a dignidade da diferença
26 de Fevereiro de 2013

 

Até agora, a criação em exclusivo de conteúdos de interesse público não é prioridade, porque a RTP segue sistematicamente a estratégia de obtenção do máximo de audiência com o mínimo de serviço público, nomeadamente para beneficiar com 20 % ou 25 % de share a propaganda do governo que estiver e a estratégia comercial. Isso deve-se à própria estrutura institucional e aos vícios históricos adquiridos e até aos interesses de quem encomenda, faz e apresenta programas. O orçamento do operador público deveria em grande medida ser destinado aos conteúdos, o que hoje não sucede (apenas 36,5 % dos custos operacionais em 2009). E o investimento devia dar prioridade aos programas com valor acrescentado, quer para a sua estreia em antena, quer para a sua repetição posterior, edição em DVD, passagem em escolas, etc. Que programas deve um serviço público fazer? Sem se defender uma servidão ao trinómio educar, informar, entreter, dado que essas três funções hoje se misturam em muitos programas e já não se justifica o paternalismo do Estado nestas matérias, parece razoável que o serviço público devesse despender o máximo de recursos em programas que trouxessem valor acrescentado aos espectadores, pela informação, pela formação e porque o fazem ajudando a passar o tempo. Num modelo amplo de serviço público, este não necessita de prescindir do entretenimento.

 

 

Mas, a manter-se, devem ser tomadas as máximas cautelas, pois o dinheiro público não deve ser desperdiçado em conteúdos que sejam proporcionados noutros canais e que não tenham valor acrescentado. Na área do entretenimento, há programas que os operadores privados não estão dispostos a transmitir, em geral por recearem más audiências, mas também porque não sentem vocação. Não cabe aqui imaginar as propostas que se poderiam fazer, apenas comprovar que, no geral, o entretenimento da RTP não se distingue do restante (quando não é pior), pelo que é uma das áreas a precisar de mais trabalho de reflexão e reforma. Deveria ser atribuída prioridade aos conteúdos documentais, que são hoje uma expressão essencial da comunicação audiovisual; à ficção histórica e literária; à ficção de temas atuais; a programas com mais-valia de inovação temática e estética; à reportagem em profundidade; à música popular e erudita sem lugar noutros canais; ao cinema que os outros canais não divulgam; em programas em ligação com a sociedade civil; ao debate público desinteressado (e não ao serviço da agenda governamental).»

Eduardo Cintra Torres, A Televisão e o Serviço Público

14 de Abril de 2012

 

 

«A outra perversidade está associada a uma propositada amnésia da História, das Histórias coletivas e das histórias particulares. Tal propósito resulta na ostracização de todo o universo da administração pública e dos serviços públicos que são diabolizados por este discurso – o que, para além de ser política e socialmente injusto, revela, da parte dos atuais governantes, uma enorme ingratidão. Não foram a maioria deles nascidos e cuidados nos hospitais públicos, educados nas escolas e universidades públicas, não lhes foi possível empregarem-se na administração pública? Imagino o primeiro-ministro e o ministro-adjunto a entreterem-se com a sua própria formação musical assistindo a programas televisivos como o Passeio dos Alegres, do Júlio Isidro, nos Verãos das suas adolescências. Porquê agora esta obsessão, sem uma razão, para já, convincente, sem um argumento sólido, de privatizar parte da RTP? Contrariamente ao economismo e à sua arrogância, uma perspetiva cultural de abordagem à atualidade não abdica de insistir na necessidade da justiça e da existência de homens justos que, seguindo a ética aristotélica da justiça e do bem maior dos imperativos éticos kantianos, reclamam que a finalidade da ação é o homem e o seu bem em si, e não o privilégio de alguns, do qual se desculpam por via do assistencialismo, a forma mais discriminatória de distinguir os incluídos dos excluídos.»

António Pinto Ribeiro, Ípsilon, suplemento do Público de 13 de abril de 2012.

06 de Outubro de 2011

 

 

Parece que os nossos governantes já terão decidido a privatização irreversível da RTP.  Será um dano incalculável a inexistência de um canal público de televisão. Devíamos estar a discutir a qualidade do serviço público que a televisão deveria prestar e não a sua existência. Como claramente referiu António Pedro Vasconcelos, comparado a situação à que se vive na Justiça «Não há nenhum português que não se queixe da justiça mas nenhum diz que prefere as milícias privadas». Depois de se saber aquilo que vão fazer com a Cinemateca Portuguesa - programação condicionada a critérios de bilheteira e passando pelo crivo do Secretário de Estado da Cultura -, iremos assistir ao prolongamento dos disparates culturais típicos da cegueira e da ignorância neo-liberal, cuja doutrina tem sido a bandeira deste Governo. Mas continuemos, a propósito, com APV, que é dos poucos que tem autoridade para falar do assunto, neste pequeno excerto da óptima entrevista que deu ao semanário Expresso: «Sabes que se diz que o cinema é a memória e a televisão é o esquecimento. Dizia o Fellini quando fez o “Ginger e Fred”. Ele sabia a televisão que vinha aí, uma torneira de deitar imagens. E o que ninguém diz é que a democracia faliu. Porque é que é um crime de lesa-pátria deixar de exigir a melhoria da televisão e rádio públicas? (…) Podes criticar muito a televisão pública mas é a única que não tem telenovelas. Que tem uma programação vertical, que tem um telejornal que impede os outros de serem uma vergonha. Como dizia o homem do Channel 4, a BBC obriga-nos a ser melhores. Onde é que aparecem todos os grandes humoristas portugueses? Na RTP. Estou longe de achar que o “Prós e Contras” é o melhor programa do mundo, mas é o único onde ainda podes discutir alguma coisa. É na RTP que podes ver documentários. Os portugueses vêem cinema três horas e meia por ano e vêem 3 horas e meia por dia de televisão. A bandalheira começou com o “Big Brother”, que deu origem aos noticiários de hora e meia. Noticiários sob forma de folhetim. Para que serve um telejornal numa privada? Não é para informar. Serve para fixar o espectador ao prime-time e para marcar a agenda política.»

11 de Setembro de 2011

 

 

A primeira série servia-se dos grandes acontecimentos históricos como muleta para o desenvolvimento ficcional. Sabemos da existência da terceira parte, mas confessamos que nunca lhe passámos os olhos por cima. Mas o quotidiano vivido pelo núcleo fundamental de personagens na Munique dos anos 60, narrado em Heimat II, dificilmente esqueceremos. A raiz popular, o destino individual dos protagonistas, os seus amores, a amizade e a música que os une, as suas esperanças e decepções, as ilusões, a separação dos caminhos inicialmente comuns, todos estes factores compõem a matriz, a estrutura ficcional, desta série fabulosa. Parece uma telenovela? Talvez. Mas a estilização e a pertinência dos planos, trabalhados por quem rejeita que a sua importância seja medida ao minuto, o sentido estético, a ambição artística, a profundidade temática – que só raríssimas das melhores séries norte-americanas conseguem alcançar -, a inteligência e o cuidado formal revelados no uso dos materiais fílmicos, escapam notavelmente ao conformismo estético e à banalidade narrativa comuns às telenovelas.

 

 

Recordamo-nos que Heimat II passou na RTP2, no início dos anos 90 (Heimat I também fora exibida no canal público), mas, agora, quem teria coragem para incluir esta série na sua programação? A terceira parte, pelo menos, porque nunca foi apresentada. Infelizmente, os canais privados estupidificam quem os procura com a mediocridade generalizada dos seus programas, onde vence a humilhação pessoal e a divulgação da vida íntima das pessoas. Resta o segundo canal da televisão pública (ou, talvez, a RTP Memória…), mas este tornou-se numa autêntica manta de retalhos. Não há uma divulgação cultural minimamente reflectida. Não assistimos a uma organização temática sobre cinema, documentários, teatro, ópera, ballet, música clássica ou popular, política ou literatura. Assim, como facilmente se percebe, dificilmente voltaremos a ter na sua programação uma série como Heimat.

publicado por adignidadedadiferenca às 20:07 link do post
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