a dignidade da diferença
01 de Março de 2015

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Les Parapluies de Cherbourg (Os Chapéus-de-Chuva de Cherbourg), de Jacques Demy, será a alma gémea cinematográfica de Splendor in the Grass (Esplendor na Relva), de Elia Kazan, não obstante se afastar das obsessões eróticas nem se deixar inundar pela intensidade dramática deste último. Contudo, como mui acertadamente notou João Bénard da Costa, quando a seu tempo escreveu sobre o primeiro, «Geneviève e Guy amaram-se de um amor tão novo e tão carnal como os heróis de Kazan e também não foram capazes de resistir às famílias, às separações e às ausências. O tempo deles passou sem que eles se apercebessem da passagem. Casaram-se trocados, com o “boy next door” ou com a “girl next door”, os que souberam durar mais e persistir mais. E quando, no fim, se reencontram, ela de casaco de peles, ele na estação de gasolina, há a mesma tristeza inenarrável do último encontro de Natalie Wood e Warren Beatty». Não conheço muitos filmes tão iluminados por essa lucidez desencantada, por esse sabor agridoce, como sucedeu no musical cantado e encantado do cineasta francês – ancorado na magnífica música de Michel Legrand – ou invadidos por uma tensão no limite do suportável como acontece no sublime drama - a roçar a tragédia - de Elia Kazan, sobressaindo em ambos uma capacidade rara para utilizar a cor com força expressiva. Revi maravilhado, há dias, o primeiro e fiquei com uma vontade imensa de voltar a pegar no segundo.

 

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publicado por adignidadedadiferenca às 23:54 link do post
29 de Janeiro de 2012

 

 

A obra de um dos mais estimáveis cineastas da história do cinema francês, Jacques Demy, tem visto lentamente a luz do dia através do seu lançamento periódico em DVD, cuja edição mais recente - de Lola, (1960), La Baie des Anges (1962) e Une Chambre en Ville (1982) - se deve à excelente iniciativa tomada pela Midas. Conhecido principalmente pelos seus filmes cantados, Les Parapluies de Cherbourg (1963) e Les Demoiselles de Rochefort (1966), torna-se forçoso reconhecer que a restante obra de Demy merece uma reavaliação estética, designadamente, mas não só, o belíssimo Lola (estreia de Demy como autor de longas-metragens) e o magnífico e viciante La Baie des Anges. Correspondendo ao começo da sua carreira, ambos revelam já por inteiro o universo particularíssimo do cineasta francês: os encontros e desencontros amorosos, o cruzamento natural entre fantasia e realidade, ou uma acentuada tonalidade melancólica que funciona como contraponto à doçura generalizada dos ambientes, adicionando à mise en scène um travo final agridoce. A maestria técnica – que sobressai em cada plano da sua mise en scène – e a dinâmica de Demy, esta última influenciada pelo trabalho de Max Ophuls ou de Jean Cocteau, têm uma elegância misteriosa e rara. Às suas personagens, Demy atribui-lhes uma doçura (mas também o seu negativo), uma fragilidade e uma sensibilidade únicas, características essenciais que, acompanhadas por uma tensão que nasce das suas relações recíprocas, conferem ao cinema do autor francês o estatuto certeiro de clássico moderno, para cujo equilíbrio e diversidade estética contribui significativamente a óptima música de Michel Legrand.

 

 La Baie des Anges

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