a dignidade da diferença
21 de Setembro de 2012

 

 

O primeiro facto a reter é o ciclo sobre o cinema do brasileiro Glauber Rocha, programado pela Cinemateca Portuguesa para este mês de setembro. Oportunidade para recuperar a urgência, a atualidade e as fascinantes contradições da visão simultaneamente poética, desencantada e  surreal dos ainda hoje magníficos Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe ou António das Mortes, entre outros cuja dinâmica seria um erro menosprezar. E, face aos tempos conturbados por que passamos, o cinema de Glauber Rocha é também uma excelente oportunidade para (re)pensar o modo de viver no mundo contemporâneo.

 

 

O título poderia ser A racionalidade das pessoas pobres. Uma obra onde os seus autores, Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo, professores de economia nos EUA, avançam com um conjunto de ideias diferentes e ousadas sobre o modo como enfrentar o eterno problema da luta contra a pobreza e ultrapassar o dogma do fracasso a que, regra geral, está condenada. Fica desde já um aviso deixado pelos autores, o qual passo a citar: «a maioria dos programas destinados aos pobres em todo o mundo é financiada pelos recursos dos próprios países pobres». Um trabalho honesto e militante.

 

 
O reportório de Beethoven reinterpretado por Andreas Staier. Um trabalho analítico, tenso e elaborado do assombroso cravista alemão, no qual transparence claramente uma releitura profundamente pensada e personalizada que sujeita as abissais Variações Diabelli, de Beethoven - cuja dimensão estética ainda hoje impressiona, sobretudo quando comparada com a obra dos compositores seus contemporâneos -, a prodigiosas e inventivas modificações, permitindo quase milagrosamente uma audição renovada, sem, contudo, descaracterizar o essencial da sua matriz musical original. Um disco raro e esplêndido.
31 de Agosto de 2010

 

Beethoven: Sonatas para piano, Vol. I a VIII, András Schiff (2008)

 

 

As sonatas para piano de Beethoven acompanham a sua evolução musical enquanto compositor de excepção. Desde uma primeira fase em que se revelam demasiado dependentes da tradição clássica, passando por uma fase intermédia mais madura e diversificada, cobrindo um amplo conjunto de formas e estilos. A fase final do genial compositor caracteriza-se por um desenvolvimento dos temas até ao limite, absorvidos por um ambiente contemplativo.

András Schiff esperou uma vida para a gravação integral (em oito volumes) das 32 sonatas para piano de Beethoven. Nas mãos do intérprete húngaro a música de Beethoven revela-se de uma tensão e concentração portentosas, questiona-se e amadurece no silêncio das notas, na sabedoria de uma expressividade que só vem com o tempo. Admirável e irrepetível.

 

 

 

26 de Abril de 2009

 

 

Aproveitando a passagem pelo nosso país da magnífica Orquestra Sinfónica Juvenil Simón Bolívar que actuou na noite do passado dia 25 de Abril no Coliseu dos Recreios, eis uma excelente oportunidade para aconselhar todos os que visitam este blog - e apreciam música erudita – a ver ou rever o soberbo documentário da autoria de Enrique Sánchez Lansch, editado em DVD no ano transacto pela Unitel Classica e intitulado The Promise Of Music.

O autor conta-nos a impressionante e quase irreal história do nascimento e do crescimento de uma espantosa orquestra de jovens músicos num país cheio de problemas sociais como é o caso da Venezuela.

Servindo-se do relato e expondo o retrato dos próprios músicos, ficamos a saber como este projecto musical acaba por ter uma importante função social ao tirar crianças da rua, afastando-as muito cedo do mundo da pobreza, da delinquência e da violência, transformando-as em jovens músicos cheios de talento, com motivação para ensaiar e amadurecer musicalmente. Nada disto seria possível, obviamente, sem uma rigorosa política cultural - nem tudo é mau na Venezuela, como se prova com este exemplo – e, sobretudo, sem a participação activa e a direcção musical do sublime maestro Gustavo Dudamel, também ele aproveitado e trabalho ao pormenor até se tornar um dos mais expressivos e brilhantes directores de orquestra da actualidade.

Como bónus, o DVD oferece uma sublime interpretação da Eroica, a genial 3.ª Sinfonia de Beethoven. Assistimos, deslumbrados, a uma rigorosa e detalhada exploração sonora, estruturada através de uma visão arquitectónica da música, edificada com mão de mestre, e profundamente contagiante e harmoniosa.

Acabadinha de chegar, também se aconselha a audição da novíssima gravação de Dudamel e da sua orquestra, onde interpretam de forma magnífica a 5.ª Sinfonia e Francesca da Rimini de Tchaikovsky.

Um notável repasto musical e um verdadeiro manifesto cultural.

 

3.ª Sinfonia "Eroica", Beethoven

publicado por adignidadedadiferenca às 01:43 link do post
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