a dignidade da diferença
09 de Agosto de 2011

Numa época tão controversa como a nossa, não nos parece mal recuperar o pensamento de John Stuart Mill (1806-1873) sobre a liberdade e enquadrá-lo nas sociedades hodiernas. Por força das múltiplas intervenções dos países ocidentais em países terceiros, onde vigoram leis e regimes substancialmente diferentes, dos constantes actos de terrorismo, das recentes revoltas no norte do continente africano, das convulsões sociais, do palco de violência em que Londres se tornou, ou do fundamentalismo islâmico, as ideias de Mill, parecendo óbvias na sua substância, justificam, pelo contrário, uma pertinente actualização resultante da sua ousadia assim como uma reflexão amadurecida. Como se pode verificar neste pequeno texto retirado do capítulo «Sobre os limites da autoridade da sociedade sobre o indivíduo», incluído no hiperclássico Sobre a Liberdade, traduzido por Pedro Madeira. Fica o aviso, pois o perigo continua à espreita.

 

 

«Também me parece um passo retrógrado, mas não me parece que qualquer comunidade tenha o direito de forçar outra a ser civilizada. Desde que os que sofrem com a má lei não peçam a ajuda de outras comunidades, não posso admitir que pessoas que nada têm a ver com elas intervenham e exijam que se deva acabar com um estado de coisas com o qual todos os directamente interessados parecem estar satisfeitos, só porque esse estado de coisas constitui um escândalo para pessoas a milhares de quilómetros de distância, que nada têm a ver com isso e a quem não diz respeito. Que enviem missionários, se quiserem, para pregar contra isso; e que se oponham ao progresso de semelhantes doutrinas bárbaras entre o seu próprio povo por quaisquer meios justos (entre os quais não se conta o silenciamento dos que as ensinam). Se a civilização levou a melhor à barbárie quando a barbárie dominava inteiramente o mundo, é exagerado temer que a barbárie, após ter sido completamente derrotada, venha a ganhar novo fôlego e conquiste a civilização. Uma civilização que pode sucumbir assim ao seu inimigo derrotado teve primeiro de se ter tornado tão degenerada, que nem os seus padres e professores qualificados, nem qualquer outra pessoa, tem a capacidade de a defender – ou se dará ao trabalho de o fazer. Se isto for assim, quanto mais depressa tal civilização receber ordem de despejo, melhor. Só pode ir de mal a pior, até ser destruída e regenerada (como o império ocidental) por bárbaros enérgicos.»

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