a dignidade da diferença
24 de Agosto de 2011

 

 

Desde a sua aparição no hiperclássico Singin’ in the Rain, o corpo de Cyd Charisse sempre representou mecânica, dinâmica e movimento. Quando deixou Gene Kelly literalmente de joelhos no assombroso bailado em que dança durante quatro minutos, Cyd Charisse deu uma nova vida ao musical. As mais belas pernas de Hollywood contracenaram com Fred Astaire no genial Band Wagon (1953) e, de novo, com Gene Kelly no mágico e encantador Brigadoon (1954), ambos de Vincente Minnelli. Sinuosa e carnal no primeiro, branca, generosa e fatídica no segundo.

 

 

 

Com Mamoulian, foi moscovita no Ninotchka musical, isto é, em Silk Stockings, onde lhe coube representar o papel que pertenceu anteriormente a Greta Garbo. Como escreveu Bénard da Costa, a propósito do bailado em que Charisse retira as meias de seda debaixo da almofada, «depois desse filme, nunca mais ninguém teve pernas». Porém, a Cyd Charisse mais assombrosa e mais actriz surgiu no espantoso Party Girl, do outsider Nicholas Ray. Neste filme excessivo e expressivo, trágico e sombrio, paradigma da modernidade e dado a paixões extremas, Cyd Charisse quase não dança – apesar dessa inesquecível mulher-leopardo -, quase não canta; é prodigiosamente ambígua, simultaneamente angélica e demoníaca, trágica e felina.

 

 

25 de Abril de 2011

 

 

«James Mason nunca fez de Heathcliff. Nunca ouvimos a voz dele perguntar pelo cheiro das urzes ou amaldiçoar a selvagem e meiga Cathy. Mas quase todos os seus grandes papéis são variações sobre essa personagem e ninguém o descreveu melhor do que Emily Brontë na célebre passagem em que Heathcliff regressa a Trushcross Grange, quando era Setembro e era lua e a ferocidade do olhar dele dizia do desejo de enforcar todos os seres, excepto um. Era daí que vinha a alquimia da sua voz, a viagem à pátria das sombras e dos turbilhões, a danação do arco-íris, a doce e mortal dentada da felicidade. Com ele, como com Rimbaud, que estou a traduzir livremente, essa felicidade só podia ser fatalidade, remorso e verme. Com a voz, também ele escreveu silêncios e noites e todas as coisas que, no escuro, se podem passar entre um homem e uma mulher. Com a voz, também, ele gravou o inexprimível e fixou vertigens. Foi, sozinho, uma ópera fabulosa. Adamante e Senhor do Navio.»

 

João Bénard da Costa, Muito Lá de Casa, Assírio & Alvim

 

 

Ninguém melhor do que Bénard da Costa para descrever o extraordinário actor que foi James Mason. Dos imensos papéis que fez, guardamos memória sobretudo dos personagens que fez nos anos 50 e 60 do século passado. Foi, entre outros, o ambíguo e venenoso Cícero (Five Fingers, de Mankiewicz), o odioso Rommel (The Deserts Rats, de Hathaway), e participou, com Judy Garland, no sublime A Star is Born, de Cukor. O apogeu, porém, só o atingiu no assombroso Bigger Than Life, de Nicholas Ray, conhecido em Portugal como Atrás do Espelho, onde inventa literalmente Ed Avery, o protagonista que por causa da dependência de um remédio, passa sucessivamente da inquietação ao desespero, atingindo este último e incontrolável estado no celebérrimo e assustador plano em que pretende matar o filho, julgando-se acima de Deus e procurando «corrigir-lhe» o erro. Um patamar de excelência que voltou a atingir no genial North by Northwest, de Hitchcock, onde interpreta o terrível e fascinante vilão Philip Vandamm, ou ainda nesse espantoso Humbert que vive numa vertiginosa sofreguidão pela Lolita de Kubrick, que Adrian Lyne transformou anos mais tarde numa indesculpável versão para adolescentes imberbes, copinhos de leite e parolos.

publicado por adignidadedadiferenca às 01:18 link do post
23 de Janeiro de 2011

  

 

Dispensemos, por isso, as exigências da devoção biográfica e lembremos o essencial: que a lenda de Jean Seberg se prolonga (e, a meu ver, se encerra) no filme "Lilith", dirigido por Robert Rossen em 1963. Neste caso ao lado de Warren Beatty, a actriz assume uma personagem que é, em si mesma, a expressão magoada do irremediável do amor, quer dizer, da sua proximidade da loucura. Talvez que a figura marcante de “À Bout de Souffle” e “Lilith” tenha sido mesmo outra coisa que não uma actriz: antes um ser incauto, eternamente inadaptado ao olhar dos outros. Foi isso, pelo menos, que ficou na obra dos grandes autores que a filmaram, oferecendo-lhe sempre o resgate que a própria imagem pode conter. No filme de Rossen, por exemplo, a personagem de Warren Beatty não sabe dizer a sedução de Lilith a não ser pela palavra «arrebatamento» - é a mais pura, porque não admite sinónimos.

João Lopes, Expresso de 16 de Dezembro de 1995 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:37 link do post
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