a dignidade da diferença
16 de Setembro de 2008

FUJIYA & MIYAGI (Lightbulbs)

TWO BANKS OF FOUR (Junkyard gods)

ROBERT FORSTER (The Evangelist)

 

 

São apenas três discos relativamente recentes (todos de 2008) que tenho estado a ouvir com alguma insistência. Nem sequer tenho muito para dizer sobre eles, excepto que vou gostando muito do que estou a ouvir.

 

 

Os ingleses Fujiya and  Miyagi fazem ao krautrock aquilo que só uma banda inglesa com sentido estético poderia fazer. Ao segundo volume, atiram-nos literalmente com uma versão revista e melhorada do género alemão, a que acrescentam uma concisão pop que não existe no original, doses perfeitas de ousadia e persistência rítmica, um canto falado aliado a um brilho melódico que se torna uma fonte de prazer constante. Só ouvidos distraídos poderão afirmar que é mais do mesmo.

 

 

 

De mais do mesmo também poderá ser acusada a música dos Two Banks of Four – que regressaram com o fabuloso Junkiard Gods – mas pouco me importa. Aqui já se trata de um universo único e genialmente personalizado. Ao terceiro disco, terceira obra-prima.

O paradigma perfeito de música experimental, espiritual, voando por entre as memórias de Coltrane, do jazz clássico, da soul, da improvisação como se de música do futuro se tratasse, com silhuetas transparentes de silêncio, fraseados cinematográficos, com a canção a adquirir, de novo, toda a sua deslumbrante dignidade. Para ouvidos exigentes.

 

Como não encontro nada mais recente, deixo-vos One day de Three street worlds.

 

 

The Evangelist de Robert Forster são os Go-Betweens sem Grant McLennan, porque, a todo o momento, sente-se que ele está lá. Voltamos à velha questão do mais do mesmo, mas, neste caso, com subtis variações. E são variações do melhor que a música já nos ofereceu. Memórias dos Velvet Underground, dos XTC e, talvez, até, dos Triffids. E réplicas perfeitas dos Go-Betweens (aqui, se calhar, é pecado). Melodias memoráveis que apetece guardar só para nós e transmiti-las em segredo a quem as merece.

Como despedida, era difícil exigir melhor.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:24 link do post
09 de Julho de 2008

 

A life full of farewells - The Apartments (1995)

 

 

Não me lembro que tenha constado de alguma lista dos melhores do ano, da década ou do século XX. E também me parece que nunca virá a constar de uma lista dessas. O género de música não ajuda muito, obviamente, e o sítio de onde ela vem, menos ainda. Quando queremos falar de música popular contemporânea de raiz australiana vem-nos à memória quem? Nick Cave à cabeça e, para os mais instruídos, os Go-Betweens e, talvez, os Triffids. Todos eles excelentes e quase escandalosamente ignorados. Mas a Austrália, musicalmente falando, não é só isso. Peter Walsh, que responde pelo colectivo The Apartments, publicou, em 1995, um daqueles discos que, para quem o ouviu, não sai facilmente da memória. Chama-se «A life full of farewells», é da família de gente tão ilustre como a atrás referida, mais os American Music Club, Leonard Cohen, John Cale, Richard Thompson e outros da mesma estirpe. Música docemente amargurada para ser escutada e divulgada clandestinamente, concebida de forma artesanal e (falsamente) rudimentar, mas que, ainda hoje, escutada uma e outra vez, continua a magoar onde menos se espera, tal e qual como na altura em que foi publicada.

Se quase todo o álbum é memorável, uma canção há que, muito provavelmente, vai abanar, por momentos, a nossa vida. Trata-se da notável «She sings to forget you». Voz e piano mais do que suficientes para nos dar a visão perfeita de uma alma serena mas dorida, bela mas vencida e profundamente solitária, que nos comove sem remédio enquanto a melodia dura.

Não será mais do que uma nota de rodapé na história da música popular – talvez nem isso -, mas entra directamente para a minha colecção privada de canções que nunca mais vou largar.

 

 

08 de Maio de 2008

 

 

 

Head full of steam - The Go-Betweens (1986) de «Liberty belle and the black diamond express»

 

 

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