a dignidade da diferença
17 de Novembro de 2013

 Ein Deutsches Requiem - Brahms/Otto Klemperer (1962)

 

 

Se a música de Brahms se inspira maioritariamente numa profunda inquietação perante o destino mortal do homem, não perde, contudo, por mais ténue que seja, a esperança na sua salvação. Ein Deutsches Requiem, escrito para soprano e barítono solistas, coro e orquestra – e concluído em 1868 –, é muito provavelmente um dos marcos do período romântico e o apogeu do amadurecimento artístico do seu autor. Se Brahms reflete nesta música as principais características estéticas das suas criações anteriores, aqui plenamente desenvolvidas, ampliando musicalmente o sentido dos textos utilizados (a letra do Requiem em latim e algumas passagens bíblicas em alemão sobre consolo e meditação), consegue expressá-las ainda com uma maior intensidade emocional e organizá-las de acordo com uma estrutura arquitetónica notável, conciliando admiravelmente num discurso aparentemente simples uma complexa teia de cores, efeitos corais e orquestrais. O maestro Otto Klemperer, com a cumplicidade das majestosas vozes solistas de Elisabeth Schwarkopf (soprano) e Fischer-Dieskau (barítono), proporciona, nesta gravação – de 1962 – de inigualável sensibilidade, uma experiência musical rica, tocante e profundamente comovente, sobrepondo-lhe uma prodigiosa atenção ao mais ínfimo detalhe musical. Uma gravação irrepetível e absolutamente imperdível.

 

 

23 de Novembro de 2011

 

 

«William Butler Yeats era, exclusivamente, um poeta que escreveu em sintonia com a dinâmica transformadora do seu tempo, mas por caminhos de incontestável originalidade, fundando um estilo dramático de enorme teor musical e conduzindo a poesia para uma zona iluminada de reflexão, onde os universos religioso, político, afectivo e filosófico surgem transfigurados pela magia da palavra, como simples elementos constituintes da perturbadora alquimia do ser.»

Laureano Silveira

 

The Choice

 

The intellect of man is forced to choose

Perfection of the life, or of the work,

And if it take the second must refuse

A heavenly mansion, raging in the dark.

 

When all that story’s finished, what’s the news?

In luck or out the toil has left its mark:

That old perplexity an empty purse,

Or the day’s vanity, the night’s remorse.

 

 

A Escolha


O intelecto do homem é forçado a escolher

A perfeição da vida, ou do trabalho

E se escolhe a segunda tem de recusar

Uma mansão celeste, enfurecendo-se em segredo.


Quando tudo acabar, o que haverá de novo?

Com sorte ou sem ela a labuta deixou as suas marcas:

Essa velha perplexidade é a bolsa vazia,

Ou a vaidade do dia, o remorso da noite.

(Tradução: Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira)

 

05 de Maio de 2009

 

 

Com a merecida vénia ao Provas de Contacto - sem o qual nunca me passaria pela cabeça ir à descoberta de um autor que era, para mim, totalmente desconhecido -, apetece-me registar aqui o meu total espanto e fascínio por uma pequena mas admirável obra do compositor romântico francês Ernest Chausson (1855-1899); o inesquecível Poème (para violino e orquestra), interpretado pelo violinista Itzhak Perlman e pela Orquestra Filarmónica de Nova Iorque dirigida por Zubin Mehta.

Trata-se de um magnífico poema de amor, simultaneamente enigmático e cheio de fantasia, onde o violino ocupa, de facto, o papel principal, transmitindo - a quem o escuta - uma sensibilidade docemente melancólica e vagamente estática, intervindo a orquestra, numa combinação mais-do-que-perfeita, para tornar o som (e o volume?) mais espesso e dar-lhe uma textura mais robusta, mantendo uma inacreditável sensação de estarmos a escutar sempre pela primeira vez uma obra contemplativa e profundamente contemporânea.

Não teve, aparentemente, ascendência nem gerou descendência. Apenas sublime e de lugar nenhum.

 

Fiquem com este pequeno excerto numa outra versão disponível no YouTube.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:57 link do post
25 de Maio de 2008

E por falar em Bruckner como esquecer esse filme-ópera por excelência, onde a sua sétima sinfonia assume um papel preponderante na construção dramática da história e na moldura da narrativa? Falo, obviamente de Senso, obra-prima absoluta do romantismo (e não só), da autoria de Luchino Visconti.

 

Se todo o filme é prodigioso e inesquecível - Alida Valli nunca foi tão sublime como aqui -, é, contudo, a partir da cena em que o tenente Mahler (Farley Granger) se oferece para acompanhar  a condessa Serpieri (Alida Valli) pelas ruas de Veneza e se começa a ouvir a música de Bruckner, que eu me apaixono verdadeiramente por esta obra .

 

E, para finalizar, deixo-vos um pouco deste cinema em absoluto estado de graça.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:57 link do post
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