a dignidade da diferença
11 de Janeiro de 2016

Cada cabeça, sua sentença. Dos álbuns gravados por David Bowie ao longo da sua carreira, cada um escolherá os seus preferidos. Ziggy Stardust & The Spider From Mars, de 1972, será o mais popular e (sobre) valorizado. Os mais atentos poderão reparar como a substância musical não acompanhava a ousadia da imagem e poderia até ser considerada como bastante conservadora, sobretudo quando comparada com a obra inicial dos extraordinários Roxy Music. Se decorridos tantos anos, pouco mais sobressai em Ziggy Stardust que um convencional e sólido conjunto de canções de feição rock, encontro com o futuro Bowie só o teria verdadeiramente a partir de 1977, durante a estratosférica trilogia berlinense (Low, Heroes e Lodger), experimentando novas formas e novos sons, redefenindo as coordenadas de uma fatia considerável da música popular que se faria daí em diante. No entanto, concluída uma série de gravações arriscadas, algo excessivas e desequilibradas - não obstante esse louvável princípio de permanente mudança -, onde talvez tenha pecado por uma digestão apressada de vários géneros (uma escuta recente de Alladin Sane, por exemplo, revelou-se algo decepcionante), gravou, um ano antes, um austero, belíssimo e singular disco, Station to Station, espécie de ponte electrónica apontada para a fase mais criativa da sua carreira. Após uma pouco memorável passagem pelos anos oitenta, Bowie gravaria ainda, em 1995, um estranhíssimo, fascinante e magnífico Outside, que considero provavelmente o seu derradeiro trabalho a merecer entrada significativa no cânone. Trata-se, porém, de uma questão de gosto individual. Com efeito, Bowie construiu uma icónica imagem de camaleão da pop e essa representação dificilmente a conseguirão apagar da nossa memória…

 

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Station to Station (1976)

 

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Low (1977) 

 

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Heroes (1977)

 

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Lodger (1979)

 

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Outside (1995)  

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:21 link do post
27 de Dezembro de 2015

 

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The Apartments, «No Song, No Spell, No Madrigal»

 

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Camané, «Infinito Presente»

 

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Giuliano Carmignola, «Bach: Violin Concertos»

 

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Fred Hersch, «Solo»

 

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Julia Holter, «Have You in My Wilderness»

 

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Pavel Haas Quartet, «Smetana: String Quartets»

 

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Schlippenbach Trio, «Features»

 

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Shye Ben Tzur, Jonny Greenwood and The Rajasthan Express, «Junun»

 

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Richard Thompson, «Still»

 

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The Unthanks, «Mount the Air»

 

publicado por adignidadedadiferenca às 18:57 link do post
18 de Dezembro de 2015

O lendário quinteto de Miles Davis, constituído pelo próprio, e ainda por Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Willians em digressão europeia pela Europa durante o ano de 1967, na qual sobressaiu a acuidade melódica dos seus instrumentistas, sendo igualmente de louvar o seu entusiasmo e a sua paixão pelo ritmo, numa rigorosa e quase telepática comunicação musical, assaz reveladora da sua enorme capacidade de improvisação e composição de um consistente e vibrante edifício orquestral, desbravando novos terrenos para o jazz.

 

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«Naturally, it is at the tall end of the arc that one would except to find the music that captured Miles, Wayne, Herbie, Ron and Tony at the top of their game, challenging and supporting each other, taking changes in the performances that most other groups would not dream of doing publicity. The performances on this collection reveal precisely that. During a multiple-week European tour at the close of their last full year together, the group was sporting a fully integrated sound that felt refreshingly modern: spontaneous and unusual yet with the familiar passion for melody and rhythmic excitement that had always been primary elements in all that Miles David touched. That it took place in 1967, a pivotal year on so many levels, had more than a little to do with it»

Michael Cuscuna/Richard Seidel, 2011

 

Gingerbread Boy (Jimmy Health)

24 de Novembro de 2015

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O australiano Peter Milton Walsh, notável e raríssimo artesão de canções, capaz de uma concisão plena de textos e melodias com uma propensão minimalista para captar a centralidade das palavras, das emoções e da melodia perfeita, será provavelmente um dos mais injustamente ignorados músicos do planeta. Contudo, a visão estética e vivencial que habita o corpo das suas canções integra um universo musical do qual faz parte uma galeria de notáveis, amarguradas e melancólicas figuras da música popular, songwriters que preferem valorizar a dor, as feridas, o fracasso, o desespero ou a solidão inseparáveis da natureza humana e de quem fica sucessivamente amarrado às partidas do destino. Com efeito, a música dos Apartments chega a um fiel mas elementar núcleo de admiradores que talvez procure na serena amargura dos magníficos álbuns da banda – com uma capacidade de sedução, empatia e envolvimento assinaláveis - um significado que porventura o fará compreender e superar o afastamento, a angústia, a distância ou a perda que invariavelmente e a contragosto irão sobressair em inúmeras ocasiões da sua vida. A recente reedição da gravação das melancólicas Seven Songs (a convite da Radio France) é mais um belíssimo exemplo.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:11 link do post
18 de Outubro de 2015

 

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«June Tabor is one of our day’s most commanding and distinctive voices and interpreters of traditional and contemporary song. She has a voice that undoes the usual cultural and critical trammels that bind the beast called Folk. After all, folk music, like religion (as distinct from faith), has been bound and hogtied by idealism, literalism, pronouncements of heresy and ownership squabbles from the Enlightenment and Machine Age through to Modern Times. Like those of her finest fellow confederates and international fellow-travels in the genre, June’s accomplishments and fluidity of approach have created a body of Art with a capital A. But when all is said, done and sung, she is the personification of the singer and the song. Naturally, she is primarily seen as a “folksinger”, a “folk revivalist” or some title with “folk” in it because she has long operated in acoustic music contexts and because, more often than not, folk is used in its most journeyed catch-all sense of folk being whatever people want to be. First and foremost however, June Tabor is an extraordinary teller of tales. She may claim that is a love of the rhyme rather than tales from the stave that motivate her, but her marriage of meaning and music is nonpareil (…) she has repeatedly experimented in areas far removed from the “confines” in which she is generally pigeonholed of perceived to operate. (…) And that is, regardless of the musical genre, whenever you listen to June Tabor, she can never be mistaken for any other voice. It has nothing to do with the vocal register – her voice is unique – and everything to do with a voice that sings folksong, chanson and beyond.»

Ken Hunt, in Always (2004)

 

 All Our Trades Are Gone

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:38 link do post
18 de Agosto de 2015

 

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«A long with Randy Newman, Van Dyke Parks, Harry Nilsson and some others, David Ackles helped widen the definition of contemporary singer-songwriters in the late 1960s. This was a group of performers open to incorporation of many non-rock pop and theatrical influences into their work, and not based in folk-rock, like so many of the other early singer-songwriters were. Nor were they conventional rock or pop singers. Somehow, nonetheless, they recorded albums that were marketed to the rock audience. Of all the names mentioned above, David Ackles is certainly the most obscure, even if his quartet of albums won him a cult audience that included Elton John and Elvis Costello. David Ackles, his self-titled 1968 Elektra debut, was an unusual effort even by the label’s own high standards for introducing original talents. Ackles’ dark, brooding songs and low croon-rumble of a voice delivered cerebral lyrics painting the everyday adventures of misfits and their struggles to find meaning and spirituality. What could have been overblown in other hands was given a stately dignity by the stoicism, vacillating between determination and resignation, of Ackles’ vocals and observations. Far more than any of his subsequent albums, the record’s arrangements were tailored for rock ears, with ethereal psychedelic-tinged guitar and organ that weren’t too unlike those heard on other Elektra LPs of the time, such as Tim Buckley’s early releases.»

Richie Unterberger

 

 

11 de Julho de 2015

A propósito do próximo concerto de Caetano Veloso e Gilberto Gil no festival EDP Cool Jazz (31 de Julho), em Oeiras, na comemoração dos seus 50 anos de carreira, aproveito para vos recordar o que Caetano escreveu na edição do álbum Tropicália 2 (a pretexto da celebração dos 25 anos do movimento). Trata-se de uma bela síntese do espírito do tropicalismo e do seu magnífico canibalismo sonoro, que ambos, com o contributo e o testemunho de outros intervenientes, idealizaram e concretizaram. Uma música sem idade nem fronteiras, que devorou géneros, gerações e territórios, cujos alicerces estéticos assentaram na aplicação prática da velha máxima: act local, think global. Praticamente tudo o que vinha de fora era aceite e digerido. Dessa recolha renascia um soberbo e revitalizado corpo musical após uma cuidadosa e devidamente dissecada matéria musical, filtrada por uma singular perspectiva regional.

 

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«Milton Nascimento’s falsetto is one of the most beautiful sounds produced by the human species today on this earth. In Carlinhos Brown the dry wilderness goes seaside and the sea laps at the wilderness. Assis Valente didn’t deserve that spiritualist couple of biographers who insisted on treating his sexual life in the same obscurantist climate of dissimulation and subterfuge the was the rule in the time in which he lived and probably contributed to his being driven to suicide. 1955, avantgardes: in the National Park, the Villas Boas brothers; in the National Library, the Campos brothers; in National Radio, Angela Maria and Cauby Peixoto. Roberto Silva was the shadow of the bridge that leads from Orlando Silva and Ciro Monteiro to João Gilberto – an evolutionary line not present in the mind of the other great ones of the period, who only saw the American side of modernization: the Alfs and Alves and Farneys, the Cariocas… The Tao is an invention of man from the Orient. The baião is an invention of men from the dry wilderness. The Tao of the baião will always be a musical path trough universal history. (…) Caruso, Celestino, Lanza, Pavarotti, Domingo – they sound like rooster to me, fine for crowing but though to cook. You need a little Sumac or Callas to soften then up. When I saw Prince for the first time on American TV I thought: Miles Davis like this. (…) Amália Rodrigues, Ray Charles, Cameron de la Isla: lessons of inevitable singing. Everything in Michael Jackson is made of pop material: his great music, his great dancing, his minimal life. In our times only he carries the same weight of popism as Marylin or Elvis or Elizabeth Taylor. (…) Everything that wasn’t American in Raul Seixas was too baiano, too much from Bahia.»

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:39 link do post
01 de Junho de 2015

 

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Para Camané, como o próprio afirmou há dias à Blitz, o fado (ou a canção) é uma coisa séria. Daqui se retira que o seu espaço musical não é, positivamente, povoado de cantiguinhas. Conduzindo a máxima depuração sonora à máxima expressividade, o rigor interpretativo de Camané assimilou progressivamente a composição teatral de José Mário Branco - um dos maiores estetas da música portuguesa contemporânea – entrelaçando textos e melodias, numa escrita simultaneamente fina e austera, ampliando a riqueza e o significado das palavras de alguns dos maiores poetas e escritores de língua portuguesa. Não obstante a dificuldade em destacar temas num disco que prima pela sua unidade e pelo princípio de que «todo o cuidado é pouco», sobressai, ainda assim, o quase-murmúrio de Triste Sorte, o notável e delicioso swing de Ai Miriam, a gravidade de Chega-se a Este Ponto, a sedução de Quatro Facas ou a tocante solidão de Aqui Está-se Sossegado. A voz de Camané, como muito bem ilustra o documentário que acompanha o disco, vem «de dentro» e renova-se a cada instante, serena, vibrante. Não abdicando da acuidade melódica da viola de Carlos Manuel Proença, do fraseado e do inacreditável som da guitarra portuguesa de José Manuel Neto, ou da presença tão discreta quanto essencial de Carlos Bica - sublime trio de instrumentistas que o acompanha meticulosamente -, Camané atingiu, no seu mais recente álbum de originais, Infinito Presente, o cume da sua arte da contenção, configurando-se como brilhante contraponto aos excessivos malabarismos vocais que por aí habitam.

 

 

12 de Abril de 2015

 

Sem abdicar da matriz folk e maioritariamente acústica, eis um belo exemplo da mais recente (e óptima) Laura Marling eléctrica. Do novíssimo Short Movie... Depois do anterior e extraordinário Once I Was An Eagle, Marling lança um disco diferente, prosseguindo uma carreira muito consistente na qual o seu talento precoce permanece (praticamente) imaculado...

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:33 link do post
29 de Março de 2015

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Rara e magnífica associação de música e poesia, Entre Nós e as Palavras, obra gravada em 1995 pelos músicos que constituem o grupo Os Poetas (alguns deles vieram dos Madredeus originais), trouxe para a luz do dia a soberania das vozes e das palavras de verdadeiros poetas: António Franco Alexandre, Al Berto, Mário Cesariny, Herberto Helder e Luísa Neto Jorge. Se provavelmente escapará a poucos que cada um dos poemas já possui naturalmente a sua dinâmica, o seu próprio ritmo, andamento, espaço ou respiração, o grupo encontra neste exercício de articulação com uma música de câmara minimalista, de bela e delicada textura, com as suas pausas e vibrações, os seus compassos, andamentos ou repetições, pretexto para aprofundar o significado das palavras, ampliar a sua dimensão, conferir uma ajustada teatralidade e intensidade, bem como partilhar com o seu semelhante as alucinações e fragilidades, o novelo de fúria e inquietação, a magia e a solidão dos poetas. Um disco único e magnífico, onde sobressai simultaneamente uma diversidade e uma unidade estilística, enriquecendo, por um lado, o vocabulário dos seus autores e evitando, por outro, que este se disperse desnecessariamente.

 

 

02 de Fevereiro de 2015

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Após um primeiro passo rumo à mudança de orientação estética dado com o surpreendente White Chalk, Polly Jean Harvey investe novamente, no opus seguinte - Let England Shake, publicado em 2010 -, num distanciamento progressivo da herança descarnada do punk e do blues que alimentou o capítulo inicial do seu já assinalável percurso musical, o qual atinge a sua máxima expressão na teatral dramatização e na sedutora imoralidade do soberbo To Bring You My Love. Elaborado num contexto de enganador apaziguamento sonoro e reunindo, com uma precisão notável, texto, ritmo e melodia, Let England Shake serve ainda de pretexto para PJ Harvey, em doze envinagrados episódios, fazer a ponte entre o desmedido morticínio da Primeira Guerra Mundial e a hipocrisia política do mundo contemporâneo, nele sobressaindo as extremas elegância, agilidade e concisão da inventiva estrutura musical, desenvolvendo uma combinação inesperada e admirável com a amargura e o terror das magníficas e radicais súplicas verbais. Um disco extraordinário, imprescindível em qualquer discoteca básica.

All and Everyone

01 de Janeiro de 2015

E, por fim, aqui fica registada a escolha dos álbuns mais relevantes de 2014 em função dos seus traços de personalidade que escapam ao modelo copista que infecta a quase totalidade da produção universal. Contudo, esta lista poderia ser substituída sem significativa desvalorização patrimonial pelas mais recentes publicações de Clifford Brown, Anna Calvi, Capicua, Pablo Heras-Casado, Leonidas Kavakos & Yuja Wang, Hamilton Leithauser, Paco de Lucia, The Phantom Band, Real Combo Lisbonense, Marc Ribot Trio, Tune Yards ou Suzanne Vega. E ainda conseguiria acrescentar um ou dois que ficarão, no entanto, injustamente esquecidos.

 

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Ambrose Akinmusire

 

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Tony Allen

 

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Cecilia Bartoli, Muhai Tang

 

 

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The Delines

 

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Bob Dylan and The Band

 

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FKA twigs

 

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Jerusalem Quartet

 

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Amélia Muge

 

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Ricardo Rocha

 

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St. Vincent

 

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Tre Voci

 

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Mark Turner Quartet

publicado por adignidadedadiferenca às 12:07 link do post
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