a dignidade da diferença
03 de Novembro de 2013

  

«Não só no mundo dos negócios, mas também no das ideias, promove o nosso tempo “uma verdadeira liquidação”. Tudo se adquire por um preço tão irrisório, que nos resta perguntar se haverá alguém que acabe por fazer uma oferta. Qualquer “marqueur” especulativo que conscienciosamente aponte o assinalável percurso da filosofia mais recente, qualquer professor livre, assistente, estudante, alguém que esteja por dentro ou por fora da filosofia, ninguém pára para duvidar de tudo, antes avança. Seria porventura inoportuno e extemporâneo perguntar-lhes onde pensam que vão propriamente chegar, mas é sinal de cortesia e modéstia aceitar como facto consumado que duvidaram de tudo, pois caso contrário soaria estranho dizer que “avançaram”. Todos fizeram este movimento preliminar e presumivelmente com tanta facilidade, que nem consideraram necessário deixar cair uma palavra sobre o assunto; pois nem mesmo aquele que angustiado e inquieto procurasse um pequeno esclarecimento encontraria uma coisa parecida, um alvitre sugestivo, uma pequena regra dietética, sobre como proceder perante esta monstruosa tarefa.»

Søren Kierkegaard, Temor e Tremor (1843).

12 de Setembro de 2010

 

Diz um velho provérbio extraído do mundo exterior e visível: «só ganha o seu pão quem trabalha». É bastante estranho que este ditado não se enquadre no mundo ao qual de origem pertence; pois o mundo exterior está sujeito à lei da imperfeição e cada vez mais se repete por aí que aquele que não trabalha também ganha o seu pão, e aquele que dorme ganha-o com maior abastança do que aquele que trabalha. No mundo exterior tudo pertence ao portador que é escravo da lei da indiferença, e o espírito do anel obedece a quem tem o anel, seja ele Noureddin ou Aladdin, e quem possui os tesouros do mundo fica com eles, seja qual for o modo como os obteve. No mundo do espírito passa-se de outra maneira. Reina uma eterna ordem divina no mundo do espírito, onde não chove sobre os justos como sobre os injustos, onde o Sol não nasce para os bons como para os maus, onde ficou estabelecido que só ganha o seu pão quem trabalha, onde só encontra descanso quem experimentou a angústia, onde só salva a amada quem desce ao outro mundo, onde só recebe Isaac quem puxa a faca. Aquele que não quiser trabalhar não ganha o seu pão, antes é enganado, como os deuses enganaram Orfeu com uma figura etérea no lugar da amada; enganaram-no porque era cobarde, não era corajoso, enganaram-no porque era citarista, não era homem. No mundo do espírito de nada serve ter Abraão como pai ou ter dezassete gerações de antepassados; a quem não quiser trabalhar, assenta bem o que está escrito sobre as virgens de Israel – dá à luz o vento, mas aquele que quiser trabalhar dá à luz o próprio pai.

 

Kierkegaard, Søren, Frygt og Bœven (Temor e Tremor), Relógio D’ Água, 2009, Tradução de Elisabete M. de Sousa.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:44 link do post
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