a dignidade da diferença
23 de Maio de 2016

 

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Como avisa o seu autor - o reputado neurologista Alexandre Castro Caldas -, as páginas deste livro não ambicionam dar uma resposta às perguntas que tantas vezes se colocam (quem somos, o que é o cérebro ou quais as suas funções?), pois pretendem apenas abrir as portas para a reflexão. Com efeito, o convite à reflexão proposto por Uma Visita Politicamente Incorrecta ao Cérebro Humano infere-se da sua abordagem a uma sequência de assuntos entre os quais sobressai a forma como acreditamos nas coisas, a relação das ideias com os sonhos, a interacção do cérebro com a informação adquirida, a falta de memória provocada pelas doenças do cérebro, a vontade e o livre-arbítrio, os desafios do cruzamento entre o natural e o artificial ou as interpretações transcendentes. Possuidor de uma rara aptidão para clarificar assuntos complexos sem perder a necessária capacidade analítica, Alexandre Castro Caldas, perfilhando o modelo da evolução das espécies, propõe aos seus leitores uma curiosa e por vezes fascinante expedição às origens do cérebro humano, suas características e limitações. Explica o seu funcionamento, aprecia o dinamismo dos instrumentos sensoriais ou cognitivos e divulga uma série de experiências e ideias que transmitam aos curiosos um maior conhecimento sobre a actividade mental ou, empregando as palavras do investigador científico, sobre o que temos «dentro da nossa caixa craniana».

04 de Janeiro de 2014

 

«A mente humana não tem acesso à totalidade das causas dos fenómenos. A alma humana, porém, foi provida da necessidade de procurar as causas. Assim, a mente humana, incapaz de penetrar na imensidade e na complexidade das condições que geram os fenómenos, cada uma das quais em separado pode afigurar-se-lhe a causa, agarra-se à primeira e mais próxima, mais compreensível, e diz: eis a causa. Nos acontecimentos históricos (em que o objecto de observação são as acções humanas), apresentava-se outrora como causa próxima, da maneira mais primitiva, a vontade dos deuses; depois, passou a ser a vontade dos homens que ocupam o lugar de maior ressonância na história: os heróis históricos. Basta porém que aprofundemos a essência de qualquer acontecimento histórico, ou seja, a actividade de toda a massa de pessoas que participaram no acontecimento, para nos convencermos de que a vontade do herói histórico não só não dirige as acções das massas como é dirigida, ela própria, permanentemente.

 

 

À primeira vista, a compreensão do acontecimento histórico deste ponto de vista ou de outro é indiferente. No entanto, entre uma pessoa que diz que os povos do Ocidente foram para o Leste, porque Napoleão assim o quis e uma pessoa que diz que isso ocorreu, porque tinha de ocorrer, existe a mesma diferença que havia entre as pessoas afirmavam que a Terra está parada e os planetas giram à sua volta e aquelas que afirmavam que não sabiam em que se apoiava a Terra, mas sabiam que existem leis que gerem o movimento tanto da Terra como dos outros planetas. As causas do acontecimento histórico não existem, nem podem existir, para além da única causa de todas as causas. No entanto, há leis que gerem os acontecimentos, em parte desconhecidas, em parte pressentidas por nós. A descoberta de tais leis será possível quando desistirmos por completo de procurar as causas na vontade individual de uma pessoa, tal como a descoberta das leis do movimento dos planetas só se tornou possível quando as pessoas rejeitaram o conceito de imobilidade da Terra.»

Lev Tolstói, Guerra e Paz, Livro IV, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra

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