a dignidade da diferença
17 de Junho de 2009

 

 

E à terceira tentativa com Blood From a Stone, depois dos sobreexcelentes Little Things e Rykestrasse 68, Hanne Hukkelberg consegue criar, com o aperfeiçoamento de todas as experiências de laboratório usadas nas gravações anteriores, a obra de arte completa. Uma radiografia assombrosa do mundo actual em que vivemos enlaça-nos perigosamente rumo a uma atmosfera de pesadelo, perturbação, estranheza e revelação.

Textos quase telegráficos - mas com substância - resumem emoções (humanas?) escondidas atrás de máscaras, ora invadidas pelo medo ora pela dor ou pela dificuldade de relacionamento, e adivinham os seres vagamente estranhos que somos. Histórias de um mundo misterioso e fascinante como se de pura ficção científica se tratasse.

Mas o que mais nos espanta é o absoluto domínio que Hanne Hukkelberg exerce sobre a matéria musical, criando uma complexa mas francamente acessível teia sonora. Contactos imediatos com os A.R.Kane de Sixty Nine, um baixo ligado à tomada que acompanha, literalmente, a batida do coração, a leitura futurista de Soak de Mimi Goese e dos Hugo Largo, o som metálico aprendido nas audições de Colossal Youth e o espantoso aproveitamento dramático da percussão como já não se (ou)via desde Music For A New Society – entre outras coisas sublimes -, convergem harmonica e ritmicamente para uma paleta sonora impressionista e esteticamente visionária que atravessa todas as fronteiras possíveis - e que só por acaso sabemos situar-se geograficamente no norte da europa.

Midnight Sun Dream é a canção de embalar em ambiente surrealista, Blood From A Stone e Bandy Riddles convocam a Stina Nordenstam de And She Closed Her Eyes para cantar sobre miniaturas de rock falsamente exuberante em banho-maria, Salt Of The Earth junta a tensão dramática de Cale e Bernard Herrmann a uma Diamanda Galas em admirável estado de contrição e é uma das mais inesquecíveis canções de que há memória. E ainda falta recordar a espantosa desconstrução de Crack em devastadora derrocada fatal e a inclassificável (e indecifrável?) Bygd Til By, solução assombrosa que Björk não encontrou para resolver Vespertine.

Quanto ao que fica por dizer, tudo se resume à incredulidade que sentimos quando escutamos o disco: Mas de onde é que isto vem?

Não adivinho competição à altura para lhe tirar o título de gravação do ano, mas, sinceramente, já lhe estou a reservar lugar certo junto de clássicos intemporais da estirpe de Rock Bottom, Highway 61th Revisited, Astral Weeks ou Veedon Fleece, Swordfishtrombones ou Blood Money, Starsailor, Porcupine, I Want To See The Bright Lights Tonight, Motion ou Mettle.

Uma obra genial que quero guardar só para mim.

 

Salt of the earth

 

Seventeen

 

03 de Agosto de 2008

Na volta que dei ontem à tarde pela Fnac do Chiado e depois de ter decidido aquilo que iria comprar, reparei, quando me deslocava para as caixas de pagamento, num dos expositores da loja onde se encontrava cerca de uma dúzia (para mais e nunca para menos) de exemplares da estreia dos Hugo Largo - mítica banda dos anos 80 cujo som se construiu essencialmente com  a voz de Mimi Goese, dois baixos, violino e, muito ocasionalmente, guitarra  -, ou seja, o magnífico (e isto é dizer o mínimo) «Drum» a um preço imbatível: EUR 2,99 (!!!).

 

Não comprei porque já tenho, mas no regresso a casa lembrei-me do Tom Waits ter afirmado (vou citar de memória, porque não tenho à mão o livro onde li essa história) que  lhe agradava a ideia de um disco seu acabar abandonado numa linha férrea (ou algo do género, não tenho a certeza) e a derreter ao sol. Descontando o exagero da comparação, não sei se gostei de ver o «Drum» acabar os seus dias daquela maneira - no fundo, para estar àquele preço é porque já ninguém o quer comprar.

Mas para os distraídos ou para quem não tinha idade na altura para se aperceber da excelência do álbum, o melhor é aproveitar a fartura enquanto dura.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:02 link do post
14 de Julho de 2008

 

 

Uma canção soberba do álbum «Soak»

 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:14 link do post
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