a dignidade da diferença
12 de Julho de 2012

 

Reedição (para já, parcial) da obra de José Afonso. Sinais inequívocos de inconformismo e evolução estética, compromisso político (pontualmente excessivo e algo datado), escrita poética, surrealismo e uma ironia do mais fino recorte técnico. Trata-se, no fundo, de uma renovada e plena demonstração da sua capacidade vocal e intuição melódica, de uma visão artística sem fronteiras e, sobretudo após o extraordinário golpe de asa iniciado com o genial Cantigas do Maio (enriquecido pela cumplicidade e pelos soberbos arranjos musicais de José Mário Branco) - cujo contributo para a história da música portuguesa apenas será igualado, naquela época, pela personalidade e matriz individual das obras iniciais de Carlos Paredes, José Mário Branco e Sérgio Godinho ou pela sublime Amália do período Alain Oulman -, um magistral e absolutamente perfeito domínio das características fundamentais e da estrutura formal de uma canção. Venha agora o resto da obra, correspondente à fase mais afirmativa e genial da sua carreira, da qual merece particular destaque a perfeição de Venham Mais Cinco e o menos valorizado mas não menos inventivo Como Se Fora Seu Filho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

19 de Agosto de 2009

 

José Afonso, Cantigas do Maio (1971)

 

 

O disco que, a par dos extraordinários Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades de José Mário Branco e Os Sobreviventes de Sérgio Godinho, deixou para trás, definitivamente, as «baladas choradeiras» e trouxe a modernidade para o coração da música popular portuguesa.

É nesta gravação fundamental que José Afonso introduz o surrealismo no seu reportório poético-musical (com um poema de António Quadros e outro da sua autoria) e que une, de um modo inovador e plenamente conseguido, a balada tradicional às sonoridades urbanas, contando, para o efeito, com a preciosíssima ajuda de José Mário Branco.

Já tudo se sabe e tudo se disse sobre este clássico absoluto da música portuguesa,  reservando-se a maior fatia de louvores para os prodigiosos arranjos/orquestrações de José Mário Branco que são o fruto natural da sua inesgotável riqueza de ideias para, através do uso minucioso da instrumentação, atingir a máxima expressividade artística em cada canção.

Se todo o álbum é magnífico, existem, pelo menos, duas canções onde o talento intuitivo e melódico de José Afonso e a ousadia arquitectónica de José Mário Branco raiam o sublime: Maio Maduro Maio, que combina na perfeição beleza e lirismo poético com uma notável modernidade musical, sublinhada pelo som do trompete em surdina, e a assombrosa Coro da Primavera, com um notável trabalho de percussão que dramatiza com uma profundidade quase insustentável a estrutura musical e o canto da canção.

Uma das raríssimas obras-primas da música portuguesa, da autoria de um músico que continuou a criar, durante os anos 70, uma obra de grande fulgor claramente acima da média nacional, cujos parâmetros de qualidade musical e ousadia estética só foram acompanhados - enquanto esperávamos pelo espírito aventureiro da música pop dos anos 80 - pelas gravações de Sérgio Godinho, José Mário Branco, Banda do Casaco e muito poucos mais.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:37 link do post
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