a dignidade da diferença
10 de Setembro de 2013

 

 

Satyajit Ray foi o cineasta indiano mais conhecido e admirado no ocidente (basta recordar que foi galardoado, por exemplo, pela Academia com um Óscar honorário em 1992) e tornou-se - a par do genial Guru Dutt (com quem, confesso, sinto mais afinidades), autor de Kaagaz Ke Phool (Flores de Papel, de 1959), esse excessivo e mágico melodrama, associado a um desenho perfeito do perfil psicológico das personagens, que é, ainda hoje, uma das obras-primas absolutas do cinema - um dos expoentes máximos da cinematografia indiana e, por acréscimo, do cinema mundial. Autor de uma obra com profundas raízes realistas, caracterizada por uma forte componente social, como é o caso, por exemplo, da famosa Trilogia de Apu (O Lamento da Vereda, O Invencível e O Mundo de Apu), a qual chegou ao mercado nacional há uns anos numa edição da Costa do Castelo em DVD, Satyajit Ray atingiu com Charulata, realizado em 1964, o seu cume estético, uma dimensão superior que se afasta do anterior realismo social e exibe um assombroso retrato feminino assente na personagem de Charu. A protagonista, pertencente à burguesia indiana dos finais do século XIX, amada mas negligenciada pelo marido, que vive ocupado com o jornal que dirige, desenvolve uma paixão inesperada pelo primo, com quem partilha o gosto pela literatura e o seu talento notável para a escrita, tornando-se uma espécie de paradigma da mulher moderna. Neste filme (e não só), Ray criou e desenvolveu um estilo minucioso, depurado e minimalista, com uma noção do tempo e do espaço bem assimilada, dotado de uma admirável invenção plástica e dramática que amplia de modo assinalável o seu microcosmos vivencial e afetivo. Uma obra magnífica que resistiu bem à passagem do tempo.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:34 link do post
03 de Setembro de 2008

 

Agora que já devorei o livro apresentado pela Fundação Calouste Gulbenkian e escrito por João Bénard da Costa, é hora de regressar a «Como o cinema era (é) belo».

No livro, fui, deliciado, percorrendo uma história cinematográfica sob um ponto de vista geográfico, recordando lenta e introspectivamente os belíssimos filmes que já tinha visto. Filmes italianos, franceses, do leste europeu, norte-americanos (a grande fatia), suecos, indianos, japoneses, árabes, dinamarqueses, ingleses e de outros pontos do planeta que seria exaustivo mencionar.

Vieram-me à memória realizadores de filmes mal-amados, filmes mudos, filmes a preto e branco, filmes de sempre e filmes esquecidos. Com os cineastas chegaram-me os actores e as actrizes. Bogart, Cary Grant, James Stewart, Wayne, Fonda, Welles, Warren Beatty, Tcherkassov, Michel Simon, Guru Dutt, Maureen O’Hara, Kim Novak, Dietrich, Jean Seberg, Gene Tierney, Natalie Wood, Elena Kuzmina, Ingrid Bergman, Alida Valli e mais um número infindável de nomes inesquecíveis.

De todos eles se falou neste livro. Como também se «mostraram» cinquenta filmes imensos que, no meu caso, serão guardados – uns mais do que outros, naturalmente – num cantinho qualquer da memória. De dois, principalmente, já quase me tinha esquecido, tão rara e difícil é a sua visão: do hiper-romântico e trágico Flores de papel do indiano Guru Dutt (de 1959) e do poético e milagroso À beira do mar azul do soviético - na altura - Boris Barnet (de 1936).

 

Vou, a partir daqui, seguir a mesma sequência lógica a que me propus no «post» inicial. Serão lembrados filmes do livro e filmes que aí não são referidos. O importante é (aproveitando a oportunidade) falar de como o cinema era, e ainda é, (muito) belo.

 

E, apenas porque o revi ontem, até vou começar por um filme estranho ao ciclo: Rumble fish de Francis Ford Coppola. Uma pérola intensa, cerebral, cheia de sombras e de nevoeiro, uma espécie de jóia negra com um Matt Dillon muito próximo, fisicamente e no tipo de atitude, daquilo que poderia ter sido um Jeff Buckley actor em vez de músico, um Mickey Rourke que nunca mais voltou a ser tão bom a fazer o papel de um tipo meio louco meio herói, sem esquecer uma BSO magnífica e experimental assinada por Stewart Copeland, perfeitamente enquadrada no ritmo das palavras e das imagens e suficientemente autónoma e personalizada para sobreviver sem essa âncora, que deixava a milhas de distância toda a discografia dos Police. Tal como Rumble fish estava a anos-luz do inocente e açucarado The Outsiders.

 

 

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