a dignidade da diferença
10 de Fevereiro de 2013

 

 

«Para esta interpretação em particular, a fé cega na capacidade do Estado para solucionar as contradições do sistema é tão forte como a que encontramos na posição diametralmente oposta: a convicção religiosa da perspetiva neoliberal de que o mercado tudo pode. Ambas cometem erro semelhante, ainda que oposto: o fundamentalismo religioso da crença numa “mão” mágica, todo-poderosa (ou o mercado ou o Estado). Não existe qualquer motivo teórico, nenhuma justificação transcendental ou metafísica suficientes para apoiar qualquer dessas convicções que não seja um sentimento religioso, uma crença, seja ela muito profunda ou nem tanto. Quando nem tanto, em ambos os casos, o sistema possui mecanismos para fazer dos seus patrocinadores porta-vozes loquazes da proposta em causa. O dinheiro tudo compra (ou quase)! Poderíamos mesmo vir a aceitar que a proposta neoliberal possui algo mais que os elementos teóricos para sustentar a sua posição.»

Reinaldo A. Carcanholo, in Quem Paga o Estado Social em Portugal? (coord. Raquel Varela)

13 de Janeiro de 2013

 

 

Já tive a oportunidade de destacar a importância do livro escrito pelo psicólogo Daniel Kahneman, Pensar, Depressa e Devagar, o qual explica admiravelmente o método de funcionamento dos dois sistemas que fixam o nosso modo de pensar e explica o seu método de funcionamento: enquanto o primeiro é intuitivo e emocional, o segundo é menos célere, mais lógico e ponderado. Mas a questão que hoje trago à colação não se relaciona com aqueles sistemas tão determinantes para as nossas decisões. No decorrer da análise que modela o fio condutor da obra, o seu autor – de forma não intencional - fornece um exemplo magnífico do significado do processo de ajustamento que a Troika nos quer impor com a aprovação dos nossos governantes; muito simplificado, é certo, mas assim percebem todos. Querem a demonstração? Passo a citar: «Uma pequena loja de fotocópias tem um empregado que lá trabalha há seis meses e ganha 9 dólares por hora. O negócio continua a ser satisfatório, mas houve uma fábrica na zona que fechou e o desemprego aumentou. Outras lojas semelhantes contrataram agora empregados de confiança a 7 dólares à hora para desempenharem tarefas semelhantes às realizadas pelo empregado da loja de fotocópias. O proprietário da loja reduz o salário do empregado para 7 dólares.» Plano de ajustamento é isto.

05 de Dezembro de 2012

 

 

A designação BRICS surge em 2001, cuja autoria coube ao economista inglês Jim O’Neill, para indicar quatro países com economias emergentes: a China, o Brasil, a Índia e a Rússia. Mais tarde, é incluída também a África do Sul. No respetivo relatório, o analista previu que nos próximos cinquenta anos aqueles países ocuparão o lugar cimeiro no ranking das maiores economias mundiais. Contudo, não estamos perante um bloco económico como, por exemplo, a NAFTA ou o Mercosul, ou político-económico como a União Europeia. Trata-se de um conceito associado aos grandes mercados emergentes que não define o modelo económico ou a situação política e social dos países que o integram. O BRICS não corresponde à imagem de um bloco coeso na medida em que não existe no seu seio um conjunto homogéneo de políticas comerciais, financeiras ou de investimento. Cada um dos países que o compõem não procura criar políticas comuns com os seus parceiros emergentes, na medida em que as políticas nacionais por si adotadas não são propriamente desejadas pelos restantes Estados. O conceito que está por trás da designação BRICS relaciona-se com os grandes mercados emergentes e nada nos diz sobre o modelo económico adotado pelos países que fazem parte do grupo, nem sequer sobre a situação política e social de cada um deles. Passemos a analisá-los melhor um a um.

 

 

Típica criação colonial, com uma lenta constituição de uma economia bem-sucedida, o Brasil teve um Estado unificado antes de ter uma economia integrada. Cativo de regimes semi-capitalistas anos a fio, o país transformou-se quando libertou as suas energias criadoras fruto da abertura económica e da liberalização comercial. Goza atualmente uma paz regional e tem um bom posicionamento geopolítico capaz de lhe trazer vantagens a nível regional como internacional. O seu mercado oferece, segundo os especialistas, boas oportunidades de investimento. A sua economia, porém, também sofre de alguma vulnerabilidade pois o tão elogiado crescimento económico parece abrandar e a inflação permanece ainda elevada. É indiscutível que o Brasil tem pela frente a oportunidade de aproveitar a vantagem demográfica no que diz respeito à relação entre a população ativa e a componente económica. Mas teme-se justificadamente que esta seja uma oportunidade perdida devido sobretudo à baixa qualificação técnica e educacional da sua população, o que condiciona certamente os ganhos de produtividade. A Rússia, amputada de territórios, de recursos naturais e humanos significativos, não parece capaz de recuperar a posição estratégica e política que já deteve e cuja expansão geopolítica atingiu o seu cume no final dos anos 70. Afundada no caos destruidor da sua economia socialista e dominada pela força carismática dos seus líderes de então, eficientes na organização partidária mas incapazes de perceber o modo de funcionamento de uma moderna economia de mercado, a Rússia teve uma transição para o capitalismo bastante errática. Embora possuindo grande arsenal nuclear e tendo uma capacidade militar não negligenciável, não está em condições de desafiar os gigantes da economia mundial, pois depende demasiado de recursos finitos e a sua demografia está em declínio. Conseguindo romper com a economia planificada e com o protecionismo estatal exagerado, a Índia domina com muita competência os serviços eletrónicos que oferece de forma assaz competitiva, mas continua com graves problemas para resolver. Como conseguirá, no futuro, absorver, na economia de mercado, milhões de camponeses que ainda permanecem numa economia de base ancestral? Conhecida pela diversidade de culturas, idiomas e crenças religiosas, e libertando-se finalmente de décadas vividas num sistema de apartheid, i.e., de deplorável segregação social, a África do Sul ainda não é reconhecida por muitos investidores como fazendo parte dos países integrados no BRICS. Mas apresenta um enorme potencial, na medida em que a sua economia está em pleno desenvolvimento, contrastando com o abrandamento das maiores economias do mundo. Em bom rigor, a China parece ser, dos países que compõem o BRICS, o único com capacidade real para ocupar uma posição dominante no plano económico e político à escala mundial. Demonstrou uma enorme ambição em recuperar rapidamente as décadas perdidas de socialismo doentio, adaptando-se com celeridade assinalável aos fundamentos das modernas economias de mercado, fruto da aprendizagem obtida junto dos líderes científicos e tecnológicos do capitalismo mais avançado, copiando e moldando o know-how ocidental através do fabrico dos mesmos produtos que se distinguem apenas pelos desenhos e marcas próprias. Lamenta-se, contudo, que ainda os seus cidadãos ainda estejam muito longe de igualar os níveis de bem-estar individual das populações ocidentais das países capitalistas mais desenvolvidos, dada a circunstância daqueles estarem sob o jugo e a alçada de um regime autoritário que só liberalizou a economia e esqueceu-se do resto.

 

 

Quanto à posição económica e à estratégia geopolítica, estima-se que a economia do grupo representará num futuro relativamente próximo 1/5 da economia mundial. Os países que compõem o BRICS não estão dispostos a representar o papel de meros espectadores nas grandes decisões mundiais. A sua intenção é ter uma intervenção mais direta na constituição de uma nova arquitetura e de regras internacionais em matéria financeira que proporcionem a formação de uma nova ordem mundial mais democrática. Contam não só com a dimensão do território e da população, mas também com o crescimento das suas economias e com a capacidade militar e energética que os colocam numa posição privilegiada entre os interlocutores mais importantes a nível internacional, dando-lhes ainda capacidade para moldar o futuro de outros países em desenvolvimento. Porém, as relações políticas e económicas internacionais assentam sobretudo na troca e produção de ideias e conceitos sobre a forma de organização político-económica do mundo contemporâneo. E, nesse sentido, não obstante o crescimento económico dos países que compõem o BRICS, mantém-se o domínio intelectual do mundo ocidental desenvolvido. O BRICS não se distingue por seguir um rumo económico autónomo e nem sequer funciona como um bloco coeso, na medida em que não possuem um conjunto homogéneo de políticas no plano económico, financeiro e de investimento. Sendo verdade que o BRICS representa um fator positivo no domínio da economia mundial, ainda é muito cedo para defender que, àquela escala, o sejam igualmente no plano da geopolítica, sobretudo por que ainda está por demonstrar que tenham tomado ações decisivas para tornar as suas governações mais democráticas e respeitadoras da dignidade humana e dos princípios e valores fundadores de um mundo evoluído e civilizado. Se deste estudo resulta que será provavelmente a China o único dos países que compõem o BRICS a reunir as condições necessárias para, futuramente, ocupar uma posição de liderança geoestratégica nos planos político e económico, ainda assim, não deixa de ser perturbador verificar que o oriente (do qual também faz parte outro dos países emergentes, i.e., a Índia) não hesita em trocar a identidade pela liderança, abdicando da sua tradicional visão espiritual da vida e da sua perceção transcendente da história em prol de uma visão que olha para o mundo contemporâneo não como uma humanidade comum, mas apenas como um único mercado.

14 de Abril de 2012

 

 

«A outra perversidade está associada a uma propositada amnésia da História, das Histórias coletivas e das histórias particulares. Tal propósito resulta na ostracização de todo o universo da administração pública e dos serviços públicos que são diabolizados por este discurso – o que, para além de ser política e socialmente injusto, revela, da parte dos atuais governantes, uma enorme ingratidão. Não foram a maioria deles nascidos e cuidados nos hospitais públicos, educados nas escolas e universidades públicas, não lhes foi possível empregarem-se na administração pública? Imagino o primeiro-ministro e o ministro-adjunto a entreterem-se com a sua própria formação musical assistindo a programas televisivos como o Passeio dos Alegres, do Júlio Isidro, nos Verãos das suas adolescências. Porquê agora esta obsessão, sem uma razão, para já, convincente, sem um argumento sólido, de privatizar parte da RTP? Contrariamente ao economismo e à sua arrogância, uma perspetiva cultural de abordagem à atualidade não abdica de insistir na necessidade da justiça e da existência de homens justos que, seguindo a ética aristotélica da justiça e do bem maior dos imperativos éticos kantianos, reclamam que a finalidade da ação é o homem e o seu bem em si, e não o privilégio de alguns, do qual se desculpam por via do assistencialismo, a forma mais discriminatória de distinguir os incluídos dos excluídos.»

António Pinto Ribeiro, Ípsilon, suplemento do Público de 13 de abril de 2012.

07 de Fevereiro de 2012

 

Ou temos Estado-providência ou o Estado mínimo. Ou se vive do crédito para financiar os direitos adquiridos ou falta a assistência social e ficamos entregues ao sabor dos ventos e marés da iniciativa privada. Ou nos acomodamos ao Estado paternalista ou somos pisados pela liberalização dos mercados, esquecendo, quem nos governa, levianamente, a estrutura do tecido produtivo existente privatizando tudo sem qualquer critério. Uns, parasitas, valem-se do eterno recurso ao crédito para financiar a economia, alojar os amigos e, vá lá, melhorar as condições de vida da população, mas esquecendo-se que o filão um dia acaba; os outros, loucos, alimentam-se de uma crença irracional nas supostas virtudes do neoliberalismo económico como elemento vital para o bem-estar social (não nos poupando, sequer, à triste e surreal figura do nosso ministro das finanças a pedir aos portugueses um aumento da poupança depois do governo lhes esvaziar os bolsos com mais e mais impostos, com mais e mais sacrifícios). Esquecemos o despesismo incontrolado e a falência técnica do Estado Social, ignoramos o pesadelo da ganância do capitalismo selvagem que aumenta pornograficamente e cada vez mais o fosso entre os mais ricos e os mais pobres. Neste mundo é assim. Não nos dão qualquer hipótese: ou oito ou oitenta. Ninguém aprende com os erros do passado. Será assim tão difícil encontrar um ponto de equilíbrio que junte num só conceito as virtudes dos dois modelos económico-sociais eliminando a maior parte dos seus defeitos, i.e., não restringir para além do razoável a livre iniciativa privada e possibilitar uma repartição da riqueza mais justa e proporcional ao esforço de cada um?
publicado por adignidadedadiferenca às 23:49 link do post
21 de Novembro de 2011

 

O outono quente do Dragão...
 

A crescente complexidade do funcionamento do capitalismo financeiro, agudizada pela preocupante demonstração de incapacidade humana para compreender todas as fases do seu processamento e adoptar uma estratégia para ultrapassar as suas gravíssimas consequências, levou ao completo desnorte dos mercados financeiros e abriu brechas profundas na estrutura económica e política a nível mundial. E enquanto isso acontece, a União Europeia, amarrada à sua política económica e monetária, ainda procura perceber até que ponto os efeitos da globalização - a progressão económica de países emergentes como o Brasil, a China ou a Índia (resta saber se acompanhada por uma melhoria concreta das condições de vida da sua população), a qual obriga a um reequilíbrio estrutural que tornará inevitavelmente mais pobre o futuro dos países ocidentais e mais precário o seu modelo social democrático – farão diminuir a influência, a todos os níveis, do velho continente e empobrecer a sua população. A preocupação perante o esgotamento e os abusos da democracia representativa é geral, a revolta perante as medidas de austeridade começa a dar sinais visíveis nalguns países – com a Grécia à cabeça -, mas até à data Portugal mantém-se como uma honrosa excepção. Como diria o Sr. Kröger, aqui só há gente boa. Gente boa, o caraças! Aguentamos civilizadamente o corte nos salários, o aumento do desemprego, a irresponsabilidade política e criminal, o estado calamitoso da Justiça; até o desaparecimento dos subsídios de férias e de natal. Mas perder um jogo de futebol com a Académica é que não pode ser. Aí temos que dizer basta! Suportamos o neoliberalismo do Pedro Steps Rabbit e a folha de cálculo do Sr. Gaspar. O Vítor Pereira, não! Como sempre, aí estamos nós na vanguarda da contestação social…

02 de Setembro de 2011

 

As últimas semanas serviram para recolocar a polémica da cobrança de impostos na ordem do dia. A tributação sobre as grandes fortunas ou o regresso do antigo Imposto Sucessório, a incidir sobre as heranças e as doações, serviram para neste país as diferentes partes na contenda se digladiarem e se ofenderam mais uma vez. Regressou a velha máxima «os ricos que paguem a crise», os mais abastados quase nos convenceram que nunca foram ricos mas apenas trabalhadores, e que a sua preocupação (altruísta) sempre foi apenas a de criar emprego e essa coisa da riqueza veio por acréscimo e até é, no fundo, uma grande chatice. Mas tornamos a insistir na mesma tecla: o que não ficaria mal seria ricos, menos ricos, pobres ou remediados evitarem esta tendência vergonhosa para a ofensa, o insulto e o desprezo mútuos numa clara demonstração de como não aprenderam a viver em sociedade e não percebem a importância que ambos têm numa comunidade. Precisa-se de mais seriedade. Também não nos parece absolutamente necessária a criação de um imposto que incida sobre as maiores fortunas para tornar o nosso sistema fiscal mais justo e equilibrado, parece-nos suficiente que se equacione e reajuste os impostos já existentes, sobretudo na disparidade existente entre as taxas aplicadas aos rendimentos sobre o trabalho e aos rendimentos de capitais, e que se medite sobre as diferentes concepções de incrementos patrimoniais; reconhecemos, no entanto, que este não é um problema exclusivo deste governo, dada a sua dimensão universal, a qual resulta da própria natureza do sistema capitalista. A tributação sobre as heranças não deixa de ser um problema igualmente complexo.

 

 

O facto de discordarmos do arco de razões apresentado pelo CDS – que escusava, porém, de recorrer às velhas frases de efeito fácil: já não há pachorra, por exemplo, para a pequena pérola «a morte não pode ser um facto tributário» – não nos impede de reconhecer que o mesmo assenta numa ideia muito própria de família que o partido procura defender, entendendo, por força desse raciocínio, que os bens herdados não devem ser tributados por essa transmissão, dado que aqueles permanecem na mesma esfera jurídica (a da família) e já foram sujeitos a tributação anteriormente. Defendemos ainda assim, apesar da consistência daqueles argumentos, que será algo injusto alguém receber gratuitamente determinado património sem que daí resulte qualquer contribuição tributária adicional correspondente àquele acréscimo. Mais preocupante, apesar de algumas medidas acertadas e da natural e saudável atenção dada à despesa pública, a qual tem obviamente que estancar, julgamos ser a ausência de respostas para o agravamento das condições de vida dos desempregados – os dispensados dos organismos do Estado e os despedidos das empresas particulares. Facilitam-se os despedimentos para dar emprego aos jovens e dispensam-se os funcionários públicos para reduzir o défice. O governo só conta metade da história e a situação precária em que ficam estes novos desmobilizados não parece incomodá-lo, dado que revela uma angustiante inércia e não procura, aparentemente, uma solução. Contra o que nos diz a História sobre o acréscimo das desigualdades sociais resultantes do neo-liberalismo, a ingenuidade do nosso primeiro-ministro acredita cegamente nas suas virtudes doutrinárias para combater a crise e julga que o resto se faz com a humilhante caridadezinha (à qual seria preferível mil vezes o princípio da universalidade dos serviços do Estado). Por outro lado, a generosidade do Estado social excessivamente paternalista levou-nos a um beco (quase) sem saída, designadamente por causa do crescendo incontrolável do défice público. Não haverá forma de encontrar um ponto de equilíbrio?

22 de Junho de 2011

 

Temos desde há muito formada a opinião que vai no sentido de considerar, atendendo às actuais circunstâncias, a filosofia, enquanto centro de ideias e de reflexão do mundo contemporâneo, algo adormecida ou mesmo cristalizada. Temos vindo a reparar, com alguma apreensão, que a filosofia tem andado recentemente desligada dos problemas concretos que a sociedade nos coloca, já não os discute com a mesma acuidade, veemência e diversidade com que o fazia desde a Grécia Antiga. Devemos confessar que não temos quaisquer ilusões sobre o mundo em que vivemos, e, na verdade, nunca nos prometeram que iríamos viver num belo mar de rosas, mas, ainda assim, pensamos que um pouco de filosofia no meio dos centros (quase deixava escapar antros) de decisão política ou económica era capaz de não ser má ideia. O mundo, pelo menos, não seria pior. E sabe melhor quando sabemos que a opinião é, em traços gerais, partilhada. Aqui fica o registo.

 

 

«Ter uma formação elementar em filosofia é importante porque nos ensina a pensar melhor sobre problemas de tal modo complexos que a tentação é desistir de tentar resolvê-los. Quem tiver não apenas plena consciência de que muitos seres humanos não desistem de pensar quando os problemas são muito complexos, mas tiver também uma ideia precisa, ainda que elementar, de como se pensa sobre esses problemas, terá ganho, se não autonomia intelectual, pelo menos a possibilidade de a obter. Assim, a importância pública de uma formação, ainda que elementar, em filosofia é a possibilidade de ganhar autonomia para pensar por si, com rigor, em problemas difíceis. Queremos melhores decisões empresariais, políticas, sociais, económicas, mas quando essas decisões não vêm nos livros estrangeiros, ficamos sem saber como proceder, envolvendo-nos em pseudodiscussões plenas de lugares comuns, com muita retórica e pouca substância.»

 

Desidério Murcho, «Filosofia em Directo»

publicado por adignidadedadiferenca às 00:48 link do post
07 de Maio de 2011

 

Parcerias Público-Privadas (PPP), o paradigma da velha máxima: o Estado assume todos os riscos, os privados ficam com os lucros. Não há quem trave a fundo mais esta pouca-vergonha nacional? Não por acaso, cada vez encontramos mais razões para não sentir um especial orgulho pelo facto de termos nascido aqui; um sentimento que Sérgio Godinho, num momento de notável inspiração, esclareceu no seu magnífico disco de estreia, Os Sobreviventes (1971): «Vim / ao mundo por acaso / em Portugal, não tenho pátria / sou sozinho e sou da cama dos meus pais». Fiquem, a propósito, com este vídeo simples, mas exemplar na forma como ajuda a compreender algumas coisas. Nesta matéria, a música é outra...

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:50 link do post
04 de Maio de 2011

 

 

Os economistas norte-americanos Paul Krugman e Joseph Stiglitz – ambos já receberam o Prémio Nobel da Economia – criticam asperamente os planos de austeridade preconizados pelos países da União Europeia, os quais, segundo eles, vão afectar profunda e negativamente as respectivas economias. A explicação é muito simples: para Stiglitz, as medidas tomadas são excessivas e irão provocar um esperado travão na economia europeia. Segundo Krugman, haveria, em primeiro lugar, que dar lugar à criação de emprego, e, posteriormente, então sim, tomar as medidas adequadas para reduzir o défice. Os cortes na despesa do Estado e os aumentos tributários condicionarão ainda mais as economias, aumentando o desemprego. Ora, à medida que há um decrescimento económico, a poupança conseguida com a redução da despesa é parcialmente anulada com a redução das receitas. As medidas tomadas são, na óptica daqueles senhores, muito auto-derrotistas, os cortes públicos e o aumento das taxas de juro irão afectar negativamente as economias dos Estados-Membros da União Europeia. Agora que parece haver acordo com o FMI, o BCE e a Comissão Europeia, não fica mal reparar nesta perspectiva diferente e, aparentemente, mais ousada, de enfrentar os problemas. De qualquer forma, adoptando uma ou outra das perspectivas, não se sai desta crise sem uma mudança profunda de mentalidades. Pois bem, essa mudança é  não só a mais difícil de fazer, como a que está ainda por fazer. E, nessa matéria, não há Troika que nos salve…

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:08 link do post
14 de Janeiro de 2011

 

 

Notícia do Público de hoje: «Custo extra com a dívida vai consumir poupança com corte dos salários». E prossegue «Portugal vai pagar mais 808 milhões de euros do que previa o Orçamento com os juros da dívida. Situação está a tornar-se insustentável, avisam os analistas». Seguem-se os números, os gráficos, os comentários dos entendidos na matéria, os estudos. Mas as conclusões levam a um único e desanimador resultado: a situação económica é insustentável, a social começa a ser intolerável, e não há, aparentemente, saída visível para a crise. Por conseguinte, vem aí mais do mesmo: o refazer das contas pelos mesmos incompetentes de sempre (os do passado e os actuais), o crescimento previsível da taxa de desemprego, o aumento angustiante da dívida pública, a baixa produtividade, e, last but not the least, a galopante necessidade de assistência externa. Não gostamos de o afirmar, mas não nos restam quaisquer ilusões; o país perdeu.

publicado por adignidadedadiferenca às 21:00 link do post
03 de Outubro de 2010

 

 

De acordo, o Estado não podia continuar a gastar como o fazia; não podíamos continuar eternamente a viver acima das nossas possibilidades. Não sei como quase ninguém via isto. Suponho que a forma mais imediata de o Estado reduzir o despesismo é o corte na massa salarial. Se concluíram que ganhava acima das possibilidades de quem me pagava, não me queixo. Contudo, ainda assim, proponho uma reflexão: Com o aumento do IVA e a redução das deduções em sede de IRS entramos em puro clima de recessão. Empobrece o país sem estar prevista uma recuperação nos tempos menos longínquos.

Um país que deixou de produzir para receber os subsídios comunitários não vai conseguir subir o poço onde caiu. Não será altura de recuperarmos os velhos sectores da economia e apostar, de uma vez por todas, na produção nacional, sob pena de, num futuro próximo, a solução contra a despesa pública voltar a assentar nos cortes salariais? Os líderes do PCP e do CDS já o afirmaram e parece-me que têm a razão do seu lado.

E, para terminar, deixo aqui uma questão: incidindo os cortes nos salários, não estará este Governo a autorizar a manutenção dos subsídios indiscriminados, dos “jobs for the boys” e dos institutos públicos perfeitamente inúteis que contaminam as contas públicas e são, a meu ver, os principais responsáveis pelo despesismo da Administração Pública? 

publicado por adignidadedadiferenca às 14:02 link do post
Maio 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
últ. comentários
Que bom é procurar sempre. ...
É falso que o fenómeno tenha ocorrido no preciso m...
Acho que você é quem deveria pensar pela sua cabeç...
Experimente ler "Fátima, Milagre ou Construção?, u...
Não consigo vislumbrar uma ligação directa entre a...
Parece-me que existe uma grande crise de valores e...
Não me parece que a crise de valores ou os valores...
Muito bem! Embora nos dias de hoje e na sociedade ...
Certo; tudo bem que existissem questões políticas ...
Já tive o livro, de facto. Contudo, foi mais ou me...
CaroEstou a procura do livro fatima nunca mais mas...
Não deixa de ser um belo aforismo...
blogs SAPO