a dignidade da diferença
19 de Setembro de 2016

 

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Na admirável filmografia de Nicholas Ray estão presentes, na sua essência, uma sensação de perda e de dor magoada dos seus heróis, as personagens emocionalmente desmedidas, o conflito de gerações e as suas relações demasiado humanas, obsessivas e tormentosas. Mas não só, pois a sua obra transmite amiúde uma dimensão trágica, cruel ou confessional, assombrosamente ampliada pelo delírio pungente do cinemascope, corolário estética de uma visão artística fulgurante e personalizada, concretizada numa exploração profunda da vida enquanto experiência humana íntima e irrepetível. Em síntese, o tipo de cineasta cuja obra, atravessando múltiplos géneros, só ganha em ser avaliada no seu conjunto, mesmo os seus filmes mais desequilibrados ou imperfeitos. O modelo (neste caso) tão justamente venerado pelos defensores da política de autores. Numa carreira ilustrada por uma série assinalável de momentos significativos – tais como In a Lonely Place, On Dangerous Ground, The Lusty Men, Johnny Guitar, Rebel Without a Cause, Bitter Victory ou Party GirlBigger Than Life (Atrás do Espelho, com James Mason no papel principal) é um dos mais inesquecíveis e celebrados. Filme soberbo sobre a transição da ansiedade à opressão, Bigger Than Life, na sua lucidez e plena expressividade, tem muitas razões para ser louvado. Uma das menos recordadas, como bem assinalou François Truffaut no seu Les Films de Ma Vie, consiste no modo como Ray «desmontou as relações de um intelectual com a sua esposa».

 

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Passo-lhe definitivamente a palavra: «as relações de um intelectual com a sua esposa, mais simples do que ele, surgem desmontadas com uma lucidez e uma franqueza quase aterradoras. Sim, pela primeira vez, é-nos mostrado o intelectual em casa, na sua casa, na sua intimidade, seguro pela superioridade do seu vocabulário, tendo a seu favor a dialéctica, face a uma esposa que sente as coisas, mas renuncia a dizê-las por não possuir a mesma linguagem. Como muitas mulheres, é fundamentalmente intuitiva e comandada pelo seu amor e sensibilidade. Cinquenta variações deste tema fazem de Atrás do Espelho, independentemente do seu carácter excepcional, um excelente retrato do casamento.» 

 

 

24 de Junho de 2015

 

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Lágrimas e Suspiros (1973), um dos filmes centrais do cinema moderno, é uma das obras mais complexas do sueco Ingmar Bergman, bem como um dos seus êxitos mais inesperados. François Truffaut citava-o como sumo exemplo do filme que, embora apresentasse todas as características do filme maldito, alcançou um êxito mundial. Na sua génese está a lenta agonia de Agnes, uma mulher moribunda, torturada por um cancro, que, ajudada pelas suas irmãs, Karin e Maria, convive num ambiente mesquinho de ciúme, manipulação e egoísmo. Ou seja, tudo aquilo que o público geralmente recusa ver. O crítico e cineasta francês – como acaba de certificar a recente reedição do clássico Os Filmes da Minha Vida - entendia que, no caso de Lágrimas e Suspiros, «a perfeição formal do filme, e sobretudo a utilização da cor vermelha no cenário da casa, constituíram o elemento exaltante, ouso até dizer o elemento de prazer, graças ao qual o público sentiu imediatamente que estava perante uma obra-prima, decidindo vê-la com uma cumplicidade artística e uma admiração que equilibraram e compensaram o efeito traumático das lágrimas e dos suspiros da agonia de Harriet Andersson». A observação de Truffaut sobre este filme que possui uma capacidade rara para filmar o interior da alma parece-me ainda hoje uma óptima explicação para quem procura no cinema algo mais do que puro entretenimento.

14 de Março de 2015

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Em 1953, Ray Bradbury escreveu uma surpreendente história sobre um regime totalitário imaginário que proíbe a leitura de livros numa civilização futurista, prendendo os seus possuidores e queimando as suas casas, bem como os respetivos livros. Essa indigníssima tarefa era executada por uma corporação de bombeiros que ateava fogos em vez de apagar incêndios. Fahrenheit 451 - assim se intitula esta engenhosa e concisa construção literária em cenário de ficção científica - denuncia eficazmente um modelo civilizacional inquietante no qual a felicidade e o bem-estar das pessoas são garantidos pela via do comodismo, da apatia, do vazio mental, da crença na futilidade e do conformismo no domínio das ideias e do conhecimento. Porém, para configurar essa sociedade amestrada, a classe dominante necessita de amordaçar e destruir a cultura, conhecida a capacidade desta para motivar a transgressão, abalar convicções, suscitar dúvidas, desenvolver a inteligência e modificar as acções e os comportamentos humanos. Perante o perigo de contágio, uma pequena seita de resistentes, escondidos numa paisagem desolada, reage ao medo e à destruição encarregando cada um dos seus membros de uma empreitada singular: decorar um livro para posterior recitação. Mas como Truffaut tão intensamente demonstrou - na magnífica e complexa adaptação cinematográfica do livro, em 1966 -, esse lugar ocupado por homens-livro, não é, contudo, menos inquietante, porque aquelas pessoas, não obstante a sua liberdade, deixaram de conhecer qualquer outro prazer que não seja o deleite exclusivo da recitação.

 

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