a dignidade da diferença
19 de Fevereiro de 2011

 

«70% de cábulas nas universidades. Para ter vergonha é preciso ser apanhado? Se a resposta for sim, a explicação da dimensão da fraude académica nas universidades portuguesas pode estar na diferença entre os alunos que admitem copiar e os que são apanhados: 70% já copiaram num exame e apenas 2,4% foram apanhados. Os dados são de um novo estudo sobre integridade académica coordenado por Aurora Teixeira, da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Para a investigadora, que nos últimos anos tem contribuído para a literatura internacional sobre o tema, os resultados revelam um verdadeiro flagelo no meio académico. A análise preliminar, avançada ao i, tem por base as repostas de 5403 estudantes de mais de 400 cursos e uma centena de escolas. Neste estudo Aurora Teixeira quis aprofundar os resultados de um inquérito realizado em 2005 junto de alunos de Gestão e Economia, centrado na cópia em exames. O novo inquérito realizou-se entre Maio e Julho de 2010 e questionou alunos de todas as áreas sobre comportamentos como o plágio, a compra de trabalhos ou assinaturas falsas em folhas de presença. Os resultados revelam que mais de metade dos alunos acredita que se copia deliberadamente e não porque a oportunidade surge ou por uma situação de pânico durante a prova. Pode concluir-se também que há uma continuidade neste tipo de comportamento: o estudo anterior, embora com alunos diferentes, revelava uma propensão para copiar de 62%. A percepção geral dos estudantes é que as práticas são reprováveis, mas não muito. Os alunos entendem ainda que haveria menos comportamentos desonestos se estudassem mais e organizassem melhor o tempo, mas também se os professores se interessassem mais pela sua aprendizagem. Para Aurora Teixeira, a experiência académica em Inglaterra e os estudos comparativos sobre este tipo de fraude permitem concluir que em Portugal existe uma lacuna na forma como as instituições lidam com o problema. "O comportamento desculpabilizante é transversal a toda a sociedade", defende. "Quando falamos com alguém que tem alguma responsabilidade nas escolas sentimos que a questão da ética é relegada para segundo plano." Apesar de Portugal não ter taxas de incidência tão elevadas como outros países europeus, por exemplo a Polónia, Aurora Teixeira frisa que as amostras portuguesas têm sido sempre maiores nos estudos comparativos, o que poderá ter atenuado a dimensão do problema. O estudo só estará pronto daqui a dois meses e permite a primeira avaliação do plágio nas universidades portuguesas, problema que Aurora Teixeira diz ultrapassar a cópia nos exames. De acordo com dados preliminares, 11,2% dos alunos inquiridos não citam fontes deliberadamente para "reclamar a originalidade de material copiado". Questionados sobre se já viram alguém fazê-lo, 43,6% responderam de forma afirmativa. Quase dois em cada dez estudantes admitem ter copiado "uma secção de um livro, artigo ou website e submetê-lo como seu". Para Aurora Teixeira, outro dado revelador é a dimensão da reciclagem de trabalhos: 45,6% dos estudantes já entregaram o mesmo trabalho em mais de uma disciplina. "Os casos graves que vêm a público só acontecem esporadicamente, mas quem lecciona tem a nítida noção de que o plágio nas universidades é um problema aterrador", afirma a investigadora.»

  

 

Esta fraude generalizada foi revelada, na semana passada, pelo jornal i. Temos a perfeita consciência de que o desemprego e a falta de oportunidades profissionais para os nossos jovens acabados de sair das universidades é um verdadeiro e preocupante flagelo social que urge ultrapassar. Porém, infelizmente, neste país a culpa morre solteira, a responsabilidade é sempre dos outros e nunca é partilhada. O que temos verificado na nossa experiência universitária é que os estudantes não estão grosso modo preocupados com a aprendizagem das matérias; não lhes interessa a substância, apenas tirar o curso. Geração à rasca? Sem dúvida. Mas colocamos a questão: estará ela verdadeiramente preparada para enfrentar os desafios que a sociedade contemporânea permanentemente lhe coloca? Se a licenciatura é a autorização que nos dão para estudar sozinhos, faltando essa base a 70% dos licenciados, não cremos que exista a tão necessária preparação.

publicado por adignidadedadiferenca às 12:45 link do post
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