a dignidade da diferença
31 de Janeiro de 2016

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Confesso que não consigo tomar uma posição definitiva sobre a adopção por casais homossexuais. Sobretudo porque não encontrei até hoje uma fundamentação suficientemente amadurecida quanto à sua substância. Para esta posição indefinida contribui também a circunstância de, segundo creio, não ter ainda havido um debate empenhado sobre uma matéria tão relevante e que trará profundas alterações no direito da família, à qual devo acrescer o facto de não serem conhecidos estudos cientifícos conclusivos sobre a matéria. Defendo sem reservas os direitos dos homossexuais; não obstante, neste caso entendo ser o direito das crianças adoptadas que está em causa. Neste sentido, observei com alguma preocupação a arrogância com que os partidos da esquerda maioritariamente representada no Parlamento acolheram as explicações do Presidente da República sobre o veto à lei da co-adopção. O romancista e ensaísta Claudio Magris, a propósito da natureza variável das convenções sociais, manifestou há anos uma série de inquietações que ainda hoje me parecem perfeitamente actuais e importantes. Magris sustentava, nesse ensaio, que os casais homossexuais negam a família e, simultaneamente, reclamam o direito de constituí-la. Aceitando a mudança das convenções sociais, Claudio Magris ia mais longe e acusava os casais homossexuais de falta de coragem. Com efeito, para ele, quem considera que a família não é o único nem o melhor ambiente em que pode crescer uma criança devia ter a audácia de propor que a adopção de uma criança não seja forçosamente por duas pessoas ligadas por um relacionamento sexual, questionando por que razão, seguindo essa linha de raciocínio, não pode também ser efectuada por um grupo de amigos ou uma comunidade, desde que formada por pessoas capazes de oferecer todas as garantias de que sabem tratar de uma criança. No entanto, tendo em consideração o mais recente comportamento da maioria parlamentar, duvido que haja condições para discutir as ideias a este nível…

25 de Julho de 2014

 

 

Alfabetos - Alfabeti - Saggi de letteratura, no original - reúne um conjunto notabilíssimo de ensaios sobre literatura, da autoria de Claudio Magris. Aparentemente dispersos, estes textos possuem, no entanto, uma consistência que advém da existência de um fio condutor, agrupando e organizando as preocupações e as reflexões do escritor e ensaísta italiano, entre as quais se destacam, por estarem bem presentes, as múltiplas contradições entre a substância literária e as feridas no comportamento dos seus autores, o significado da linguagem neoclássica ou de vanguarda, os compromissos ético e político da literatura, a natureza variável das convenções sociais, as transformações culturais ou a poesia, o sentido e o valor da vida. E neles sobressai ainda a imensa cultura, o humor, a paixão pelos livros e a escrita lúcida e linear do seu autor; nenhuma ideia é inútil ou superficial. Deixo aqui um exemplo admirável da feliz conexão entre prosa e pensamento: «Hoje indubitavelmente as transformações dos costumes e as possibilidades oferecidas pela bioengenharia corroem de forma radical o modelo de família (…) Esse somatório de coisas desconcerta também quem contesta a família tradicional: não por acaso, muitas vezes inconscientemente, o casal tenta reconstruí-la, mesmo quando crê desmantelá-la. Por exemplo, os unidos de facto que mesmo podendo casar-se não o fazem, baseando-se na ideia de que o seu relacionamento nada tem a ver com o Estado, algo em si legítimo, pretendem, contraditoriamente, um reconhecimento por parte deste último, não conseguindo, é claro, libertar-se do modelo da família como base da unidade social; até os casais homossexuais negam a família e, ao mesmo tempo, reclamam o direito de constituí-la. Quem considera que a família não é o único nem o melhor ambiente em que pode crescer uma criança deveria ter – mas não tem – a coragem, nas adopções, de propor que a adopção de uma criança não seja necessariamente por duas pessoas ligadas por um relacionamento sexual, mas também possa ser efectuada por um grupo de amigo ou uma comunidade, desde que formada por pessoas que dêem todas as garantias de que sabem tratar de uma criança».

publicado por adignidadedadiferenca às 22:20 link do post
18 de Julho de 2014

 

 

«A grandeza de Camus consiste em ter unido uma ética inflexível a uma inexaurível capacidade de felicidade, de viver a fundo a vida, como um baile popular ou um dia de sol à beira-mar, até na sua tragicidade enfrentada sem rebuço, recusando qualquer moral que reprima a alegria e o desejo. Camus tem um sagrado, religioso respeito pela existência, o qual o impede de qualquer transcendência, metafísica ou política, que pretenda sacrificá-la a fins superiores. Nenhum fim justifica meios delituosos, que pervertam os fins mais nobres, como acontece nas rebeliões – O Homem Revoltado – sempre traídas pelas revoluções; nenhum amor pelas vítimas – sempre defendidas por Camus contra os carrascos – as autoriza (nem autoriza os seus defensores) a tornarem-se por sua vez carrascos. Camus viveu a fundo o niilismo e o absurdo combatendo-os sem qualquer ilusão de alcançar uma verdade e encontrando um inexorável sentido e valor no viver; mesmo se Deus não existisse, nem por isso tudo seria permitido.»

Claudio Magris, in Alfabeti – Saggi di Letteratura

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