a dignidade da diferença
02 de Setembro de 2015

 

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O aviso sobre o perigo da insustentabilidade da Segurança Social a curto prazo devia ser levado mais a sério, pois não vem de pessoas conotadas, por exemplo, com o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista ou o Livre, isto é, alguém da oposição cuja crítica ao partido do governo se considerasse um feito natural. Não, o aviso vem de alguém de dentro, mais precisamente do Prof. Mira Amaral, que, no domínio dos princípios, até concorda com a proposta da coligação CDS/PSD. Na crónica que assinou na edição do semanário Expresso de 22 de Agosto, Mira Amaral deixa o recado à coligação, aproveitando a sua experiência como gestor financeiro da Segurança Social entre 1983 e 1985 e como responsável governativo no biénio seguinte. Ficam aqui gravados os pontos mais relevantes da repreensão séria e honesta: «Como gestor financeira da Segurança Social (…) percebi as vulnerabilidades do sistema distributivo em que os trabalhadores activos que estão a descontar para a TSU estão a financiar a reforma dos actuais pensionistas na esperança que a geração vindoura lhe financie a sua (…) Encomendei então um estudo sobre a sustentabilidade do sistema e comecei a falar em (1) novas formas de financiamento (…) (2) implementação de um sistema de três pilares (…) no primeiro se continuava a descontar na base de um salário mínimo (…) recebendo-se então uma pensão mínima; no segundo, constituía-se obrigatoriamente uma conta poupança-reforma individual em regime de capitalização (…) no terceiro, voluntário e equivalente aos esquemas dos PPR, em que quem quer mais segurança obviamente vai pagá-la (…) O problema desta mudança é que faz um plafonamento das contribuições para o regime distributivo, diminuindo as receitas deste e colocando, por isso, em causa o pagamento dos actuais pensionistas. (…) Por isso é que a proposta da coligação CDS/PSD sobre o plafonamento dos descontos para a TSU é neste momento financeiramente inexequível! No domínio dos princípios concordo (…) com el, mas com o (…) nível de dívida pública, ela só pode constituir uma manobra de diversão (…) E curiosamente tal é proposto por um governo que destruiu aquilo que já era no fundo um segundo pilar colectivo, os fundos de pensões (…) que foram expropriados pelo Estado para tapar o buraco público, ficando os (…) trabalhadores à mercê de um regime (…) com problemas de sustentabilidade!» Sucede que, para agravar o actual estado de coisas, as propostas excessivamente optimistas do PS relativamente ao regime contributivo da segurança social também parecem apontar para uma quebra repentina das receitas, colocando em causa o pagamento imediato das pensões. Estarão a desenvolver as condições para arruinar a segurança social, apresentado então o caso como um facto consumado? Na verdade, começa a não sobrar tempo nem espaço para que os políticos, dirigentes e técnicos responsáveis e conhecedores do problema se sentem à mesa para discutir serenamente a melhor solução para ultrapassar as dificuldades, para que uma fatia considerável dos portugueses não se sinta brevemente vergada ao destino que lhes está a ser imposto…

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:09 link do post
21 de Maio de 2011

 

 

Somos um país onde se destruiu a indústria, a pesca e a agricultura, a troco dos imensos fundos comunitários que, em vez de servir para o investimento produtivo, foram desviados para a construção civil descontrolada e para cobrir o território com quilómetros e quilómetros de auto-estradas - algumas delas com percursos paralelos -, um país onde os negócios do Estado com os privados e as respectivas parcerias deviam, pelos prejuízos pornográficos que intencionalmente têm causado, ser objecto de responsabilidade política e criminal; um país onde, em matéria desportiva, depois de a justiça, bem ou mal, ter ilibado os principais suspeitos do caso «Apito Dourado», jornalistas, adeptos e dirigentes com responsabilidades decidem fazer justiça no «YouTube», numa atitude típica das sociedades primitivas, um país onde aqueles protagonistas que tanto mal lhe têm feito continuam a emitir opiniões doutrinárias para ultrapassar a crise com os mesmos argumentos poeirentos de sempre, já gastos de tão patéticos que são: corte nos salários, sacrifícios para os trabalhadores, os pensionistas, os desempregados, os agricultores, etc, etc - como se fosse por culpa deles que o despesismo do Estado chegou a este ponto. Um país onde as alternativas políticas, à esquerda e mais à direita só têm utilidade no banco da oposição, pois já vimos até onde pode ir o radicalismo, o fanatismo e a paranóia dos esquerdistas, dos comunistas e da direita mais incisiva, se um dia lhes coubesse o governo da nação. Enfim, um país onde o jornalismo caiu até chegar a um nível de vão de escada, mas em que, ainda assim, há, felizmente, quem escreva direito nas páginas dos jornais, como foi o caso de Henrique Monteiro no magnífico artigo que assinou no Expresso da semana passada, do qual destaco as seguintes passagens:

 

 

«A pré-campanha confirma que a estratégia de Sócrates se baseia numa ideia simples: estamos perante uma guerra terrível! De um lado, os defensores do Estado social; do outro, os seus exterminadores. Sócrates está, como sempre, com os bons. A narrativa simplista, porém, destrói-se com memória. (…) A situação a que chegámos, além do muito que tem a ver com a crise internacional, é fruto dos nossos erros estruturais, todos eles construídos, instigados ou permitidos por PS ou PSD. É por isso que, de um modo ou outro, já todos prevíamos as medidas que a EU e o FMI agora nos impõem. (…) Mas os últimos seis anos vincaram fortemente o rumo que até aqui nos conduziu. Somos mais do que nunca uma sociedade em crise, fragmentada, descrente, que assistiu a demasiadas faltas de vergonha. Hoje, pensionistas, trabalhadores, pequenos empresários e agricultores vêem-se obrigados a ter de pagar o dinheiro que o Governo desperdiçou. Mas não foi com pensionistas ou trabalhadores que houve derrapagens e se cometeram excessos. Foram, sim, estradas inúteis, projectos inúteis, consultadorias inúteis, propaganda inútil e boys inúteis que deram cabo do país. (…) Por muito que agitem os fantasmas do neoliberalismo, o que realmente apavora é o apego ao poder de quem nada aprendeu com a crise; de quem todos acusa e se diz vítima inocente após seis anos em que governou como quis. Por mim, bem podem gritar que vêm aí os lobos. Lobos foram eles.»

 

Ou seja, se já é difícil explicar o voto alternativo – que parece, mentalmente, existir apenas na cabeça dos muito crédulos -, o voto insistente no actual primeiro-ministro já vai muito para lá do humanamente explicável, só o autismo e a total irresponsabilidade parece justificar nova eleição de quem perdeu toda a legitimidade para governar.

publicado por adignidadedadiferenca às 12:54 link do post
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