a dignidade da diferença
24 de Janeiro de 2012

 

 

«Os romancistas devem agradecer a Flaubert, da mesma forma que os poetas agradecem à Primavera: tudo começa de novo com ele. Podemos realmente falar de um tempo antes de Flaubert e de um tempo depois dele. Flaubert estabeleceu decisivamente aquilo que grande parte dos leitores e escritores vêem como a moderna narração realista, e a sua influência é quase demasiado familiar para ser visível. Quase nunca elogiamos a boa prosa quando esta favorece o detalhe brilhante e revelador; quando privilegia um alto nível de registo visual; quando mantém uma pose não sentimental e sabe quando se abster, como um bom valete, de fazer comentários supérfluos; quando busca a verdade, mesmo sob o perigo de nos repelir; e quando as impressões digitais do autor sobre tudo isto são, paradoxalmente, identificáveis mas invisíveis. Conseguimos encontrar alguns destes factores em Defoe, Austen ou Balzac, mas todos eles só em Flaubert.»

James Wood, A mecânica da ficção (tradução: Rogério Casanova)

 

 

Conferir, por favor, nos magníficos e inovadores (para a época) bordados literários que são Salammbô, Madame Bovary e, sobretudo, A Educação Sentimental.

09 de Janeiro de 2012

 

 

«E deve notar-se que, sendo a arte a forma intensa de individualismo, o público trata de exercer sobre ela uma autoridade que é tão imoral como ridícula e tão corruptora como desagradável. A culpa não é toda sua. O público foi sempre, em todos os tempos, mal educado. Pede-se constantemente que a arte seja popular, para satisfazer a sua falta de gosto, para adular a sua absurda vaidade, para lhe dizer o que já antes lhe foi dito, para lhe mostrar o que já devia estar cansado de ver, para o divertir quando se sente pesado depois de ter comido de mais, e para distrair os seus pensamentos quando está cansado da sua própria estupidez.» (A Alma do Homem sob o Socialismo, traduzido por Maria da Graça Morais Sarmento)

Pensamentos, Relógio D’Água Editores

17 de Maio de 2010

 

O conde Lev Tolstoi narra, nesta pequena e muito bela obra – escrita entre 1852 e 1862 -, as vivências de Olénin, um jovem desencantado, que se junta ao exército no Cáucaso, em busca de uma nova vida afastado de Moscovo e dos seus antigos amigo, sentindo-se atraído pela beleza da natureza e da sua paisagem e pela sua nova paixão: Mariana.

Cossacos é uma pequena obra-prima que Tolstoi terminou aos 33 anos, a qual antecedeu os sublimes e imortais Anna Karénina e Guerra e Paz ou esse extraordinário Hadji-Murat, novela que se manteve inédita até à morte do genial romancista russo.

Cossacos é mais uma notável prosa de ficção de Tolstoi, para a qual o escritor usa a sua original, universal e transcendente aptidão artística, arte essa que se traduz na forma harmoniosa como conjuga no mesmo verbo romantismo e realismo (mais uma vez, encontra-se neste texto a sua procura obsessiva da verdade), a perfeição formal da sua escrita acompanhando notavelmente o ritmo cardíaco do leitor e, sobretudo, a riqueza polifónica das suas personagens, assim como a deslumbrante estrutura musical que jorra da sua imaginação criativa.

Introspectivo e sensível, escultor e romancista, apaixonado e idealista, Tolstoi surpreende-nos sempre com a sua formidável poesia e inabalável crença na construção de prodigiosas, felizes ou devastadoras personagens. E fica a certeza de que já não se escrevem romances assim: prosa de uma beleza transparente, por vezes rude, mas sempre viva, acompanhada por uma construção colossal e em constante movimento.

 

 

Brevemente: O último artigo de Saldanha Sanches

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:00 link do post
18 de Agosto de 2008

Para quê? Vasto e terrível ponto de interrogação, que agarra a crítica pela gola do casaco desde o primeiro passo que pretenda dar no seu primeiro capítulo.

O artista começa por censurar à crítica o facto de nada poder ensinar ao burguês, que não quer pintar nem rimar – nem à arte, já que foi das suas entranhas que a crítica saiu.

E, contudo, quantos artistas deste tempo só a ela devem a sua pobre nomeada! Será talvez essa a verdadeira censura a fazer-lhe.

Vimos como um Gavarni representou um pintor curvado sobre a sua tela e, atrás dele, um cavalheiro, grave, seco, hirto e engravatado de branco, tendo na mão o seu último folhetim. «Se a arte é nobre, a crítica é santa.» - «Quem disse isso?» - «A crítica!» Se ao artista cabe com tanta facilidade o bom papel, é porque o crítico é sem dúvida um crítico como há tantos.

Em matéria de meios e processos – das obras em si mesmas o público e o artista nada têm a aprender. Essas coisas aprendem-se no atelier, e o público só se preocupa com o resultado.

 

Creio sinceramente que a melhor crítica é a crítica divertida e poética; não esta, fria e algébrica que, a pretexto de explicar tudo, não tem ódio nem amor, e que voluntariamente se despoja de qualquer espécie de temperamento; mas sim – uma vez que um belo quadro é a natureza reflectida por um artista – aquela que consistirá nesse quadro reflectido por um espírito inteligente e sensível. Assim, a melhor recensão de um quadro poderá ser um soneto ou uma elegia.

Mas este género de crítica destina-se às colectâneas de poesia e aos leitores poéticos. Quanto à crítica propriamente dita, espero que os filósofos compreendam o que vou dizer: para ser justa, isto é, para ter a sua razão de ser, a crítica deve ser parcial, apaixonada, política, quero dizer, feita de um ponto de vista exclusivo, mas do ponto de vista que abre mais horizontes.

Exaltar a linha em detrimento de cor, ou a cor à custa da linha, é, sem dúvida, um ponto de vista; mas não é amplo nem justo, e denota uma grande ignorância dos destinos individuais.

Ignora-se em que dose a natureza misturou em cada espírito o gosto pela linha e o gosto pela cor, e através de que misteriosos processos ela opera tal fusão, cujo resultado é o quadro.

Assim, um ponto de vista mais amplo será o individualismo bem entendido: determinar ao artista a ingenuidade e a expressão sincera do seu temperamento, auxiliada por todos os meios que lhe são concedidos pelo seu ofício. Quem não tem temperamento não é digno de fazer quadros, e – como estamos cansados dos imitadores, e sobretudo dos eclécticos – deve entrar como operário ao serviço de um pintor com temperamento. É o que demonstrarei num dos últimos capítulos.

 

Agora munido de um critério seguro, critério esse colhido na natureza, o crítico deve cumprir com paixão o seu dever; porque, por ser crítico, nem por isso é menos homem, e a paixão aproxima os temperamentos similares e ergue a razão a novas alturas.

Disse algures Stendhal: «O pintor não é mais que moral construída!» Quer se entenda esta palavra moral num sentido mais ou menos liberal, pode dizer-se o mesmo de todas as artes. Como elas são sempre o belo expresso pelo sentimento, pela paixão e pela fantasia de cada um, isto é, a variedade na unidade, ou as faces diversas do absoluto – a cada instante a crítica atinge a metafísica.

Visto que cada século, cada povo teve a expressão da sua beleza e da sua moral, e se quisermos entender por romantismo a expressão mais recente e mais moderna da beleza, para o crítico sensato e apaixonado o grande artista será, por conseguinte, aquele que juntar à condição acima exigida a ingenuidade – tanto romantismo quanto possível.

 

Charles Baudelaire, in «A Invenção Da Modernidade (Sobre Arte, Literatura e Música)». Tradução de Pedro Tamen, Colecção Clássicos Relógio D’Água.

 

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