a dignidade da diferença
03 de Abril de 2012

 

 

A propósito da releitura que estou a fazer do hiperclássico Madame Bovary, a famosa história de Emma, mulher adúltera e sensual do médico de província Charles Bovary, escrito pelo soberbo Gustave Flaubert - responsável pelo desenvolvimento de  um novo tipo de realismo e acusado, na época (1857), de ofensas à moral pública e à religião -, não resisti à tentação de recordar este exemplo supremo da escrita talentosa e deliciosa de Julian Barnes, uma mistura notável de humor, crítica, ficção, realidade, solidão, arte e filosofia, retirado d’O Papagaio de Flaubert, que se constrói precisamente sobre a vida do genial romancista e que é, para mim, a sua obra-prima: «Deixem-me contar-lhes por que não gosto nada de críticos. Não pelas razões habituais: serem criadores falhados (geralmente não são, podem ser é críticos falhados, mas isso é outro assunto); ou serem por natureza maus, invejosos e vaidosos (geralmente não são; o mais de que os podemos acusar é de serem ultragenerosos, de sobrevalorizaram obras menores para que assim a sua perspicácia sobressaia). Não, a razão por que odeio os críticos – bem, às vezes – é porque escrevem frases deste género: Flaubert não constrói as suas personagens, como fazia Balzac, através da descrição exterior e objectiva; de facto, é tão descuidado com o aspecto exterior delas que uma vez dá a Emma olhos castanhos, outra olhos de um negro profundo, e outra olhos azuis. Esta acusação precisa e desanimadora foi lançada pela Dra. Enid Starkie, já falecida, leitora jubilada de Literatura Francesa na Universidade de Oxford, e a mais exaustiva biógrafa de Flaubert na Grã-Bretanha. (…) Devo confessar que todas as vezes que eu li Madame Bovary nunca notei o arco-íris dos olhos da heroína. Deveria ter notado? E vocês? Talvez eu estivesse muito ocupado a reparar em coisas que escaparam à Dra. Starkie (embora neste momento não pense quais possam ter sido). (…) A minha leitura poderá ser inútil em termos de história da crítica literária; mas não é inútil em termos de prazer. Não posso provar que os leitores leigos têm mais prazer nos livros que os críticos profissionais; mas posso apontar-vos uma vantagem que temos sobre eles. Podemos esquecer. A Dra. Starkie e os seus camaradas estão amaldiçoados com a memória: os livros sobre os quais ensinam e escrevem não se lhes podem apagar do cérebro.

 

 

Entretanto, o leitor comum mas interessado pode esquecer; pode partir para outra, ser infiel com outros escritores, voltar a extasiar-se de novo. Na sua relação, a conjugalidade não precisa nunca de se introduzir; pode ser uma relação esporádica, mas, enquanto existe, é sempre intensa. Não há vestígios de rancor diário que se cria quando as pessoas vivem juntas bovinamente. Nunca me acontece recordar a Flaubert, com uma voz fatigada, que pendure o tapete da banheira ou que use o piaçaba. O que parece é que a Dra. Starkie não é capaz de deixar de o fazer. (…) Olhos castanhos, olhos azuis. Será importante? Não, é importante se o escritor se contradiz; mas será que é importante de que cor são realmente? Tenho pena dos romancistas que têm de mencionar os olhos das mulheres: a escolha é tão limitada, e seja qual for a cor escolhida traz inevitavelmente implicações banais. (…) Acabei de reler Madame Bovary. (…) E a moral da história é, penso eu: nunca se assustem com uma nota de rodapé. Eis as seis referências que Flaubert faz aos olhos de Emma Bovary ao longo do livro. É evidente que se trata de um assunto de certa importância para o romancista: ‘O que tinha de belo eram os olhos: apesar de serem castanhos, pareciam pretos por causa das pestanas…’, ‘Os seus olhos pareciam-lhe maiores, especialmente quando estava a acordar e abria e fechava as pálpebras muitas vezes de seguida; eram negros quando estava à sombra e azul-escuros à luz do Sol; e pareciam ter camadas de cor sucessivas, que, mais espessas no fundo, se tornavam mais delgadas na superfície, que parecia esmaltada.’, (Num baile à luz das velas) ‘Os seus olhos negros pareciam ainda mais negros.’, ‘Fixando-o com os seus grandes olhos negros muito abertos.’, ‘Os seus olhos negros.’, e ‘Os seus olhos nunca tinham sido tão grandes, tão negros, tão profundos.’ Seria interessante comparar o tempo gasto por Flaubert a certificar-se de que a sua heroína tinha os olhos invulgares e difíceis de uma adúltera trágica com o tempo gasto pela Dra. Starkie a depreciá-lo.»

Excerto de O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, tradução de Ana Maria Amador.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:37 link do post
24 de Janeiro de 2012

 

 

«Os romancistas devem agradecer a Flaubert, da mesma forma que os poetas agradecem à Primavera: tudo começa de novo com ele. Podemos realmente falar de um tempo antes de Flaubert e de um tempo depois dele. Flaubert estabeleceu decisivamente aquilo que grande parte dos leitores e escritores vêem como a moderna narração realista, e a sua influência é quase demasiado familiar para ser visível. Quase nunca elogiamos a boa prosa quando esta favorece o detalhe brilhante e revelador; quando privilegia um alto nível de registo visual; quando mantém uma pose não sentimental e sabe quando se abster, como um bom valete, de fazer comentários supérfluos; quando busca a verdade, mesmo sob o perigo de nos repelir; e quando as impressões digitais do autor sobre tudo isto são, paradoxalmente, identificáveis mas invisíveis. Conseguimos encontrar alguns destes factores em Defoe, Austen ou Balzac, mas todos eles só em Flaubert.»

James Wood, A mecânica da ficção (tradução: Rogério Casanova)

 

 

Conferir, por favor, nos magníficos e inovadores (para a época) bordados literários que são Salammbô, Madame Bovary e, sobretudo, A Educação Sentimental.

04 de Setembro de 2011

 

 

Eis uma pequena pérola, entre tantos outros belíssimos exemplos, do magnífico Nada a Temer, de Julian Barnes, autêntico e surpreendente manual de sobrevivência, a propósito do qual já aqui elogiámos merecidamente a ironia, a inteligência, a elegância e o modo descomplexado como nos ajuda a reflectir sobre a morte, através da meditação filosófica, religiosa ou literária:

Flaubert perguntou «É esplêndido ou é estúpido levar a vida a sério?» E disse que devíamos ter «a religião do desespero», ser «iguais ao nosso destino, isto é, impassíveis como ele». Ele sabia o que pensava sobre a morte: «O eu sobrevive? Dizer que sim parece-me um mero reflexo da nossa presunção e do nosso orgulho, um protesto contra a ordem eterna! A morte não deve ter mais segredos para nos revelar senão a vida.» Mas, mesmo não confiando nas religiões, sentia uma ternura pelo impulso espiritual e desconfiava do ateísmo militante. «Cada dogma em particular repugna-me», escreveu. «Mas considero que o sentimento que os engendrou é a expressão de humanidade mais natural e poética. Não gosto dos filósofos que o rejeitaram como disparate e intrujice. O que eu encontro nele é necessidade e instinto. Por isso respeito o homem negro que beija o fetiche e o católico que ajoelha ante o Sagrado Coração.»

publicado por adignidadedadiferenca às 14:17 link do post
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