a dignidade da diferença
23 de Junho de 2014

 

 

«The late 60’s in Brazil produced an explosion of creativity that is still reverberating throughout the world… and Os Mutantes (The Mutants) were the most outrageous band of that period. Their creative cannibalism produced psychedelic gems unlike anything else, and they sound as relevant today as anything happening anywhere. They were exactly what their name implies – a mutant genetic recombination of elements of John Cage, The Beatles, and bossa nova. A creature that was too strange and beautiful to live for very long, but too strong to ever fade away. It lives again. Be prepared.»

David Byrne

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:24 link do post
19 de Junho de 2014

 

 

Em 1967, quando a Bossa Nova já dava alguns sinais de desgaste e cristalização, a música brasileira voltou a sintonizar-se com a modernidade e a ocupar o centro das atenções, ganhando nova importância à escala mundial. Com o Tropicalismo, um dos mais míticos movimentos culturais no campo das artes - sobretudo na música e no cinema -, aconteceu uma nova e vibrante revolução estética cujo plano de actividades girava em torno da ideia «act local, think global». Tropicália, o mais recente documentário de Marcelo Machado, aborda os acontecimentos mais marcantes daquele movimento, conduzindo-nos aos sons e às imagens da época, numa montagem feliz de depoimentos dos seus protagonistas intercalados com imagens de arquivo praticamente inéditas. O autor apresenta-nos o interior de uma imparável encenação artística, na qual evolui toda a dinâmica do movimento e, sem esquecer o talento e o papel fundamental de Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão ou Tom Zé, sobressai o génio criativo de Caetano Veloso, dos Mutantes e de Rogério Duprat, criadores e encenadores de um glorioso canibalismo musical, onde, vítimas do seu apetite devorador, cabiam todas as músicas do mundo, magnificamente equilibradas num trapézio de sons subversivos, guitarras eléctricas, acordes dissonantes e orquestrações vanguardistas.

 

01 de Fevereiro de 2009

Para o que seria a estréia tropicalista, a apresentação de “Alegria, alegria” no festival da TV Record, estávamos todos certos, Gil, Guilherme e eu, de que um grupo de iê-iê-iê (rock) deveria ser contratado como acompanhante. Antes que eu pudesse comunicar minha intenção de convidar o RC7 a Guilherme, ele surgiu com uma solução irresistível. A casa noturna paulista O Beco, de Abelardo Figueiredo, um velho conhecido de Guilherme, tinha sob contrato um grupo de rock argentino chamado Beat Boys, composto de jovens músicos portenhos muito talentosos e conhecedores da obra dos Beatles e do que mais houvesse. Guilherme, que os ouvira casualmente numa ida ao Beco, me sugeriu que fosse conferir. Ao vê-los e ouvi-los, soube que aquilo era a coisa certa. O aspecto do grupo de rapazes de cabelos muito longos portando guitarras maciças e coloridas representava de modo gritante tudo o que os nacionalistas da MPB mais odiavam e temiam.

 

Alegria, alegria

 

Há um critério de composição em “Alegria, alegria” que, embora tenha sido adotado por mim sem cuidado e sem seriedade, diz muito sobre as intenções e as possibilidades do momento tropicalista. Em flagrante e intencional contraste com o procedimento da bossa nova, que consistia em criar peças redondas em que as vozes internas dos acordes alterados se movessem com natural fluência, aqui opta-se pela justaposição de acordes perfeitos maiores em relações insólitas. Isso tem muito a ver com o modo como ouvíamos os Beatles – de que não éramos (eu ainda menos do que Gil) grandes conhecedores. A lição que, desde o início, Gil quisera aprender dos Beatles era a de transformar alquimicamente lixo comercial em criação inspirada e livre, reforçando assim a autonomia dos criadores – e dos consumidores. (...) Nós partiríamos dos elementos de que dispúnhamos, não da tentativa de soar como os quatro ingleses. No meu caso – tanto em “Alegria, alegria” quanto na posterior e mais rebuscada “Clara” – há a presença (assumidamente consciente à época) do judaísmo pernambucano de Franklin Dario. Os Beat Boys se sentiram à vontade com esse material algo original mas talvez pouco consistente para beatlemaníacos. (...) As canções tropicalistas não se parecem com as canções dos Beatles – não na mesma medida em que essas outras são paródias delas.

Suponho que foi o maestro Júlio Medaglia quem promoveu a aproximação entre nós e o grupo de músicos eruditos contemporâneos de São Paulo a que ele pertencia. Medaglia pôs Gil em contato com Rogério Duprat que, por sua vez, o pôs em contato com os Mutantes.

A canção que Gil escolhera para apresentar o ainda não nomeado tropicalismo ao público do festival era uma adaptação de temas básicos de cantos de capoeira ao método harmónico de cortes bruscos (...) como sustentação da narrativa fortemente visual, na letra, de um crime passional ocorrido entre gente humilde num domingo em Salvador. Enquanto a minha canção se referia a estrelas de cinema (Brigitte Bardot, Claudia Cardinale), o “Domingo no parque” de Gil fora concebido quase como um filme. Com uma capacidade musical imensamente maior do que a minha, Gil entrou num diálogo fascinante com o músico erudito de vanguarda Rogério Duprat e com o grupo de rock Mutantes, criando um arranjo híbrido de trio de rock, percussão baiana (berimbau) e grande orquestra.

Os Mutantes eram três adolescentes da Pompéia, bairro de São Paulo (...) Quando Duprat os apresentou a Gil, este comentou comigo assustado: “São meninos ainda, e tocam maravilhosamente bem, sabem de tudo, parece mentira”.

 

Eles pareciam três anjos. Sabiam tudo sobre o rock renovado pelos ingleses nos anos 60, tinham a cara da vanguarda pop da década. Diferentemente dos roqueiros dos anos 50, eles eram refinados, tinham um estilo de comportamente cheio de nuances e delicadeza. Sérgio, com apenas dezasseis anos, exibia uma técnica guitarrística de primeira linha, em nível internacional. Rita e Arnaldo eram namorados desde a infância e tudo em volta deles tinha um sabor a um tempo anárquico e recatado. Ela era extramente bonita e sua porção americana muito evidente (era filha de um emigrante americano com uma descendente de italianos) lhe dava um ar em que se misturavam liberdade e puritanismo. (...) Lembro apenas que, por causa de Arnaldo, tínhamos de evitar palavrões em presença de Rita. (...) Era, no entanto, prazeroso, além de espantoso, tê-los por perto. E o resultado do trabalho  - e do trabalho subsequente deles como grupo e como artistas individuais (Rita tornou-se e é até hoje a maior estrela feminina do rock brasileiro) – foi entusiasmante.

 

Excerto do livro «Verdade Tropical» de Caetano Veloso

 

Domingo no parque

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:54 link do post
12 de Junho de 2008

 

A propósito da comemoração dos 40 anos do genial disco-manifesto «Tropicalia ou panis et circencis», que marcou oficial, colectiva e musicalmente o prodigioso movimento estético que recebeu o nome de tropicalismo, vou iniciar aqui uma rubrica dedicada ao assunto, através da voz do seu mais influente interveniente, Caetano Veloso, muito provavelmente, o maior compositor de língua portuguesa.

 

Parece-me a coisa mais justa e pertinente, pois, para mim, o tropicalismo é, ainda, o combustível que alimenta grande parte da óptima música que se faz hoje em dia em todo o mundo, através do seu multiculturalismo, da pilhagem de todos os detalhes e sinais exteriores sem que a música perca a sua identidade cultural ou a sua origem.

 

Partindo da sua matriz indiscutivelmente brasileira voou, livre e majestosamente, sobre o mundo, atravessando países e oceanos, devorando o tempo ao conjugar na perfeição presente, passado e futuro. Um exemplo para o mundo. Mais do que a bossa nova, o tropicalismo foi a mais importante e criativa revolução musical brasileira, e a que se mantém, ainda hoje, mais actual.

A partir de agora, como prometi, vou deixar falar Caetano, mostrando excertos do seu livro «Verdade Tropical», deixando, aqui e ali, sempre que julgue necessário, pequenas anotações inseridas no seu contexto, a que vou adicionando os já habituais vídeos e fotografias para dar um colorido mais vibrante à iniciativa.

 

Por aqui vão passar Caetano Veloso (naturalmente), Gilberto Gil, os magníficos «Os Mutantes», Nara Leão, Gal Costa, Tom Zé, o cinema novo brasileiro com Glauber Rocha à cabeça, a poesia concreta, o maestro vanguardista Rogério Duprat (essencial para a concretização da ousadia musical) e muitos outros. E também não vou deixar passar em claro o facto de Chico Buarque, que muitos, equivocamente, consideram o nome maior da música popular brasileira, apoiar, naquele momento vital de ebulição rítmica e geracional, o lado errado da barricada, ou seja, o do conservadorismo e do  reaccionarismo estético.

Estejam atentos.

 

 

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