The Velvet Underground & Nico, o hiperclássico da banda originalmente formada por Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Maureen Tucker, celebra 45 anos de existência e terá sido provavelmente o primeiro disco de rock de vanguarda. Vendeu pouco, mas na opinião de Brian Eno «quase todos os que o compraram formaram de seguida uma banda». Com o patrocínio de Andy Warhol, os velvets reuniram no seu corpo musical a crueza e secura das palavras de Reed, a experimentação, o negrume e o espírito vanguardista de Cale, o rigor rítmico de Morrison e a energia e tensão de Moe Tucker. Com a cumplicidade ocasional da voz gélida de Nico, o álbum de estreia ampliou todas estas qualidades convertendo-as numa massa sonora simultaneamente lírica e primitiva, quase sempre dissonante, angustiante e duma violência extrema, sem contudo rejeitar uma aproximação a delicadas e sedutoras melodias pop (embora com uma dose de veneno nada desprezível). Deliberadamente contra corrente, opositora natural do hippismo e flower power da época, a música dos Velvet Underground era prodigiosamente densa e rugosa, tensa e dramática, crescia avassaladoramente entre acelerações e desacelerações constantes, qual comboio elétrico imparável, e mostrava pela primeira vez uma visão crua da realidade, percorrendo com lentes desfocadas um quadro negro, esquizofrénico e dilacerado, onde cabia a androgenia, o sadomasoquismo, o mundo da droga, a violência das ruas ou a angústia de quem vive num mundo com poucas escolhas possíveis. Com Femme Fatale, Venus in Furs, All Tomorrow's Parties, Heroin, I'll Be Your Mirror ou Black Angel's Death Song, foi aqui que o rock alternativo verdadeiramente criou a sua matriz fundadora.