a dignidade da diferença
03 de Fevereiro de 2012

 

 

«A literatura difere da vida na medida em que a vida é homogeneamente repleta de detalhes, e raramente nos chama a atenção para eles, enquanto a literatura nos ensina a reparar – a reparar na maneira como a minha mãe, digamos, limpa os lábios antes de me beijar; no som de berbequim de um táxi londrino, quando o seu motor a diesel entra flacidamente em ponto morto; na semelhança das linhas brancas nos casacos de cabedal velho com as estrias de gordura em bocados de carne; na maneira como a neve recente “range” debaixo dos pés; na maneira como os braços de um bebé são tão gordos que parecem atados com cordéis (ah, os outros exemplos são meus, mas o último é de Tolstoi!). Esta educação é dialéctica. A literatura faz de nós melhores observadores da vida; e permite-nos exercitar o dom na própria vida; que por sua vez nos torna mais atentos ao detalhe na literatura; que por sua vez nos torna mais atentos ao detalhe na vida. E assim sucessivamente. Basta dar aulas de Literatura para perceber que muitos jovens leitores são fracos observadores. Os meus próprios livros, caprichosamente anotados, há vinte anos atrás, nos meus tempos de estudante, mostram-me que eu sublinhava, como dignos de aprovação, detalhes e imagens e metáforas que agora me parecem banais, enquanto ignorava serenamente coisas que agora me parecem maravilhosas. Vamos crescendo como leitores, e leitores de vinte anos são praticamente virgens. Ainda não leram literatura suficiente para serem ensinados por ela a lê-la melhor.»

James Wood, a mecânica da ficção, tradução: Rogério Casanova

24 de Janeiro de 2012

 

 

«Os romancistas devem agradecer a Flaubert, da mesma forma que os poetas agradecem à Primavera: tudo começa de novo com ele. Podemos realmente falar de um tempo antes de Flaubert e de um tempo depois dele. Flaubert estabeleceu decisivamente aquilo que grande parte dos leitores e escritores vêem como a moderna narração realista, e a sua influência é quase demasiado familiar para ser visível. Quase nunca elogiamos a boa prosa quando esta favorece o detalhe brilhante e revelador; quando privilegia um alto nível de registo visual; quando mantém uma pose não sentimental e sabe quando se abster, como um bom valete, de fazer comentários supérfluos; quando busca a verdade, mesmo sob o perigo de nos repelir; e quando as impressões digitais do autor sobre tudo isto são, paradoxalmente, identificáveis mas invisíveis. Conseguimos encontrar alguns destes factores em Defoe, Austen ou Balzac, mas todos eles só em Flaubert.»

James Wood, A mecânica da ficção (tradução: Rogério Casanova)

 

 

Conferir, por favor, nos magníficos e inovadores (para a época) bordados literários que são Salammbô, Madame Bovary e, sobretudo, A Educação Sentimental.

20 de Julho de 2010

 

Um livro notável apropriado para quem, como eu, quer tornar-se melhor leitor (aceitando, a propósito, a óptima sugestão da Ana Cristina Leonardo).

 

«A Mecânica da Ficção é um estudo brilhante sobre os elementos principais da ficção, tais como a narrativa, o detalhe, a caracterização, o diálogo, o realismo e o estilo. Um dos mais proeminentes críticos dos nossos tempos disseca estes mecanismos e coloca uma série de questões fundamentais: o que queremos dizer quando dizemos que conhecemos uma personagem ficcional? Quando é que uma metáfora é bem conseguida? Será que o Realismo é realista? E por que é que tantas vezes os desfechos dos romances são uma desilusão? De Homero a Beatrix Potter, da Bíblia a John le Carré, A Mecânica da Ficção estuda as técnicas ficcionais, enquanto constitui também uma história alternativa do romance.»

  

Sinopse retirada da contracapa da edição portuguesa (Quetzal Editores)

 

publicado por adignidadedadiferenca às 02:44 link do post
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