a dignidade da diferença
10 de Fevereiro de 2013

 

 

A coordenação perfeita entre o canto de Joyce DiDonato e o acompanhamento instrumental do Il Complesso Barocco, superiormente dirigido por Alan Curtis, destaca brilhantemente a teatralização dos arrebatamentos dramáticos do período barroco que os intérpretes percorrem de ponta a ponta. A voz quente e policromática de DiDonato, derramando prodigiosas vagas sonoras, atravessa reportório mais ou menos conhecido daquele período, sublinhando a riqueza coral e as características próprias dos excessos emocionais de autores com o génio de Handel, Haydn ou Monteverdi, combinando-as, num jogo expressivo e de técnica apurada, com a música inventiva dos praticamente desconhecidos Orlandini, Hasse ou Keiser (numa atitude pedagógica próxima da revelada periodicamente por Cecilia Bartoli). Uma gravação notável cujo resultado nos conduz a este disco magnífico, adequadamente intitulado Drama Queens, aproximando-nos das emoções ainda vivas de uma música antiga onde, porém, descobrimos, como nos diz a cantora, «as mesmas súplicas, dores ou angústias, as mesmas raivas e alegrais».

 

10 de Junho de 2012

 

 

A obra extensa de J. S. Bach abrange praticamente todas as formas musicais em voga na sua época, talvez com a única exceção da ópera. E entre a sua música instrumental mais significativa, contam-se, como melhores e mais notórios exemplos, as Suites Francesas, as Sinfonias ou o Concerto Italiano. Paradigma da exuberância criativa do seu autor, as referidas composições são o reflexo exato da riqueza cromática e da preciosa ornamentação estilística que caracterizaram o que de melhor teve o período barroco. Gustav Leonhardt, na qualidade de cravista, cortou-lhe os excessos, num gesto certeiro de depuração e concisão estética, e traçou-lhes a bissetriz perfeita, a qual, paradoxalmente, em vez de os separar, conseguiu aproximar o mundo antigo do contemporâneo (o dele; não esqueçamos que a última gravação é de 1980). Fê-lo admiravelmente, combinando a arte do contraponto e a clareza do seu pensamento com a transparência estrutural e harmónica das peças musicais, realçando ainda a arquitetura das formas, fundindo as características francesas, italianas e alemãs num registo simultaneamente introspetivo e metafísico sem perder de vista um contagiante efeito de celebração musical. Uma antologia que nos devolve a inesgotável riqueza do admirável mundo antigo.

 

Excerto do filme Crónica de Anna Magdalena Bach, de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet

09 de Abril de 2008

Paixão Segundo São Mateus - J.S.Bach/Rudolf Mauersberger (1970)

 

 

 

Uma das mais inspiradas e dramáticas obras de toda a história da música vocal, feita com base em esplendorosas fantasias corais de uma espessura e grandeza épica ímpares em qualquer género.

A minha preferência por este registo resulta da harmonia existente entre o que Bach desejou - um conjunto magistral de estilos, que vão desde o recitativo, percorrendo inúmeras árias e coros, até atingir incomparáveis efeitos expressivos - e o que Mauersberger conseguiu: destaque quase exclusivo para a importância primordial das palavras, acertando com a entoação adequada ao fraseado, oferecendo-nos a inspiração vocal de todos os solistas, que brilha em conjunto e de forma quase telepática com a contenção e intensidade expressiva da orquestra.

Um acto de criação de uma dimensão que vai para lá do imaginável e uma interpretação vocal e orquestral que, por vezes, se reduz ao rigorosamente essencial, mas também é capaz de nos surpreender com verdadeiras peças de relojoaria e requinte interpretativo.

publicado por adignidadedadiferenca às 00:31 link do post
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