a dignidade da diferença
20 de Janeiro de 2009

 

Pelléas et Mélisande - Claude Debussy/Pierre Boulez/Peter Stein/Alison Hagley/Neill Archer/Donald Maxwell (1992)

 

 

 

Depois de umas pequenas e bem gozadas férias, eis-me de regresso aos discos que nunca mais vou esquecer (a não ser que o mundo dê uma grande volta).

E pela primeira vez vou escolher uma ópera que, se não estou enganado, muito poucos se lembrariam de referir como a sua peça preferida. Com certeza que a maioria das escolhas iria recair sobre alguma das obras de Mozart, de Wagner ou de Verdi; pelo menos destes.

Todos eles são autores de obras geniais e, cada um com o seu estilo, fizeram avançar um pouco mais os limites até então estabelecidos para este género musical e dramático. Mas, confesso que em todas essas obras admiráveis não consigo encontrar uma que tenha aparecido, literalmente, do nada como se de um cometa se tratasse. Falo de Pelléas et Mélisande, a obra-prima do francês Claude Debussy que permanece uma ópera única e profundamente original tal como o era na altura em que viu a luz do dia. Não veio agarrada à tradição nem teve quaisquer seguidores, mas continua a fascinar imenso pela sua estranha e melancólica beleza e, graças à sua singularidade, por ter dito o que tinha para dizer de forma definitiva.

Pelléas et Mélisande é a adaptação da peça simbolista de Maeterlinck e conta-nos a história de um amor proibido: Mélisande apaixona-se por Pelléas, mas está noiva do seu irmão Golaud.

 

 

 

Tudo, mas mesmo tudo, é magnífico nesta assombrosa ópera de Debussy. Desde o modo paradigmático como o autor consegue escapar a qualquer espécie de sentimentalismo inócuo ao expressar-se de forma precisa e realista, como podemos comprovar nessa fabulosa cena que abre o terceiro acto e onde se desenrola uma apaixonada história de amor. Nela, Debussy recusa-se a utilizar qualquer palavra que fale de amor, apenas lhe basta para nos encantar a sua subtil sensibilidade orquestral.

Muito haveria para dizer sobre esta obra – como esquecer, por exemplo, os longos cabelos de Mélisande? -, mas fico-me pela plasticidade das vozes recitadas que combinam na perfeição com o contínuo fundo orquestral feito da mais pura seda, ou, ainda, pela invulgar ligação entre as cenas, concretizada por belíssimos interlúdios musicais que dão continuidade ao drama misterioso que se vai desenvolvendo.

Peter Stein encena o drama musical de forma cinematográfica, abrindo mão de uma série bastante diversificada de enquadramentos que combinam, de forma exemplar, com o espaço físico e musical. Quanto a Pierre Boulez, chega dizer que, uma vez mais, oferece aos seus ouvintes uma leitura magistralmente detalhada e marcadamente pessoal da genial partitura musical de Claude Debussy, dando um passo mais rumo à consolidação do conceito do  intérprete-compositor.

Para ver, rever e divulgar. Nunca é demais.

 

Acto I, Cena III 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:46 link do post
09 de Novembro de 2008

 

Arturo Benedetti Michelangeli plays Debussy (Images, Children's Corner 1971 / Préludes I 1978 / Préludes II 1988)

 

 

 

O casamento perfeito entre a música impressionista do compositor francês Claude Debussy (1862-1918) - evocativa de um determinado estado de espírito ou atmosfera, rebuscando, não raras vezes, memórias de sons naturais e ritmos de dança, passagens melódicas contemplativas ou de sabor oriental que definem, grosso modo, as principais características da música revolucionária que o compositor francês criou na viragem do século XIX para o século XX  - e a sobriedade expressiva do assombroso pianista Arturo Benedetti Michelangeli (1920-1995), cujas lendárias ausências, retiradas e silêncios lhe conferiram uma aura mítica semelhante à de outro soberbo pianista do século XX: Glenn Gould.

O mais importante e o que nos fica na memória é o gesto livre e natural que sobressai desta interpretação magnífica do pianista italiano, capaz de oferecer, numa bandeja de oiro puro, doses deslumbrantes de música transparente e, por vezes, quase invísivel, reproduzindo um prodigioso ambiente sonoro nocturno com ecos de uma subtil fantasia poética.

 

Nunca, como neste disco, as peças musicais de Debussy - que constituem o mais importante contributo do início do século XX para o reportório do piano enquanto instrumento solista -, estiveram em tão boas mãos. Um estilo arrojado e profundamente lírico, numa busca permanente pela pureza e perfeição da música, deixa-nos como legado uma gravação histórica, radicalmente poética e portadora de uma sensibilidade primorosa, elegante e transgressora.

 

Uma obra, a todos os títulos, admirável.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:29 link do post
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