a dignidade da diferença
02 de Novembro de 2011

 

Claude Monet, La Grenouillère (1869) 

 

«No Verão de 1869, Monet e Renoir pintam em Bougival, um desses destinos de excursão, e o tema comum é La Grenouillère. Num ângulo quase idêntico – Renoir estava por certo à direita de Monet, um pouco mais próximo da água – os dois pintores dão a sua versão da actividade que reina na “Jarra de Flores”, como era chamada a pequena ilha com a sua árvore ao centro. Observa-se, por comparação, que ambos tentaram ser exactos, o que sublinha, precisamente, as suas diferenças técnicas. Monet compõe o seu quadro com traços claros, horizontais e coloca pontos de luz vívidos. O seu pincel é enérgico enquanto Renoir aplica a cor de forma delicada e ligeira. Embora aqui as cores de Monet sejam escassas e frias, a paleta de Renoir é mais suave e a adição de vermelhos aquece-a. Monet já não demonstra interesse pelo vestuário, as suas personagens são simples traços suaves. Renoir, pelo contrário, transforma a textura dos tecidos listrados pelo sol e regista os pormenores da moda. Enquanto a sua versão, composta à volta do centro do quadro, cria uma atmosfera aveludada, a de Monet, com as suas sombras repartidas uniformemente e os seus traços brancos nas extremidades da tela, faz nascer uma imagem tridimensional cujo dinamismo percorre toda a superfície. Esta tensão que se difunde para as margens é uma constante nas composições de Monet.»

Christoph Heinrich, in Claude Monet, Taschen, tradução: Jorge Manuel Pinheiro Valente.

 

Pierre-Auguste Renoir, La Grenouillère (1869)

 

28 de Agosto de 2011

 

Círculo de Cor II, August Macke

 

August Macke nasceu a 3 de Janeiro de 1887 e, após ser chamado para o serviço militar, morreu em combate a 26 de Setembro de 1914. Influenciado inicialmente pelo impressionismo – sobretudo a poesia de Manet, os pastéis de Degas e a representação da sociedade parisiense de Toulouse-Lautrec -, Macke, sempre atento às inovações estéticas, foi amadurecendo e desenvolvendo o seu estilo, fortemente inspirado, a partir de 1905, nos fauvistas. Mas foi por volta de 1913 que a arte pictórica de Macke atinge o seu cume. Após mais uma reviravolta estética, a sua pintura volta-se agora para a abstracção, liberta-se dos espartilhos formais, entende-se com o cubismo e o futurismo numa busca permanente por novas formas, nova dinâmica e novos temas. É na sua fase futurista que Macke se deixa impressionar pelo trabalho de Delaunay, cuja aproximação é particularmente visível no Círculo de Cor II (de 1913), inspirado conscientemente pelas Formas Circulares e Sóis de Delaunay (do mesmo ano). A pintura de Macke transcende-se e ganha maior complexidade em comparação com o estilo demasiado bonito e acessório de Delaunay, mas aqueles quadros, como acertadamente refere Anna Meseure, «exercem um efeito tão abstracto como ilustrações científicas sobre a origem e a composição das cores e tão poético como o relato dramático do nascimento das cores da pureza alva da luz».

 

Formas circulares, Delaunay 

09 de Novembro de 2008

 

Arturo Benedetti Michelangeli plays Debussy (Images, Children's Corner 1971 / Préludes I 1978 / Préludes II 1988)

 

 

 

O casamento perfeito entre a música impressionista do compositor francês Claude Debussy (1862-1918) - evocativa de um determinado estado de espírito ou atmosfera, rebuscando, não raras vezes, memórias de sons naturais e ritmos de dança, passagens melódicas contemplativas ou de sabor oriental que definem, grosso modo, as principais características da música revolucionária que o compositor francês criou na viragem do século XIX para o século XX  - e a sobriedade expressiva do assombroso pianista Arturo Benedetti Michelangeli (1920-1995), cujas lendárias ausências, retiradas e silêncios lhe conferiram uma aura mítica semelhante à de outro soberbo pianista do século XX: Glenn Gould.

O mais importante e o que nos fica na memória é o gesto livre e natural que sobressai desta interpretação magnífica do pianista italiano, capaz de oferecer, numa bandeja de oiro puro, doses deslumbrantes de música transparente e, por vezes, quase invísivel, reproduzindo um prodigioso ambiente sonoro nocturno com ecos de uma subtil fantasia poética.

 

Nunca, como neste disco, as peças musicais de Debussy - que constituem o mais importante contributo do início do século XX para o reportório do piano enquanto instrumento solista -, estiveram em tão boas mãos. Um estilo arrojado e profundamente lírico, numa busca permanente pela pureza e perfeição da música, deixa-nos como legado uma gravação histórica, radicalmente poética e portadora de uma sensibilidade primorosa, elegante e transgressora.

 

Uma obra, a todos os títulos, admirável.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:29 link do post
10 de Fevereiro de 2008

Kind of Blue - Miles Davis (1959)

 

 

A mais perfeita gestão do tempo e do silêncio de que há memória num disco de jazz. A unidade impressionante de uma banda, mantida no diálogo permanente entre os instrumentos, com a contribuição do som em surdina do trompete de Miles (prolongando o que já tinha explorado em 'round about midnight), da clareza das notas do saxofone de Coltrane, da doçura insinuante do piano e da secção rítmica. Um acto de criação formidável faz acreditar que a música pode ser tudo isto: melancolia, lirismo, impressionismo, magia e sonho.

publicado por adignidadedadiferenca às 14:42 link do post
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