a dignidade da diferença
23 de Fevereiro de 2015

 

o rei da comédia.jpg

 

The King of Comedy (1983) descreve em tom de comédia negra a história de Rupert Pupkin (superiormente interpretado por Robert de Niro), banal candidato a vedeta, anseia por aparecer no show televisivo do comediante que mais admira. Até o conseguir, Pupkin, personagem mentalmente instável, persegue desesperadamente a vedeta televisiva - papel que o cineasta Martin Scorsese, num magnífico e inesperado golpe de asa, entrega a Jerry Lewis, compondo a sua personagem entre uma solidão extrema e o desdém pelos admiradores, precisamente o oposto da imagem clássica criada pelo genial comediante - transformando essa perseguição num verdadeiro pesadelo, tragédia de indivíduos impossível de resgatar, na qual a utopia do protagonista cede lentamente o seu lugar à cruel evidência da realidade. Verdadeiro fracasso de bilheteira e ainda hoje injustificadamente mal-amado pela crítica especializada, The King of Comedy é simultaneamente uma sátira cruel do culto das celebridades e uma peça fundamental sobre as relações entre o cinema e a televisão, onde esta última surge como raiz determinante de todas as ilusões: sociais, individuais e colectivas. Arrancando aparentemente como uma simples paródia interna do género cómico, o cinema de Scorsese especializa-se uma vez mais na demanda pelos destinos individuais dos seus protagonistas e suas múltiplas e fascinantes contradições.

 

 

17 de Março de 2012

 

 

O génio burlesco de Jerry Lewis merece ser recordado sobretudo naquele período da sua carreira onde, libertando-se das restrições impostas pelas ideias estéticas de outros autores a quem se encontrava subordinado, decidiu realizar os filmes que interpretava. Se o seu talento interpretativo evolui de forma sistemática e consistente, cujo feliz encontro com o humor irónico e caótico de Frank Tashlin lhe abriu imensas possibilidades para explorar a sua personagem visual, foi no momento em que decidiu ser autor das obras que protagonizou que Jerry Lewis demonstrou a sua arte superior numa década prodigiosa (os anos 60 do século XX) de obras-primas sucessivas: o fascínio de uma mise-en-scène simultaneamente desmedida e delicada que põe a nu toda a superficialidade de modelos, cantoras e manequins em cenário de casa de bonecas em The Ladies Man, de 1961, a espantosa riqueza cromática e a superior elaboração representativa que conduz a uma sátira impiedosa dos preconceitos conservadores da época no irrepetível The Nutty Professor, de 1963, o arrojado tour-de-force interpretativo no exuberante virtuosismo técnico de The Family Jewels, de 1965, e, acima de todos - opinião que vou consolidando à medida que o tempo passa -, essa assombrosa antologia de todos os gags possíveis e imaginários que é The Patsy, de 1964, o mais cruel e certeiro julgamento apontado ao fingimento e aos métodos utilizados pelas fábricas de sonhos, as quais, sob a proteção de apelativos mas odiosos disfarces, mais não fazem no fundo que valorizar e promover a inutilidade e a imensa pobreza da mediocridade. Essencial ainda hoje.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:47 link do post
09 de Junho de 2008

 

Jerry Lewis é o cineasta mais notável do burlesco na segunda metade do século XX. Começa por se apropriar da tradição, «copiando» os grandes autores do burlesco, mas ao protagonizar um momento de viragem história no seio da indústria cinematográfica americana – marcada pelo desmantelamento das referências clássicas -, procura testar criativamente os seus limtes, alargando, sempre que pode, os seus horizontes. Após uma série de filmes menores, onde fez dupla com Dean Martin, o talento de Jerry Lewis começa a destacar-se, finalmente, nos filmes realizados pelo enorme Frank Tashlin, como «Pintores e raparigas» e «Um espada para Hollywood».

 

Segue-se a separação natural de Dean Martin, cujos números de canto só serviam para «emperrar» a imaginação vertiginosa do companheiro. Lewis torna-se, então, autor dos seus próprios filmes onde, numa filmografia excepcional em que é essencial a utilização do som como meio de expressão primordial, se destacam três filmes absolutamente espantosos: o génio gestual absoluto e a sátira cruel aos galãs da época (dirigida a Dean Martin, obviamente) em «The nutty professor», a inacreditável encenação dessa autêntica casa de bonecas criada em «The ladies’ man», com alguns dos mais belos movimentos de grua e, por fim, o fabuloso «The patsy» que nos apresenta a incrível história da imposição à força de uma vedeta e que, ainda hoje, vale como uma das mais lúcidas análises à «fábrica de sonhos» de Hollywood (e não só). Quase todos os seus filmes vivem, livremente, de uma sucessão de gags de uma riqueza assombrosa: gags visuais (a célebre cara de borracha), verbais, sonoros, destruição total ou parcial de cenários e a importância e presença fundamental do corpo como elemento de (in)adaptação a tudo o que o rodeia. Para terminar, deixo a mais notável explicação acerca do virtuosismo do autor, actor e personagem Jerry Lewis, que pertence ao n.º 197 dos «Cahiers du Cinéma» cujas notas foram traduzidas e publicadas pela Cinemateca Portuguesa numa edição de Julho de 1981, pág, 26, e que passo a transcrever: «Há três posições criadoras em Lewis: em frente da câmara (actor), atrás (cineasta) e no interior (personagem), Seria errado confundir rapidamente a primeira e a última. Se é raríssimo que a falta de jeito do actor sirva o virtuosismo do personagem, é, pelo contrário, frequente nos seus filmes que a inadaptação do personagem não se manifeste senão graças aos talentos do actor. Exemplo deste último caso: a entrada de Jerry em «The patsy». Destreza do personagem e virtuosismo do actor conjugam-se muitas vezes para criar um efeito de surpresa suplementar (exemplo: a cena do bilhar em «The Family Jewels»).

 

Enfim, o cineasta Lewis revela um gosto acentuado pela proeza técnica, como testemunham entre outros, a última cena de «The Family Jewels», onde a câmara passa sem choque nem corte por todos os tios (todos incarnados por Lewis), o movimento de grua de «Ladies’ man», que descobre o conjunto do cenário, e a sequência do helicóptero de «The big mouth».

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