a dignidade da diferença
08 de Setembro de 2011

 

 

«Os argumentos são essenciais, em primeiro lugar, porque constituem uma forma de tentarmos descobrir quais os melhores pontos de vista. Nem todos os pontos de vista são iguais. Algumas conclusões podem ser defendidas com boas razões e outras com razões menos boas. No entanto, não sabemos na maioria das vezes quais são as melhores conclusões. Precisamos, por isso, de apresentar argumentos para sustentar diferentes conclusões e, depois, avaliar tais argumentos para ver se são realmente bons. Neste sentido, um argumento é uma forma de investigação. Alguns filósofos e activistas argumentaram, por exemplo, que criar animais só para produzir carne causa um sofrimento imenso aos animais e que, portanto, é injustificado e imoral. Será que têm razão? Não podemos decidir consultando os nossos preconceitos. Estão envolvidas muitas questões. Por exemplo, temos obrigações morais para com outras espécies ou o sofrimento humano é o único realmente mau? Podem os seres humanos viver realmente bem sem carne? Alguns vegetarianos vivem até idades muito avançadas. Será que este facto mostra que as dietas vegetarianas são mais saudáveis? Ou será irrelevante, tendo em conta que alguns não vegetarianos também vivem até idades muito avançadas? (É melhor perguntarmos se há uma percentagem mais elevada de vegetarianos que vivem até idades avançadas.) Terão as pessoas mais saudáveis tendência para se tornarem vegetarianas, ao contrário das outras? Todas estas questões têm de ser apreciadas cuidadosamente, e as respostas não são, à partida, óbvias. Os argumentos também são essenciais por outra razão. Uma vez chegados a uma conclusão baseada em boas razões, os argumentos são a forma pela qual a explicamos e defendemos. Um bom argumento não se limita a repetir as conclusões. Em vez disso, oferece razões e dados suficientes para que as outras pessoas possam formar a sua própria opinião. Se o leitor ficar convencido de que devemos realmente mudar a forma como criamos e usamos os animais, por exemplo, terá de usar argumentos para explicar como chegou a essa conclusão: é assim que convencerá as outras pessoas. Ofereça as razões e os dados que o convenceram a si. Ter opiniões fortes não é um erro. O erro é não ter mais nada.»

Anthony Weston, A Arte de Argumentar, Tradução de Desidério Murcho.

publicado por adignidadedadiferenca às 19:41 link do post
22 de Junho de 2011

 

Temos desde há muito formada a opinião que vai no sentido de considerar, atendendo às actuais circunstâncias, a filosofia, enquanto centro de ideias e de reflexão do mundo contemporâneo, algo adormecida ou mesmo cristalizada. Temos vindo a reparar, com alguma apreensão, que a filosofia tem andado recentemente desligada dos problemas concretos que a sociedade nos coloca, já não os discute com a mesma acuidade, veemência e diversidade com que o fazia desde a Grécia Antiga. Devemos confessar que não temos quaisquer ilusões sobre o mundo em que vivemos, e, na verdade, nunca nos prometeram que iríamos viver num belo mar de rosas, mas, ainda assim, pensamos que um pouco de filosofia no meio dos centros (quase deixava escapar antros) de decisão política ou económica era capaz de não ser má ideia. O mundo, pelo menos, não seria pior. E sabe melhor quando sabemos que a opinião é, em traços gerais, partilhada. Aqui fica o registo.

 

 

«Ter uma formação elementar em filosofia é importante porque nos ensina a pensar melhor sobre problemas de tal modo complexos que a tentação é desistir de tentar resolvê-los. Quem tiver não apenas plena consciência de que muitos seres humanos não desistem de pensar quando os problemas são muito complexos, mas tiver também uma ideia precisa, ainda que elementar, de como se pensa sobre esses problemas, terá ganho, se não autonomia intelectual, pelo menos a possibilidade de a obter. Assim, a importância pública de uma formação, ainda que elementar, em filosofia é a possibilidade de ganhar autonomia para pensar por si, com rigor, em problemas difíceis. Queremos melhores decisões empresariais, políticas, sociais, económicas, mas quando essas decisões não vêm nos livros estrangeiros, ficamos sem saber como proceder, envolvendo-nos em pseudodiscussões plenas de lugares comuns, com muita retórica e pouca substância.»

 

Desidério Murcho, «Filosofia em Directo»

publicado por adignidadedadiferenca às 00:48 link do post
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