a dignidade da diferença
10 de Junho de 2012

 

 

A obra extensa de J. S. Bach abrange praticamente todas as formas musicais em voga na sua época, talvez com a única exceção da ópera. E entre a sua música instrumental mais significativa, contam-se, como melhores e mais notórios exemplos, as Suites Francesas, as Sinfonias ou o Concerto Italiano. Paradigma da exuberância criativa do seu autor, as referidas composições são o reflexo exato da riqueza cromática e da preciosa ornamentação estilística que caracterizaram o que de melhor teve o período barroco. Gustav Leonhardt, na qualidade de cravista, cortou-lhe os excessos, num gesto certeiro de depuração e concisão estética, e traçou-lhes a bissetriz perfeita, a qual, paradoxalmente, em vez de os separar, conseguiu aproximar o mundo antigo do contemporâneo (o dele; não esqueçamos que a última gravação é de 1980). Fê-lo admiravelmente, combinando a arte do contraponto e a clareza do seu pensamento com a transparência estrutural e harmónica das peças musicais, realçando ainda a arquitetura das formas, fundindo as características francesas, italianas e alemãs num registo simultaneamente introspetivo e metafísico sem perder de vista um contagiante efeito de celebração musical. Uma antologia que nos devolve a inesgotável riqueza do admirável mundo antigo.

 

Excerto do filme Crónica de Anna Magdalena Bach, de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet

22 de Maio de 2008

  

As gravações ao vivo das nove sinfonias de Bruckner pela Orquestra Filarmónica de Munique, dirigida pelo maestro Sergiu Celibidache (editadas pela EMI em 1998)

 

É admirável a empatia quase inacreditável que se sente entre os blocos sonoros monumentais que são a matéria das sinfonias de Bruckner e a interpretação, impossivelmente lenta e em tons coloridos, que o maestro romeno, adepto confesso do zen-budismo, imprime aos vários andamentos, reforçando, dessa maneira, a sua visão pessoal sobre o modo como cada intérprete deve intuir o tempo certo. Celibidache, mais do que um esboço, desenha, deste modo,  uma atmosfera densa, servindo-se, de forma inventiva e intencional, de uma pulsação dramática no limite do suportável, atingindo, quase no final de cada sinfonia (ou de cada andamento), um êxtase místico de proporções gigantescas, transformando cada sinfonia numa matéria musical claramente religiosa e com uma dimensão digna de uma catedral. Está, a par da versão de «La mer» de Claude Debussy (comparada a um oceano de cores e sons), para lá da compreensão humana.

 

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