a dignidade da diferença
23 de Novembro de 2014

 

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«A América não tem assim tantos realizadores que lhe permitam dar-se ao luxo de pôr John Carpenter de lado. Viesse tal a acontecer, e quase aconteceu, e seria ele o último a rir: a obra fala por si. Mas por que razão foi tão marginalizado? O senso comum diz que Carpenter entrou num declínio abrupto depois dos dias de glória de “Assault on Precint 13” e “Halloween”, mas será que alguém pode sustentar semelhante julgamento? Existirá outro tipo de julgamento na actual cultura do cinema? Examinando a sua obra com atenção, percebe-se que tem uma das mais consistentes e coerentes obras do cinema moderno, no qual os triunfos – os dois sucessos dos primórdios, “The Fog”, “Escape From New York”, “Prince of Darkness”, “They Live” e “In The Mouth of Madness” – superam de longe os filmes menores ou problemáticos.

 

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Nunca fez nada que envergonhasse. Nunca fez um filme desonesto ou preguiçoso. Mesmo e seu “remake” universalmente ignorado de “Village of the Damned” está feito lindamente, ainda para mais com uns 20 minutos brilhantes. Diria que a marginalização de Carpenter se deve a algo mais triste e menos difícil de identificar, sobre o qual não tem controlo. Quer gostemos, quer não, regemo-nos por normas e paradigmas de realização, enquanto as mesmas mudam como placas tectónicas provocando-nos mudanças inconscientes em relação à forma de ver filmes, e à forma como vemos uns em relação a outros. E sem sabermos, muitos de nós fazemos algo que frequentemente censuramos noutras pessoas: cedências às modas. Não há dúvida de que as modas no cinema Americano mudaram a milhares de quilómetros de distância de John Carpenter. Ele é um homem do analógico num mundo digital, que rege o próprio trabalho de acordo com critérios de valor a que já ninguém presta atenção. Carpenter mantém-se totalmente sozinho enquanto último realizador de género na América.»

Kent Jones

02 de Junho de 2012

 

 

They Live, realizado em 1988, é uma das obras mais amarguradas e pessoais do seu autor, o maverick John Carpenter. Aproveitando uma história onde extraterrestres se escondem atrás de máscaras humanas, dominando a América através de mensagens subliminares que só poderão ser detetadas por meio de óculos especialmente fabricados para o efeito, Carpenter testemunha e denuncia a standardização comercial e a uniformização de pensamento, a estupidez de quem se resigna com o consumo banal de fórmulas pré-fabricadas, e confronta-se com o conservadorismo e a apatia excessivos, revelando a tensão e o medo de uma realidade filmada a preto e branco. Fá-lo de uma forma portentosamente eficaz, explorando ao máximo o mínimo de recursos disponíveis, num exemplo maior de frontalidade e integridade artística, de economia narrativa na apresentação da história e das personagens, do modo como usa o espaço (o subterrâneo, sobretudo), os movimentos de câmara ou a montagem. Filme sombrio e independente, crítico feroz da América como modelo de um capitalismo selvagem, radical e detestável, They Live, cada vez mais atual - e está aí a passagem do tempo para o confirmar - é um dos grandes filmes políticos da história do cinema, um intenso libelo pela defesa da liberdade.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 12:41 link do post
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