a dignidade da diferença
31 de Agosto de 2011

 

 

America über alles! Sorrisos, risinhos. Momentos de silêncio, e depois… o maestro Botstein compromete-se, espontaneamente, a apoiar o «relançamento» de Enescu no mundo. Solicita uma proposta detalhada para a reestruturação e informatização do arquivo, para o relançamento das gravações, para a edição e difusão internacional da obra e para o início de uma biografia monumental sobre o compositor. Uma batuta imaginária eleva, em crescendo, o apelo do maestro. «Se conseguirmos levar toda a obra enesciana para as salas de concerto, então a história da música deste século reservará a Enescu um lugar ao lado de Bartók e Szymanovski. O século está, como sabem, sob a obsessão Schönberg-Stravinski. Bartók marginalizado, por ser húngaro, Enescu, por ser romeno, os americanos, por serem americanos. Esta visão vai mudar. Enescu não vai mais ser visto como um exótico, mas sim como o mestre das sínteses, um criador de originais ideias musicais. A Polónia comunista adoptou Chopin, a República Checa adoptou Smetana, e não Dvorak, os húngaros tiveram problemas com Bartók, até que Kodály interveio em seu favor. Enescu precisa de uma reentrada gloriosa no mundo! É um momento oportuno apressemo-nos.»

Norman Manea, «O Regresso do Hooligan», tradução de Carolina Martins Ferreira

 

 

08 de Setembro de 2008

 

Este pequeno texto serve apenas para vos recordar dois dos melhores exemplos que conheço do génio interpretativo da célebre violoncelista Jacqueline du Pré.

O extraordinário virtuosismo, a arrebatadora emoção e a força interior que du Pré põe na leitura do Concerto para violoncelo de Sir Edward Elgar, torna-a, quase sem oposição, na interpretação definitiva de uma das últimas composições de Elgar e é, seguramente, um dos expoentes máximos do violoncelo enquanto instrumento solista. Acompanha-a, brilhantemente, num estilo requintado e cheio de luz, John Barbirolli na direcção de orquestra.

Memorável é, igualmente, Jacqueline du Pré no Concerto para violoncelo Op.104 de Dvorak que, nesta actuação de 1967, contou com a colaboração da orquestra dirigida pelo assombroso Sergiu Celibidache.

 

Nova leitura magnífica, num jogo perfeito e radical de contrastes entre o lendário prolongamento dos tempos que o maestro romeno dilata de forma admirável, criando uma atmosfera única de tensão dramática e lirismo apaixonado que, quase miraculosamente, expõe, num traço transparente e vigoroso, o temperamento instável e arrebatador desse prodígio do violoncelo.

Duas gravações luminosas que se cruzam, de modo fascinante, nos nossos sentidos, sempre que nos dispomos a ouvi-las uma e outra vez.

 

Concerto para violoncelo - Elgar

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:03 link do post
22 de Maio de 2008

  

As gravações ao vivo das nove sinfonias de Bruckner pela Orquestra Filarmónica de Munique, dirigida pelo maestro Sergiu Celibidache (editadas pela EMI em 1998)

 

É admirável a empatia quase inacreditável que se sente entre os blocos sonoros monumentais que são a matéria das sinfonias de Bruckner e a interpretação, impossivelmente lenta e em tons coloridos, que o maestro romeno, adepto confesso do zen-budismo, imprime aos vários andamentos, reforçando, dessa maneira, a sua visão pessoal sobre o modo como cada intérprete deve intuir o tempo certo. Celibidache, mais do que um esboço, desenha, deste modo,  uma atmosfera densa, servindo-se, de forma inventiva e intencional, de uma pulsação dramática no limite do suportável, atingindo, quase no final de cada sinfonia (ou de cada andamento), um êxtase místico de proporções gigantescas, transformando cada sinfonia numa matéria musical claramente religiosa e com uma dimensão digna de uma catedral. Está, a par da versão de «La mer» de Claude Debussy (comparada a um oceano de cores e sons), para lá da compreensão humana.

 

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