a dignidade da diferença
13 de Novembro de 2011

 

 

Laura Marling é, com apenas 21 anos de idade, uma das mais expressivas e talentosas songwriters da actualidade. Umbilicalmente ligada à cena nu-folk londrina – seja lá o que isso for –, Laura Marling possui, desde já, um domínio perfeito da estética folk, cuja formação musical se desenvolveu, segundo a própria, através da escuta persistente das colecções de discos que os pais detinham. Herdeira da melhor tradição folk dos anos 60 e 70 do século passado e sobretudo do génio emocional transcendental de Judde Sill e de Leonard Cohen, filtrado por micro-explosões eléctricas que, em regime de usufruto simultâneo, coabitam com suaves melodias de feição acústica esventradas pelo cinismo e pela mordacidade dos seus (quase todos) magníficos textos, Laura Marling confirma, depois do anterior e igualmente notável I Speak Because I Can, um talento precoce que constrói um dos mais pessoais, emocionais, inventivos e intensos percursos musicais da actualidade, assente no entendimento correcto do uso que deve dar à sua voz como elemento adaptável às necessidades básicas da canção, acompanhado pelas enxutas, certeiras, maleáveis, tensas e sujas orquestrações instrumentais que dedicam uma especial atenção ao espaço, ao volume e à tonalidade. Um talento precoce que contribui para a consagração merecida daquele que, como vimos sublinhando há vários meses, deverá consagrar-se como o ano musical das mulheres, na medida em que ainda temos para acrescentar o regresso de St. Vincent, a dose dupla de June Tabor (desta vez com a Oyster Band, num registo folk-rock que perdeu o acento tónico que Freedom and Rain pôs no punk mas é igualmente brilhante) e o novo trabalho da magnífica Shara Worden (My Brightest Diamond).

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:50 link do post
04 de Março de 2009

 

Um carácter confuso e imprevisível, fruto de uma vida de deliquência, drogas e prostituição, é matéria mais do que suficiente para alimentar as canções feitas de histórias em busca da redenção e que nos oferecem um retrato inquietante de almas inadaptadas e, quase sempre, em risco de perdição – por vezes, autênticos fantasmas que por lá habitam – e que são, no fundo, o reflexo perturbado e labiríntico em que se transformou a mente mística e cristã de Judee Sill.

 

Como se isso já não bastasse, a sua prodigiosa criatividade ainda se expõe em brilhantes canções retiradas do cancioneiro popular americano: folk, country, gospel e blues; enriquecendo-as orquestralmente com os mais espantosos, complexos e requintados bordados sonoros que a música pop registou até aos dias de hoje.

Melodias profundas e desenhos polifónicos pouco usuais, acrescidos por uma noção perfeita do ritmo e do espaço (ou, até, dos seus limites) e aliados a um conceito definitivamente absorvido da arquitectura sonora enquanto essência fundamental na estrutura musical de uma canção, brilham intensamente e de forma inesquecível nos dois primeiros álbuns da compositora que viria a falecer em 1979, vítima de overdose, com 35 anos.

 

Se o álbum de estreia já era muito mais do que o esboço do muito que Judee Sill tinha para mostrar é, contudo, em Heart Food (um dos discos fundamentais do século XX) que a sua criação (ou visão) musical vai atingir a perfeição absoluta. The Kiss, The Phoenix ou The Donor são exemplos maiores de um génio transtornado mas de uma imensidão musical sem limites. Não admira, por isso, que um dos mais brilhantes artesãos da música pop, Andy Partridge (dos seminais XTC), seja seu admirador confesso.

Fica, entre outros, o exemplo de The Kiss. A versão é óptima mas, acreditem, a interpretação no disco é incomparavelmente superior.

 

The Kiss

 

The Phoenix

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:24 link do post
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