a dignidade da diferença
07 de Fevereiro de 2013

 

 

Gomorra, o anterior e magnífico filme do italiano Matteo Garrone, cruzava uma mão cheia de histórias contemporâneas e realistas num cenário violento configurado pelo sistema obsessivo e cruel da Camorra. Tratava-se de uma denúncia tremenda e detalhada do mundo paranoico e excessivo onde impera uma obediência cega e forçada às regras criadas pela mafia napolitana, apta a eliminar forçosa e rapidamente qualquer resistência à violência física e psicológica por si criada. O mais recente e notável Reality persegue a vida de Luciano, peixeiro que ambiciona entrar no próximo Big Brother italiano, e trabalha outro tipo de violência que conduz ao mesmo efeito pernicioso: a ausência de valores, o vazio mental e cultural, a degradação moral ou o desrespeito pela dignidade humana. Testemunho mordaz da alienação televisiva, o realismo de Reality (no fundo, misto de fábula e realidade) mostra, no limite, até onde pode conduzir a obsessão do seu protagonista: a decadência das relações sociais, o grotesco da sua conduta, a manipulação da sua identidade. E desenganem-se os potenciais detratores do filme: o olhar do cineasta nunca tropeça num distanciamento perigoso relativamente aos personagens da sua história: apesar da rejeição e da crítica, a câmara sente, paradoxalmente, uma simpatia e um calor pelos rostos que fixa; mostra uma capacidade notável para criar um corpo ficcional simultaneamente denso e kitsch, configurando ainda uma assinalável espessura dramática às personagens de tal forma que o espectador consegue facilmente sentir por elas e pelos seus trágicos destinos uma empatia tão desejada quanto dolorosa. Herdeiro da comédia clássica italiana, a dos mestres Fellini, Risi ou Monicelli, Garrone filma desta vez um mundo bem diferente do universo violento da mafia napolitana sobre o qual Gomorra compôs uma formidável panorâmica. Porém, são muito mais os pontos de contacto – a degradação de um mundo sem valores morais (o célebre é famoso por ser famoso), o deserto mental e cultural (o delicioso Never give up! de Enzo, anterior vencedor do Big Brother que vive dos eventos onde aparece à custa da fama adquirida), a violência física ou psicológica - do que os elementos distintivos, sinal evidente de que por ali cresce um verdadeiro cinema de autor. Uma fábula tão doce e belíssima quanto cruel  e realista, cuja relação de proximidade com os protagonistas torna ainda mais triste e dolorosa a fatalidade daquela gente.

 

  

25 de Novembro de 2012

 

 

De Béla Tarr, no mercado português, só existia O Homem de Londres em DVD e a estreia comercial nas salas de cinema do último O Cavalo de Turim. Porém, com a recente edição a cargo da Midas Filmes de uma caixa com quatro dos seus filmes mais importantes, a obra do cineasta húngaro tem a possibilidade de alargar o seu culto em Portugal. Autor de um cinema que exige a máxima atenção e uma participação ativa do espectador e só a esse se entrega e se deixa descobrir plenamente, Tarr criou um universo cinematográfico único assente num retrato esmagador do mundo contemporâneo, um realismo árido e apocalíptico cuja visão nos conduz a uma camada da humanidade que vive sem esperança, cercada pela paisagem inóspita e eternamente condenada a um sacrifício que não leva a lugar nenhum. Metáfora do pesadelo comunista, da solidão e do sofrimento contemporâneos, a arte de Béla Tarr encontra nos longos planos-sequência, na densidade, na espessura e no contraste carregado do preto e branco, o meio adequado para nos contar a história derradeira da condição humana. O seu cinema distingue-se das outras linguagens pela forma como trabalha admiravelmente a imagem e o som, como constrói dramaticamente um espaço fechado ou coreografa o dilúvio que deixa aquela gente sem escapatória possível. Ao presenciar esta visão tão hipnótica, transcendente e poética, parece impossível evitar, usando uma expressão de João Lopes, a partilha duma «experiência sensorial e intelectual» absolutamente irrecusável, estimulante e irrepetível. Um olhar austero e desolador sobre personagens que se aproximam inevitavelmente do seu fim, onde a luz acaba e aquelas se sentem apenas acompanhadas por uma paisagem lamacenta e pelo tempo chuvoso, ventoso e extenuante. Danação, O Tango de Satanás, As Harmonias de Werckmeister e O Cavalo de Turim aí estão para combater a indiferença.

 

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