a dignidade da diferença
06 de Abril de 2014

Um livro indispensável para se aprender a usar correctamente a nossa língua materna, enquanto «organismo vivo em permanente evolução», a qual, segundo as autoras, é encarada nesta obra de duas perspectivas distintas, mas que se completam: como meio de comunicaçao e como objecto de estudo. Determinante para quem pretende desenvolver a clareza de discurso e de raciocínio, trata-se de um trabalho especializado, embora acessível, que se destina sobretudo a cidadãos e muito pouco a meros consumidores.

 

 

«Obrigatório é conhecer o funcionamento da língua, suas regras e excepções, para não se cair no ridículo de dizer e escrever «as bolsas caiem por causa da guerra» ou «hádem fazer o que for necessário para resolver a crise»; «tolerável» pode ser a opção pelo género masculino de personagem, «Rogério Samora representou bem o personagem»; de «emprego facultativo» pode ser a escolha entre estadia e estada, seja em relação a pessoas, seja em relação a navios; «grosseiro» é confundir adesão com aderência, ir ao encontro de com ir de encontro a, preferir massivo a maciço; «inadmissível» é que «hajam tantas pessoas a maltratar a sintaxe do verbo haver». A aprendizagem da língua materna não se reduz à simples aquisição de conhecimentos, pois é factor indispensável para a formação de uma personalidade intelectual, social e cultural, capaz de aprender, de intervir socialmente, de evoluir linguisticamente e de se adaptar a todas as situações de comunicação. Sendo a língua materna simultaneamente objecto e instrumento de aprendizagem e meio de acesso a múltiplos saberes, o domínio que dela se possa ter condiciona o êxito individual. Aprender a falar e a escrever é aprender a comportar-se como ser humano. É um meio para aceder à plena cidadania. Falar não é só saber articular os sons. É saber organizar e exprimir com clareza o pensamento. Escrever é uma técnica que evolui e se consolida com a prática continuada. É um facto: prendemos a falar, falando e a escrever, escrevendo. E aprendemos a falar e a escrever, lendo e comunicando.»

Edite Estrela, Maria Almira Soares e Maria José Leitão, Saber Escrever Saber Falar.

22 de Junho de 2013

 

 

Não sei bem se a ideia generalizada é essa, mas fiquei com a impressão de que os defensores do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foram maioritariamente associados à esquerda portuguesa. Ou, pelo menos, alguns dos seus fundamentos. Porém, não terá sido bem assim. Se recuarmos à sua origem, descobrimos, com a preciosa ajuda do notável, delicioso e esclarecedor Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico, da autoria do jornalista (e bloguista) Pedro Correia, onde nasceu a vontade de rapidamente negociar e assinar o acordo. As palavras são de Pedro Santana Lopes, secretário de Estado da Cultura do governo de Aníbal Cavaco Silva na altura em que se começou a formular a ideia de um acordo unificador da língua portuguesa. Passo a citar as suas declarações ao semanário Sol de 13 de Fevereiro de 2012 (transcritas no referido livro de Pedro Correia): «Cavaco Silva foi peremptório: em seu entender, o Acordo Ortográfico era essencial para que, no século XXI, o português falado em Portugal não ficasse com um estatuto equivalente ao do latim. Cavaco Silva fez-me notar que, nos leitorados das universidades um pouco por todo o mundo, nas traduções em organizações internacionais e em várias outras instâncias, era cada vez mais utilizado o português conforme escrito e falado no Brasil. Por isso se trabalhou muito, por isso pensei muito no que então o primeiro-ministro me tinha dito. E não tenho dúvidas de que tinha toda a razão». Que o agora Presidente da República venha admitir que «em casa continua a escrever como aprendeu na escola» define bem o seu perfil e a sua qualidade política.

19 de Fevereiro de 2012

  

 

Existem, na verdade, razões apresentadas pelos entendidos em etimologia e em fonética que aparentemente podem ser aproveitadas pelas duas partes do conflito linguístico. Analisados no seu conjunto, os argumentos são manifestamente insuficientes para se tomar a defesa exclusiva de uma das causas, i.e., parece-me que existem boas razões para tomar partido por uma delas, mas reconheço que o contrário também colhe - não estou convencido do perigo de fechamento vocálico, mas, por outro lado, parece-me evidente haver uma contradição nas normas da hifenização. Contudo, já me parece difícil, em princípio, defender a suposta inconstitucionalidade do Acordo Ortográfico (AO), na medida em que não é a língua que muda, não é alterado o significado das palavras. Sou moderadamente contra o AO porque entendo que a nossa língua deve evoluir por si e não ser imposta por decreto e também porque, em bom rigor, ainda não estou convencido das vantagens trazidas pela aproximação dos idiomas (não irá, por exemplo, a supressão facultativa - ou, dito de outra forma, a dupla grafia - contra aquele princípio?). Mas não me choca um AO que procura aproximar os países que falam a mesma língua e irritam-me profundamente aqueles que afirmam que o AO põe em causa uma língua que é nossa e, como tal, fragiliza a nossa identidade, pois a língua também é propriedade dos outros povos, também os identifica. Razões profissionais obrigam-me a escrever de acordo com as normas do novo AO. Por conseguinte, pelos motivos apresentados e uma vez que não faz qualquer sentido utilizar duas formas de escrita consoante estou ou não no exercício da minha profissão, vou passar a escrever em função das novas regras. Trata-se, como vimos, de uma adesão mas não de uma defesa do novo AO.

publicado por adignidadedadiferenca às 14:12 link do post
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