a dignidade da diferença
30 de Junho de 2014

 

 

Num mundo dependente do vil dinheiro onde, como diria Anselm Jappe: «estamos dispostos a tudo sacrificar para apaziguar as suas cóleras», três vigaristas compulsivos - que fascinam tanto pela sua inteligência como pelo seu glamour - não olham a meios nem os laços familiares limitam o seu comportamento agressivo, criando um jogo viciado e demasiado perigoso. Uma realização empenhada de Stephen Frears, apoiada num óptimo argumento e nos assinaláveis desempenhos de um notável trio de ases - formado por John Cusack, Annette Bening e Anjelica Huston (perturbante no papel de ave predadora) -, constrói, sob o olhar penetrante e obsessivo da câmara de filmar, uma adequada atmosfera de film noir na qual, na ausência de códigos morais, sobressai um progressivo clima de cinismo, confronto e tensão, cujo realismo brutal destrói qualquer possibilidade de sobrevivência. Vinte e quatro anos após a sua estreia, The Grifters continua a ser um filme sedutor, terrível e magnífico.

 

 

29 de Dezembro de 2012

 

Tendo em conta a dimensão estratosférica de obras que foram publicadas durante o ano e a impossibilidade física de aceder a um número mínimo exigível que permitisse ficar com uma perceção razoável daquilo que foi acontecendo de relevante no domínio da criação literária, apresentar uma lista dos melhores livros do ano será uma tarefa perfeitamente estúpida, ingrata e inútil. Na melhor das hipóteses, sem cair no ridículo, apenas poderei destacar daquilo que li os poucos livros que me agradaram (doze no total, uma média de um livro por cada mês do ano, incluindo novas edições, reedições ou primeiras edições de livros antigos). É o que farei.

 

A Economia dos Pobres, Abhijit V. Banerjee/Esther Duflo

 

O Legado de Humboldt, Saul Bellow

 

Obra Poética Vol.1, Jorge Luis Borges

 

Os Irmãos Karamázov, Fiódor Dostoievski

 

Poeira da Alma, Nicholas Humphrey

 

Os Manuscritos de Aspern, Henry James

 

Sobre a Balsa da Medusa, Anselm Jappe

 

Pensar, Depressa e Devagar, Daniel Kahneman

 

Mel, Ian McEwan

 

A Noite dos Proletários, Jacques Rancière

 

Do Natural, W. G. Sebald

 

Steve Sem-Sandberg, O Imperador das Mentiras

 

08 de Setembro de 2012

 

 

«Idealmente, não são as obras que devem agradar aos homens, mas os homens que deveriam tentar estar à altura das obras. Não cabe ao espectador/consumidor escolher a sua obra, mas à obra escolher o seu público, determinando quem é digno dela. Não nos compete julgar Baudelaire ou Malevitch; são eles que nos julgam e que julgam a nossa faculdade de julgamento. A obra, nesta perspectiva, não deve estar ao “serviço” do sujeito que a contempla. Podíamos dizer da arte o que é válido para a ética: estabelece parâmetros, indica onde é que os indivíduos deveriam esforçar-se por chegar – e não o contrário. Uma das funções da arte foi sempre mostrar aos indivíduos um mundo superior, no qual encontrávamos a liberdade e a intensidade cuja ausência se fazia sentir tão cruelmente na vida de todos os dias. A arte deixava entrever modos de vida mais elevados e mais essenciais, tanto na epopeia como na primeira pintura abstrata – e confrontava assim o individuo com o estado do mundo real.»

Anselm Jappe, Sobre a Balsa da Medusa, tradução de José Alfaro

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