a dignidade da diferença
31 de Outubro de 2016

 

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Elisabet Vogler (interpretada por Liv Ullmann), uma actriz de sucesso, fica subitamente muda durante uma representação da peça Electra. Por sua vez, uma jovem enfermeira, Alma (papel atribuído a Bibi Andersson), é contratada para cuidar da actriz. Lentamente, desenvolve-se um enigmático processo de influência recíproca que leva as protagonistas a trocar de manifestações, numa relação de confronto: Enquanto Elisabet recupera Alma - que adorava conversar e lida com o silêncio da actriz conversando com esta - emudece. Uma estrutura formal progressivamente auto-reflexiva e auto-observadora, configura um conjunto de variações sobre a duplificação e faz avançar uma aparente história de possessão, do acto quase doentio entre duas mulheres que acabam por se unificar. Ocupando um lugar central na história do cinema do século XX, Persona, provavelmente a obra-prima de Ingmar Bergman, dispensa todas as meticulosas dissertações que pretendem esclarecer o sentido de cada plano ou imagem, numa contínua e excessiva explicação psicanalítica das relações entre os protagonistas e destes com o próprio autor.

 

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 Quando Liv Ullmann/Bibi Andersson são uma só...

 

Com efeito, o fascínio de um filme que combina naturalmente fantasia e realidade advém do poder sugestivo das suas imagens, difícil de traduzir em palavras. Esta história de duas mulheres, dos seus sonhos e enigmas, bem como das suas diferentes possibilidades, é tão mais aliciante porque, como já muitos afirmaram, nunca como aqui Bergman conseguiu reunir um tal grau de simplicidade e complexidade, conseguindo com esta experiência atingir a máxima expressividade dizendo tanto com tão pouco. Na verdade, mais enriquecedor para o espectador que as habituais discussões que giram em redor do filme, é experimentar o confronto único com Persona, seguir a sua estrutura interna e, aceitando o convite para participar na sua construção, oscilar sobre a identidade de quem fala (quem é o sujeito?), por obra e graça do talento admirável do cineasta sueco, de onde sobressai sempre a primazia absoluta do rosto humano. Concluida a trilogia sobre o silêncio de Deus, o cinema de Bergman reinventa-se de novo em 1966.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:16 link do post
24 de Junho de 2015

 

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Lágrimas e Suspiros (1973), um dos filmes centrais do cinema moderno, é uma das obras mais complexas do sueco Ingmar Bergman, bem como um dos seus êxitos mais inesperados. François Truffaut citava-o como sumo exemplo do filme que, embora apresentasse todas as características do filme maldito, alcançou um êxito mundial. Na sua génese está a lenta agonia de Agnes, uma mulher moribunda, torturada por um cancro, que, ajudada pelas suas irmãs, Karin e Maria, convive num ambiente mesquinho de ciúme, manipulação e egoísmo. Ou seja, tudo aquilo que o público geralmente recusa ver. O crítico e cineasta francês – como acaba de certificar a recente reedição do clássico Os Filmes da Minha Vida - entendia que, no caso de Lágrimas e Suspiros, «a perfeição formal do filme, e sobretudo a utilização da cor vermelha no cenário da casa, constituíram o elemento exaltante, ouso até dizer o elemento de prazer, graças ao qual o público sentiu imediatamente que estava perante uma obra-prima, decidindo vê-la com uma cumplicidade artística e uma admiração que equilibraram e compensaram o efeito traumático das lágrimas e dos suspiros da agonia de Harriet Andersson». A observação de Truffaut sobre este filme que possui uma capacidade rara para filmar o interior da alma parece-me ainda hoje uma óptima explicação para quem procura no cinema algo mais do que puro entretenimento.

13 de Abril de 2013

 

 

Soube, pelo blogue do Victor Afonso, que a revista Sábado publicou uma interessante secção, intitulada O Que o Seu Filme Preferido Diz de Si, onde o psicólogo Nuno Amado procurou relacionar a preferência cinéfila das pessoas com a sua personalidade. Mas borra a pintura quando, sobre O Sétimo Selo, escreve: «Quem diz que este é o seu filme preferido costuma achar que a palavra “intelectual” é sempre um elogio. São pessoas que nunca leram um livro porque estão sempre a reler qualquer coisa, a maior parte das vezes filosofia alemã, e que se acham especiais por conseguirem assistir a este filme sem adormecer. Dizer que estas pessoas se levam demasiado a sério é um pouco como dizer que no Brasil até há quem goste de futebol. O segredo dos adeptos de 'O Sétimo Selo' é que, no fundo no fundo, preferem 'O Cinema Paraíso', mas não o querem admitir». Embora prefira outras obras de Ingmar Bergman, se há filme dele que discute magistralmente a dicotomia entre, por um lado, a angústia existencial e, por outro, a face solar da simplicidade vivencial - com óbvia vantagem para a segunda - é o celebérrimo O Sétimo Selo. Explicando melhor: se é o próprio filme a optar, na oposição entre um existencialismo sofrido e a simplicidade feliz da vida, pela ligeireza (ehrrr...) desta última, fará algum sentido afirmar que este é o filme preferido das «pessoas que nunca leram um livro porque estão sempre a reler qualquer coisa, a maior parte das vezes filosofia alemã, e que se acham especiais por conseguirem assistir a este filme sem adormecer»? Por conseguinte, perante o significado e o conteúdo do seu comentário (que o autor parece levar a sério), só se pode tirar uma de duas conclusões: ou o psicólogo Nuno Amado não quis compreender a profundidade do filme ou então acumulou uma série de preconceitos que se transformou progressivamente num incompreensível vírus anti-intelectual. Ainda assim, tamanho equívoco não justifica o chorrilho de disparates nem o fel que vomita. Incapaz de entender que os fenómenos culturais não têm como função exclusiva a mera distração, Nuno Amado despreza o universo diversificado de opiniões e posições de um determinado tipo de cinema, muito particularmente Bergman e o cinema europeu. Não o conseguindo explicar, cai no facilitismo torpe de enfiar tudo no saco do pretensiosismo. Para psicólogo, acho pouco.

06 de Janeiro de 2012

 

 

Hoje revimos  Luz de Inverno, de Ingmar Bergman, o nosso filme preferido dele logo após o genial Persona. Tivemos a oportunidade de assistir à mais absoluta interpretação de Ingrid Thulin e, sobretudo, de rever uma cena da qual já não nos recordávamos: o diálogo assombroso estabelecido entre o pastor Tomas Eriksson (representado por Gunnar Björnstrand) e o sacristão Algot Frövik. Na perspectiva deste último – que padecia de uma prolongada e dolorosa deficiência física – é dado nos Evangelhos um ênfase excessivo ao sofrimento físico de Cristo (e, por experiência própria, sabia bem do que falava) quando comparado com o abandono a que foi votado pelos apóstolos (sem excepção) – um deles, Paulo, chegou até a contradizê-lo – e pelo Pai. Naquele momento, crivado pelas dúvidas que lhe surgiram sobre a veracidade do que andara a pregar, isto é, confrontando-se com o definitivo silêncio de Deus, insuportável para ele foi o sofrimento moral. Arrepiante e inesquecível. Exemplo supremo - mas não único - de um filme espantoso sobre a tragédia das relações humanas, o silêncio, a razão e o vazio.

 

Outra das sequências admiráveis do filme...

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