a dignidade da diferença
31 de Janeiro de 2016

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Confesso que não consigo tomar uma posição definitiva sobre a adopção por casais homossexuais. Sobretudo porque não encontrei até hoje uma fundamentação suficientemente amadurecida quanto à sua substância. Para esta posição indefinida contribui também a circunstância de, segundo creio, não ter ainda havido um debate empenhado sobre uma matéria tão relevante e que trará profundas alterações no direito da família, à qual devo acrescer o facto de não serem conhecidos estudos cientifícos conclusivos sobre a matéria. Defendo sem reservas os direitos dos homossexuais; não obstante, neste caso entendo ser o direito das crianças adoptadas que está em causa. Neste sentido, observei com alguma preocupação a arrogância com que os partidos da esquerda maioritariamente representada no Parlamento acolheram as explicações do Presidente da República sobre o veto à lei da co-adopção. O romancista e ensaísta Claudio Magris, a propósito da natureza variável das convenções sociais, manifestou há anos uma série de inquietações que ainda hoje me parecem perfeitamente actuais e importantes. Magris sustentava, nesse ensaio, que os casais homossexuais negam a família e, simultaneamente, reclamam o direito de constituí-la. Aceitando a mudança das convenções sociais, Claudio Magris ia mais longe e acusava os casais homossexuais de falta de coragem. Com efeito, para ele, quem considera que a família não é o único nem o melhor ambiente em que pode crescer uma criança devia ter a audácia de propor que a adopção de uma criança não seja forçosamente por duas pessoas ligadas por um relacionamento sexual, questionando por que razão, seguindo essa linha de raciocínio, não pode também ser efectuada por um grupo de amigos ou uma comunidade, desde que formada por pessoas capazes de oferecer todas as garantias de que sabem tratar de uma criança. No entanto, tendo em consideração o mais recente comportamento da maioria parlamentar, duvido que haja condições para discutir as ideias a este nível…

05 de Outubro de 2014

 

A Igreja Católica tem sido muito justamente acusada de não acompanhar a evolução da sociedade e as mudanças do seu modelo familiar. No seu discurso oficial sobre a homossexualidade, por exemplo, a instituição religiosa dá sinais preocupantes de incompreensão e condenação moral. A propósito de uma reportagem do semanário Expresso desta semana sobre o primeiro congresso mundial de homossexuais católicos em Portimão, percebe-se que hoje em dia, felizmente, existe uma minoria católica que vem contestando esta visão reaccionária da sociedade. Um dos exemplos mais notáveis é o de Frei Bento Domingues. O frade dominicano nem sempre está de acordo com o discurso oficial da Igreja, afastando-se amiúde das suas incoerências e imposições absurdas. Como agora, ao alertar para a necessidade de renovação do pensamento sobre esta matéria. A sua voz é a de alguém que pensa pela sua cabeça, própria de um espírito livre, incómodo e aberto à mudança. Escutem o que ele disse na referida reportagem: «Como é que se vai exigir a pessoas que não escolheram ser homossexuais e que têm impulsos, desejos e afectos que não o sejam? O importante é que as pessoas sejam “eticamente honestas” nas suas relações. Nem aos homossexuais vale tudo, nem aos heterossexuais vale tudo. O casamento entre homossexuais é um problema que tem de ser debatido na Igreja, não por ser pecado ou não mas porque havia um modelo de família e agora aparece outro (…) que nunca foi estudo nem reflectido. É um bom momento para ter essa discussão.» Uma lufada de ar fresco no discurso maioritariamente bafiento da Igreja Católica.

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