a dignidade da diferença
11 de Novembro de 2012

 

 

«Costumo regressar eternamente ao Eterno Retorno; nestas linhas vou tentar (com o socorro de algumas ilustrações históricas) definir os seus modos fundamentais. O primeiro tem sido imputado a Platão. Este, no trigésimo nono parágrafo do Timeu, afirma que os sete planetas, equilibradas as suas diferentes velocidades, regressarão ao ponto inicial de partida: revolução que constitui o ano perfeito. (…) Algum astrólogo que não tinha examinado em vão o Timeu formulou este irrepreensível argumento: se os períodos planetários são cíclicos, também a História Universal o será; ao cabo de cada ano platónico renascerão os mesmos indivíduos e cumprirão o mesmo destino. (…) Neste primeiro modo de conceber o eterno retorno, o argumento é astrológico. O segundo está vinculado à glória de Nietzsche, o seu mais patético inventor ou divulgador. Justifica-o um princípio algébrico: a observação de que um número n de objetos – átomos na hipótese de Le Bon, forças na de Nietzsche, corpos simples na do comunista Blanqui – é incapaz de um número infinito de variações. Das três doutrinas que enumerei, a mais racional é a de Blanqui. (…) Desta série perpétua de histórias universais idênticas observa Bertrand Russell: Muitos escritores são de opinião que a História é cíclica, que o presente estado do mundo, com os seus pormenores mais ínfimos, mais tarde ou mais cedo voltará. Como formulam esta hipótese? (…) A hipótese de a História ser cíclica pode enunciar-se desta maneira: formemos o conjunto de todas as circunstâncias contemporâneas de uma determinada circunstância; em certos casos todo o conjunto se antecede a si mesmo.

 

 

Chego ao terceiro modo de interpretar as eternas repetições: o menos pavoroso e melodramático, mas também o único imaginável. Quero dizer, a conceção de ciclos similares, não idênticos. É impossível formar o catálogo infinito de autoridades (…) De tal profusão de testemunhos basta-me copiar um, de Marco Aurélio: Mesmo que os anos da tua vida fossem três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida senão a que vive agora nem vive outra senão a que perde. (…) Lembra-te de que todas as coisas giram e voltam a girar pelas mesmas órbitas e que para o espectador é igual vê-la um século ou dois ou infinitamente. (…) Se lermos com alguma seriedade as linhas anteriores (…) veremos que declaram, ou pressupõem, duas ideias. A primeira: negar a realidade do passado e do futuro. Enuncia-a esta passagem de Schopenhauer: A forma de aparição da vontade é só o presente, não o passado nem o futuro: estes só existem para o conceito e pelo encadeamento da consciência, submetida ao princípio da razão. Ninguém viveu no passado, ninguém viverá no porvir, o presente é a forma de toda a vida. (…) A segunda: negar, como o Eclesiastes, qualquer novidade. A conjetura de que todas as experiências do Homem são (de qualquer modo) análogas, pode à primeira vista parecer um simples empobrecimento do mundo.»

História da Eternidade, de Jorge Luis Borges

14 de Agosto de 2012

 

 

«O tema deste livro é, em primeiro lugar, a história das noites arrancadas à sucessão normal do trabalho e do descanso: interrupção impercetível, inofensiva, dir-se-á, do curso normal das coisas, onde se prepara, se sonha, se vive já o impossível, a suspensão da ancestral hierarquia que subordina aqueles que estão destinados a trabalhar com as mãos aos que receberam o privilégio do pensamento. Noites de estudo, noites de embriaguez. Dias de trabalho prolongados para ouvir a palavra dos apóstolos ou a lição dos educadores do povo, para aprender, sonhar, debater ou escrever. Manhãs de domingo antecipadas para irmos junto para o campo surpreender o nascer do dia. Dessas loucuras, alguns sair-se-ão bem: acabarão empresários ou senadores vitalícios – não necessariamente traidores. Outros morrerão delas: suicídio das aspirações impossíveis, definhamento das revoluções assassinadas, tísica dos exílios nas brumas do Norte, pestes desse Egito onde se procurava a Mulher-Messias, malária do Texas onde se ia construir Icária. A maioria passará a vida nesse anonimato, de onde por vezes emerge o nome de um poeta operário ou do dirigente de uma greve, do organizador de uma efémera associação ou do redator de um jornal logo desaparecido.»

Jacques Rancière in A noite dos proletários (prólogo)

publicado por adignidadedadiferenca às 00:28 link do post
30 de Junho de 2012

 

 

«Em suma, a necessidade prática de Estados fortes e governos intervencionistas é indiscutível. Mas ninguém está a ‘repensar’ o Estado. Continua a haver uma grande relutância em defender o setor público com base no interesse coletivo ou no princípio. É impressionante que numa série de eleições europeias a seguir a uma desintegração financeira os partidos sociais-democratas tenham tido invariavelmente maus resultados; apesar da derrocada do mercado, eles revelaram-se manifestamente incapazes de estar à altura da ocasião. Se quiser ser novamente levada a sério, a esquerda tem de encontrar uma voz. Há imenso com que estar zangado: desigualdades crescentes de riqueza e oportunidade; injustiças de classe e casta; exploração económica interna e no estrangeiro; corrupção, dinheiro e privilégio a obstruírem as artérias da democracia. Mas já não bastará identificar os defeitos do ‘sistema’ e bater em retirada, ao género de Pilatos: indiferente às consequências. O exibicionismo retórico irresponsável das décadas passadas não foi muito útil à esquerda. (…) Toda a mudança é perturbadora. Vimos que o espectro do terrorismo é suficiente para lançar na desordem democracias estáveis. A mudança climática irá ter consequências ainda mais dramáticas. Muitas pessoas voltarão a depender dos recursos do Estado. Quererão que os seus líderes e representantes políticos os protejam: uma vez mais as sociedades abertas serão pressionadas a fechar-se sobre si, sacrificando a liberdade pela ‘segurança’. A escolha já não será entre Estado e mercado, mas entre dois tipos de Estado. Cabe-nos portanto reimaginar o papel do governo. Se não o fizermos, outros o farão por nós.»

Tony Judt, Um Tratado Sobre os Nossos Atuais Descontentamentos

 

14 de Maio de 2012

«Não é um livro que pretenda ser perfeitamente equidistante de ambos os lados. Eu vivi durante vários anos sob a ditadura de Franco, pelo que não posso desconhecer a repressão sobre os trabalhadores e os estudantes, a censura e as prisões. Apesar do que é reivindicado pelos apoiantes de Franco, não creio que Espanha tenha retirado qualquer benefício do pronunciamento militar de 1936 e da vitória nacionalista em 1939. Os muitos anos que dediquei ao estudo da Espanha anterior e contemporânea à década de 30 do século XX convenceram-me de que, apesar dos muitos erros cometidos, a República espanhola foi uma tentativa para proporcionar uma melhor forma de vida aos membros mais humildes de uma sociedade repressiva. É neste sentido que aqui deixo expressa a minha muito pouca simpatia pela direita espanhola, mas penso que serei compreendido.»

 

 

Paul Preston, professor de História Espanhola Contemporânea na Universidade Príncipe das Astúrias, diretor do Cañada Blanch Centre for Contemporary Spanish Studies da London School of Economics e membro da Academia Britânica, é autor, entre outras, das seguintes obras: The Coming of the Spanish War, The Triumph of Democracy in Spain, The Politics of Revenge: Fascism and the Military in Twentieth-Century Spain e Franco: A Biography.

12 de Fevereiro de 2011

 

Sussurros – A vida privada na Rússia de Estaline, magnífico trabalho do historiador Orlando Figes, baseado numa aturada investigação dos arquivos de diários de gente comum, assim como nos relatos e testemunhos dos sobreviventes, retrata, numa linguagem física e pungente, o sofrimento infligido ao povo soviético pelo regime opressivo de Estaline, a sua perseguição obsessiva e cega aos «inimigos do povo», e revela até onde é capaz de chegar o requinte da crueldade e as provas de coragem de quem sofre. Uma obra inesquecível. Por seu lado, Andrei Béli, nascido em 1880, foi um dos maiores escritores do princípio do século XX. Representante fulcral da segunda geração simbolista russa, tornou-se também um dos precursores do futurismo dos anos 20. A substância de Petersburgo reside na questão da identidade nacional e Béli explora no romance uma linguagem metafórica, sinfónica, individualista e profundamente original. Uma obra-prima admirável e essencial.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 13:37 link do post
23 de Setembro de 2010

 

Com o começo das aulas do 2.º ano na Faculdade de Direito da Universidade Lusíada de Lisboa, pouco tempo me vai sobrar para além do estudo aprofundado das cadeiras de Direito da Actividade Administrativa, Organização Judiciária, Teoria Geral do Negócio Jurídico, Direitos Fundamentais (uma coisa que anda muito esquecida por aí…) e Direito Internacional Público. O blog irá, evidentemente, sofrer com essa situação. Daqui em diante, pouco mais farei do que pequenas citações de matérias que julgue importantes ou, no mínimo, interessantes, e, eventualmente, duas ou três chamadas de atenção para obras das mais diversas formas de expressão artística de que goste muito. 

 

Por conseguinte, deixo-vos, para finalizar, duas belas sugestões; o celebrado «A Segunda Guerra Mundial», obra colossal de Martin Gilbert, historiador inglês de dimensão superior, portador de uma escrita hábil, fluente e de grande fôlego narrativo, e «If You Leave It Alone», assinado em 2009, obra dos novíssimos - para mim, que acabei de os conhecer – e simultaneamente velhinhos (com dez anos de existência) The Wave Pictures, a mais conseguida tradução do espírito inicial dos Violent Femmes e da estética artesanal dos Cake, assente em rarefeitas mas cativantes melodias que uma subtil secção de metais transporta para uma dimensão superior, as quais actuam como pano de fundo para uma genuína, incisiva e talentosa escrita pop.

Quanto a vós, estimados leitores, regulares ou de ocasião, fiquem bem e sobrevivam neste país em crise…

 

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