a dignidade da diferença
24 de Março de 2016

 

george steiner.JPG

 

«Há uma contradição no génio da literatura russa. De Pushkin a Pasternak, os mestres da poesia e da ficção russas pertencem ao mundo como um todo. Os seus poemas, romances e contos são indispensáveis mesmo quando os lemos em traduções fracas. Sem estas obras temos dificuldade em imaginar o reportório dos nossos sentimentos e da humanidade comum. Com o seu estilo historicamente breve e constrangido, a literatura russa partilha esta universalidade envolvente com a Grécia antiga. No entanto, o leitor não russo de Pushkin, Gogol, Dostoievski ou Mandelstam é sempre um intruso. Está essencialmente a espreitar para um discurso íntimo que, apesar da obviedade da sua força comunicativa e da sua pertinência universal, nem os críticos intelectuais mais experientes e perspicazes do Ocidente conseguem perceber com todo o rigor. O significado permanece obstinadamente nacional e resistente à exportação. Claro que isto se deve, em parte, a uma questão de língua ou, mais exactamente, à desconcertante gama de línguas à qual os escritores russos recorrem, e que vai das formas regionais e populares às formas altamente literárias e mesmo europeizadas. Os obstáculos que um Pushkin, um Gogol, uma Akhmatova põem no caminho da tradução integral são abundantes. Mas o mesmo se pode dizer a respeito dos clássicos escritos em muitas outras línguas, e apesar de tudo, os grandes textos russos conseguem fazer-se entender num determinado plano – na verdade, num plano bastante amplo e revelador.»

George Steiner, in George Steiner at The New Yorker, 2009

27 de Abril de 2014

 

brasileducom.blogspot.com

 

«Infelizmente, não tiveram uma magnanimidade comparável no momento da vitória americana na Guerra Fria. A reacção de muitas pessoas influentes perante a derrocada do império russo foi caracterizada pelo triunfalismo. Pareciam acreditar que o “mundo livre” tinha ganho e que era dever dos Russos aceitar as consequências e reorganizar a sua sociedade de acordo com um modelo mais aceitável. O facto de se tratar de um país orgulhoso com um historial ilustre que merecia simpatia e respeito num momento de necessidade não parece ter cruzado as mentes de algumas pessoas. Em vez disso, a Rússia foi tratada como um Klondike tardio, cheio de recursos naturais, mesmo a pedir uma corrida ao ouro. Claro que nem todos os russos perderam nesses anos caóticos. Fizeram-se fortunas e foram construídas bases de poder que irão provavelmente dominar a vida russa durante muitos anos. No entanto, para o russo comum, foram tempos de sofrimento e de humilhação nacional. A reacção de alguns americanos foi para além de uma mera celebração da vitória do “modo de vida americano” sobre os que seguiam uma filosofia rival. Para alguns (…) foi um triunfo dos “valores americanos” e da maneira americana de organizar a sociedade, triunfo esse que se impunha sobre todas as versões alternativas, do passado e do presente. Em 1992 (…) Francis Fukuyama criou uma expressão para designar o que tinha acontecido: “o fim da história”. Este conceito sedutor encorajou muitas pessoas a acreditarem que a combinação de organização capitalista e de instituições representativas que surgiu nos Estados Unidos nos 200 anos posteriores à Declaração de Independência era o objectivo natural da sociedade humana e a única coisa que faltava fazer era providenciar a sua instalação nas partes do mundo que ainda não tinham visto a luz. No seio do governo americano, um grupo de sonhadores entusiásticos fez planos para a chegada deste novo milénio. Esses sonhadores chamaram ao seu empreendimento “Projecto do Novo Século Americano”. Era um nome tão bizarro que nem se prestava a ironias.»

Cyril Aydon, The Story of Man – An Introduction to 150,000 Years of Human History

05 de Dezembro de 2012

 

 

A designação BRICS surge em 2001, cuja autoria coube ao economista inglês Jim O’Neill, para indicar quatro países com economias emergentes: a China, o Brasil, a Índia e a Rússia. Mais tarde, é incluída também a África do Sul. No respetivo relatório, o analista previu que nos próximos cinquenta anos aqueles países ocuparão o lugar cimeiro no ranking das maiores economias mundiais. Contudo, não estamos perante um bloco económico como, por exemplo, a NAFTA ou o Mercosul, ou político-económico como a União Europeia. Trata-se de um conceito associado aos grandes mercados emergentes que não define o modelo económico ou a situação política e social dos países que o integram. O BRICS não corresponde à imagem de um bloco coeso na medida em que não existe no seu seio um conjunto homogéneo de políticas comerciais, financeiras ou de investimento. Cada um dos países que o compõem não procura criar políticas comuns com os seus parceiros emergentes, na medida em que as políticas nacionais por si adotadas não são propriamente desejadas pelos restantes Estados. O conceito que está por trás da designação BRICS relaciona-se com os grandes mercados emergentes e nada nos diz sobre o modelo económico adotado pelos países que fazem parte do grupo, nem sequer sobre a situação política e social de cada um deles. Passemos a analisá-los melhor um a um.

 

 

Típica criação colonial, com uma lenta constituição de uma economia bem-sucedida, o Brasil teve um Estado unificado antes de ter uma economia integrada. Cativo de regimes semi-capitalistas anos a fio, o país transformou-se quando libertou as suas energias criadoras fruto da abertura económica e da liberalização comercial. Goza atualmente uma paz regional e tem um bom posicionamento geopolítico capaz de lhe trazer vantagens a nível regional como internacional. O seu mercado oferece, segundo os especialistas, boas oportunidades de investimento. A sua economia, porém, também sofre de alguma vulnerabilidade pois o tão elogiado crescimento económico parece abrandar e a inflação permanece ainda elevada. É indiscutível que o Brasil tem pela frente a oportunidade de aproveitar a vantagem demográfica no que diz respeito à relação entre a população ativa e a componente económica. Mas teme-se justificadamente que esta seja uma oportunidade perdida devido sobretudo à baixa qualificação técnica e educacional da sua população, o que condiciona certamente os ganhos de produtividade. A Rússia, amputada de territórios, de recursos naturais e humanos significativos, não parece capaz de recuperar a posição estratégica e política que já deteve e cuja expansão geopolítica atingiu o seu cume no final dos anos 70. Afundada no caos destruidor da sua economia socialista e dominada pela força carismática dos seus líderes de então, eficientes na organização partidária mas incapazes de perceber o modo de funcionamento de uma moderna economia de mercado, a Rússia teve uma transição para o capitalismo bastante errática. Embora possuindo grande arsenal nuclear e tendo uma capacidade militar não negligenciável, não está em condições de desafiar os gigantes da economia mundial, pois depende demasiado de recursos finitos e a sua demografia está em declínio. Conseguindo romper com a economia planificada e com o protecionismo estatal exagerado, a Índia domina com muita competência os serviços eletrónicos que oferece de forma assaz competitiva, mas continua com graves problemas para resolver. Como conseguirá, no futuro, absorver, na economia de mercado, milhões de camponeses que ainda permanecem numa economia de base ancestral? Conhecida pela diversidade de culturas, idiomas e crenças religiosas, e libertando-se finalmente de décadas vividas num sistema de apartheid, i.e., de deplorável segregação social, a África do Sul ainda não é reconhecida por muitos investidores como fazendo parte dos países integrados no BRICS. Mas apresenta um enorme potencial, na medida em que a sua economia está em pleno desenvolvimento, contrastando com o abrandamento das maiores economias do mundo. Em bom rigor, a China parece ser, dos países que compõem o BRICS, o único com capacidade real para ocupar uma posição dominante no plano económico e político à escala mundial. Demonstrou uma enorme ambição em recuperar rapidamente as décadas perdidas de socialismo doentio, adaptando-se com celeridade assinalável aos fundamentos das modernas economias de mercado, fruto da aprendizagem obtida junto dos líderes científicos e tecnológicos do capitalismo mais avançado, copiando e moldando o know-how ocidental através do fabrico dos mesmos produtos que se distinguem apenas pelos desenhos e marcas próprias. Lamenta-se, contudo, que ainda os seus cidadãos ainda estejam muito longe de igualar os níveis de bem-estar individual das populações ocidentais das países capitalistas mais desenvolvidos, dada a circunstância daqueles estarem sob o jugo e a alçada de um regime autoritário que só liberalizou a economia e esqueceu-se do resto.

 

 

Quanto à posição económica e à estratégia geopolítica, estima-se que a economia do grupo representará num futuro relativamente próximo 1/5 da economia mundial. Os países que compõem o BRICS não estão dispostos a representar o papel de meros espectadores nas grandes decisões mundiais. A sua intenção é ter uma intervenção mais direta na constituição de uma nova arquitetura e de regras internacionais em matéria financeira que proporcionem a formação de uma nova ordem mundial mais democrática. Contam não só com a dimensão do território e da população, mas também com o crescimento das suas economias e com a capacidade militar e energética que os colocam numa posição privilegiada entre os interlocutores mais importantes a nível internacional, dando-lhes ainda capacidade para moldar o futuro de outros países em desenvolvimento. Porém, as relações políticas e económicas internacionais assentam sobretudo na troca e produção de ideias e conceitos sobre a forma de organização político-económica do mundo contemporâneo. E, nesse sentido, não obstante o crescimento económico dos países que compõem o BRICS, mantém-se o domínio intelectual do mundo ocidental desenvolvido. O BRICS não se distingue por seguir um rumo económico autónomo e nem sequer funciona como um bloco coeso, na medida em que não possuem um conjunto homogéneo de políticas no plano económico, financeiro e de investimento. Sendo verdade que o BRICS representa um fator positivo no domínio da economia mundial, ainda é muito cedo para defender que, àquela escala, o sejam igualmente no plano da geopolítica, sobretudo por que ainda está por demonstrar que tenham tomado ações decisivas para tornar as suas governações mais democráticas e respeitadoras da dignidade humana e dos princípios e valores fundadores de um mundo evoluído e civilizado. Se deste estudo resulta que será provavelmente a China o único dos países que compõem o BRICS a reunir as condições necessárias para, futuramente, ocupar uma posição de liderança geoestratégica nos planos político e económico, ainda assim, não deixa de ser perturbador verificar que o oriente (do qual também faz parte outro dos países emergentes, i.e., a Índia) não hesita em trocar a identidade pela liderança, abdicando da sua tradicional visão espiritual da vida e da sua perceção transcendente da história em prol de uma visão que olha para o mundo contemporâneo não como uma humanidade comum, mas apenas como um único mercado.

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