de Sexus, Nexus e Plexus. Como escreve Carlos Vaz Marques, no prefácio, «Se ao ler este livro o leitor não sentir nem por um instante o irreprimível impulso de embarcar de imediato a caminho da Grécia, isso só pode significar que é alguém imune ao sortilégio das palavras, alguém para quem a literatura de nada serve».

09 de Abril de 2011

 

 

Com uma elegância e um talento literário admiráveis, Saul Bellow oferece um amplo espaço para uma profunda reflexão sobre um país controverso, permanentemente atormentado, onde mudam os protagonistas mas permanece o conflito. O modelo clássico da literatura de viagens serve como mero pretexto para Saul Bellow avançar rumo a uma visão histórica que abrange a cultura e a identidade judaicas, os seus problemas sociais e tensão política. E não há o mínimo receio de encontrar nesta obra quaisquer maçadoras certezas ideológicas, pois do que ele se alimenta é de conversas atormentadoras, de magníficas histórias humanas relatadas por gente comum, isto é, pelos inúmeros intervenientes que fizeram e ainda fazem a história de uma nação inevitavelmente acossada pela actual conjuntura geopolítica. Um livro imenso onde o autor, apesar da gravidade do tema, não dispensa, aqui e ali, um brilhante travo humorístico, e, numa história de contradições, crueldade e paixões, enche os seus personagens com uma densidade, dignidade e compaixão ímpares e absolutamente inesperadas. Como afirma Carlos Vaz Marques, no prefácio, Jerusalém Ida e Volta «é um livro político. Sê-lo-ia mesmo que o autor pretendesse evitá-lo. Como tudo o que diz respeito a Israel, é um relato votado, desde o início, à controvérsia.» Trata-se, em suma, da história de uma cidade, Jerusalém, que «não dá tréguas a quem a visita, onde em praticamente tudo se jogam questões de vida ou de morte.»

publicado por adignidadedadiferenca às 12:04 link do post
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