a dignidade da diferença
22 de Março de 2012

Out of Tuva (1993), Sainkho

 


Equilíbrio quase sobrenatural entre tecnologia e tradição, Out of Tuva é o assombroso resultado do inesperado encontro ocorrido entre Hector Zazou e a sul-siberiana Sainkho Namtchylak, cuja voz vibrante e expressiva, que tanto sobrevive nas grutas como vagueia no deserto, sobressai do quadro musical pictoricamente enriquecido por elementos do folclore religioso e xamânico da república de Tuva – um chamamento politicamente indesejável, cujo efeito é semelhante ao produzido pelo cinema culturalmente pré-soviético do georgiano Sergei Paradjanov -, superiormente filtrado, explorado e orientado pela visão estética arrojada, global e futurista de Zazou, sem prejuízo (bem pelo contrário) da colaboração assaz relevante de Vincent Kenis e de Gilles Martin, do inesgotável compêndio instrumental do Trio-O ou da natureza popular sublinhada pelas contribuições orquestrais avulsas. Uma música admirável, estilizada e transgressora, numa época em que a world music se chegou à frente no domínio das conquistas estéticas, sujeita a um ritual musical contagiante e desafiante eternizado numa gravação única e irrepetível.

 

 

05 de Setembro de 2011

 Litlle Things (2005), Hanne Hukkelberg

 

 

 

Hanne Hukkelberg é um dos casos mais criativos e fascinantes da música popular contemporânea. Oriunda do norte da Europa, mais exactamente da Noruega, Hukkelberg reporta para a sua música – como testemunham os assombrosos Little Things (2005), Rykestrasse 68 (2007) e Blood From a Stone (2009) – o ar que ali se respira, as paisagens gélidas e o clima muito peculiar daquela região. Mas só isso explica muito pouco; alimentando-se de um precioso e elástico canibalismo sonoro, a singer-songwriter nórdica digere prolongadamente todos os componentes orgânicos e transforma-os prodigiosamente num corpo musical novo, genuíno, único e irrepetível. Rebuçados de jazz nocturno sinuoso com aroma de mentol embrulhados em partituras para crianças, pequenos devaneios instrumentais líquidos preparados em celofane, uma voz infantil docemente pecaminosa, esboços rítmicos e harmónicos ficcionados no laboratório, desenhos melódicos em câmara lenta divulgados sílaba a sílaba, ou subtis micro rupturas dissonantes na escultura sonora; todos estes elementos contribuem decisivamente para a formação desse portentoso e riquíssimo opus iluminado, intitulado Little Things (que outro título poderia ser mais apropriado?), que serviu para apresentar a sua autora ao mundo. E se àqueles microrganismos acrescentarmos as avarias das coordenadas no cruzamento de dados, as lesões profundas nas articulações do classicismo pop ou uma visão tridimensional da substância musical, ficamos com uma ideia precisa da matéria que compõe este disco extraordinário, raro e belíssimo, mantido milagrosamente em segredo até hoje, e que só está ao alcance dos ouvidos que sabem escutar o silêncio destas pequenas coisas que escapam ao mediano, ruidoso e limitado mainstream musical.

 

Cast Anchor 

03 de Julho de 2011

Ascenseur Pour L'Échafaud (1958), Miles Davis

 

 

Ascenseur Pour L’ Échafaud (1958), assinado pelo cineasta Louis Malle e fundado na estética Nouvelle Vague, contribuiu de forma muito acentuada para a revelação súbita das qualidades ímpares de uma nova estrela, Jeanne Moureau. Mas se o glamour cerebral e realista de Moureau dificilmente se esquece, a verdade é que, pelo menos para os melómanos, o filme de Louis Malle fica na memória por uma razão ainda mais essencial: a sua banda-sonora. Trata-se de uma magnífica partitura improvisada da autoria de Miles Davis, recheada de esboços melódicos do trompete em surdina, percorrendo desenhos rítmicos sinuosos elaborados milagrosamente com uma clareza de ideias notável, servindo como contraponto perfeito para a atmosfera noir do filme de Malle. Uma gravação extraordinária, sobretudo se pensarmos que Miles nunca antes tinha tocado com os seus cúmplices nesta aventura europeia, que iluminou o trajecto do músico rumo ao genial Kind Of Blue.

 

 

01 de Maio de 2011

Swordfishtrombones (1983), Tom Waits 

 

 

De Closing Time (1973) a One From The Heart (1982), a carreira musical de Tom Waits alimenta-se de uma combinação muito conseguida de jazz e blues sombrios, resquícios de folk e música de cabaret, ancorados numa voz rouca, boémia, de vagabundo, com um timbre sombrio a destilar uma poesia maldita e nocturna, reflexo natural da sua formação na beat generation. Nighthawks at the Diner (1975), gravado ao vivo, com as suas canções viscerais, frequentemente interrompidas por comentários extensos e piadas de ocasião, que, por força do excesso de álcool e de nicotina, atingem aqui a temperatura ideal, ficou como o exemplo perfeito deste apego inicial do seu autor ao mundo do jazz e do rythm and blues. Blue Valentine (1978) - especialmente na soberba Whistlin’ Past the Graveyard - e Heartattack and Vine (1980), foram a antecâmara, ainda algo ténue, que o conservador e posterior One From the Heart (1982) parecia querer desmentir, para o passo seguinte, concretizado no singular e genialíssimo Swordfishtrombones. Waits, numa visão poética surreal, uiva a dor do mundo, canta os amores perdidos, os corações despedaçados, a boémia, a vida e a morte nas suas expressões quotidianas, mas, através de uma arrojada encenação teatral e de um prodigioso canibalismo sonoro, relança a sua carreira musical enriquecendo-a com o experimentalismo de Zappa e de Captain Beefheart, enfurecido por uma espécie muito particular de blues descarnados, exotismo, ruído e electricidade, isto é, uma combinação excepcional de estruturas musicais oblíquas, densidade dramática, dissonância melódica, e enxertos em carne viva bebidos na mais impura e gloriosa charanga sonora, combinação essa que resulta numa assombrosa, admirável e inesquecível orquestra mutante.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:44 link do post
26 de Março de 2011

 

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (1971), José Mário Branco

 

 

No momento em que uma geração genericamente mal preparada para enfrentar os desafios laborais e sociais decide, no meio das ainda assim legítimas aspirações e dos inevitáveis protestos, abraçar a ligeireza e a vulgaridade dos Deolinda e de Os Homens da Luta, não há nada como revisitar os autores genuínos, isto é, aqueles que, de facto, quebraram as regras estabelecidas até então, foram inventivos, pioneiros, ousados e resistentes, deixando-nos uma fabulosa herança musical. Acima de todos estiveram, como hoje pacificamente já se reconhece, José Mário Branco, José Afonso e Sérgio Godinho. O disco que vos trago à memória é do primeiro e chama-se Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades. Em 1971, José Mário Branco inicia, com Cantigas do Maio e Os Sobreviventes, de José Afonso e Sérgio Godinho, respectivamente, uma fase superior da canção popular. Para trás ficavam as baladas monocórdicas e rudimentares, instantaneamente envelhecidas no confronto com uma música nova, onde se explora e se dá uma importância fundamental às ferramentas do som. As palavras mordazes e irónicas sobre o medo, a opressão, a guerra, a resistência, o exílio, a ditadura, envolvem-se num grafismo sonoro prodigioso que consiste numa fusão natural da música erudita com o jazz, na exploração timbríca e harmónica das guitarras eléctricas, dos baixos sinuosos, da expressividade vocal, criando uma atmosfera densa e sombria, aqui e ali metálica, que se reflecte numa construção musical riquíssima em tonalidades onde cabe um pouco de tanta coisa: as canções heróicas de Lopes Graça, o minimalismo, a tradição popular, os poemas do genial O’ Neill ou de Natália Correia, a chanson française ou o aroma tropical sul-americano. Fica como exemplo maior deste corpo iluminado a previsão do que aí vinha na lucidez extrema de «quanto a nós/nós cantores da palidez/nosso canto nunca fez/filhos sãos a uma mulher/nem sequer/passa mel nos nossos ramos/pois a abelha que cantamos/será mosca até morrer». Um disco perfeito.

 

 

07 de Janeiro de 2011

 

American Music Club: Mercury (1993)

 

 

Existe uma categoria de música que, na maioria das situações, nos deixa num estado de semi-abandono que quase nos impede de a explicar. Nada mais nos resta que gostar. Muito. É o que acontece, por exemplo, com este Mercury, disco seminal dos magníficos American Music Club, de Mark Eitzel. Já tem uns anitos (17) mas continua a ouvir-se hoje com o mesmo prazer de ontem. Difícil e angustiante, Mercury reduz qualquer esperança a cinzas. Não o recomendo às pessoas em geral, mas aos poucos com força de espírito suficiente para o acolher e merecer. É uma obra vencida pela amargura e pela desolação, que magoa e entristece, provoca o medo, comove, mas robustece. Musicalmente, impressiona pela precisão e concisão rítmica, acuidade melódica, riqueza de ideias, detalhe sonoro e magnífica clarividência arquitectónica. Apesar do notável esforço de clarificação estética, traz consigo tudo aquilo que ninguém precisa. Mas vale a aposta em como os poucos que o escutaram não conseguem viver sem ele. Da mesma estirpe dos Mazzy Star, Silver Jews e Richmond Fontaine deste mundo, i.e., daquele raríssimo género de música que não apetece partilhar com ninguém.

 

 

26 de Setembro de 2010

Taraf de Haidouks: Honourable Brigands, Magic Horses and Evil Eye (1994)

 

 

Bem sei que os ciganos são, grosso modo, desconfiados, não gostam de mandar os filhos à escola nem de se misturar com outras gentes; são, em suma, gente de coabitação (muito) difícil. Mas essa circunstância não pode determinar este tempo que se vive; hoje em dia, qualquer cigano é comparado a um ladrão, a um trapaceiro ou a um contrabandista, e poucos são aqueles que não menosprezam a sua história de mil e quinhentos anos na Europa. Uma história feita de perseguições, resistência, intolerância e desconfiança mútua e transformada, muitas vezes, numa lição de vida.

Se são lembrados quase sempre por más razões, hoje merecem que os recorde por bons motivos. Um deles é a música, sobretudo este espantoso «Honourable Brigands, Magic Horses and Evil Eye», assinado, em 1994, pelos Taraf de Haidouks. Uma coexistência “pacífica” entre o velho e o novo, o savoir-faire transmitido de pais para filhos, o virtuosismo impressionante que prefere ser o eco da substância musical afastando-se, sabiamente, da mera demonstração de pirotecnia; todos estes elementos contribuem para consolidar estas sublimes fantasia e improvisação musicais – onde o violino assume o papel principal -, verdadeiro espelho de um inesquecível catálogo de danças e canções de casamento, de prisão, de camponeses, de lamentos ou romances, que sobreviveram a três gerações de músicos e hão-de perdurar também entre nós.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:43 link do post
16 de Setembro de 2010

 

Son House: Father of the Delta Blues: the complete 1965 sessions

 

 

Son House nasceu numa plantação próxima de Clarksdale e a sua história, a par, por exemplo, da de Charlie Patton ou da filiação musical de Muddy Waters, confunde-se com a terra e as águas do Mississippi. A sua música, sagrada e profana, escreve uma parte essencial da história da América. O canto de Son House, conhecido como o pregador de blues, traduz superiormente a sua vivência dilacerada e de prolongado combate entre o amor a Deus ou a fraqueza pelas mulheres.

«Father of the Delta Blues: the complete 1965 sessions», gravado numa fase de ressurgimento da sua carreira, será, provavelmente, a obra mais marcante do reportório de Son House. A urgência do seu canto e o som áspero, rugoso e ferido da sua guitarra, sublinham uma vivência de sacrifício e penitência, ciclicamente cicatrizada e transpirada. A música emocional de Son House acerta-nos directamente no coração, arranha-nos e arrepia-nos por dentro, em cirúrgicas e autênticas convulsões espirituais.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:13 link do post
31 de Agosto de 2010

 

Beethoven: Sonatas para piano, Vol. I a VIII, András Schiff (2008)

 

 

As sonatas para piano de Beethoven acompanham a sua evolução musical enquanto compositor de excepção. Desde uma primeira fase em que se revelam demasiado dependentes da tradição clássica, passando por uma fase intermédia mais madura e diversificada, cobrindo um amplo conjunto de formas e estilos. A fase final do genial compositor caracteriza-se por um desenvolvimento dos temas até ao limite, absorvidos por um ambiente contemplativo.

András Schiff esperou uma vida para a gravação integral (em oito volumes) das 32 sonatas para piano de Beethoven. Nas mãos do intérprete húngaro a música de Beethoven revela-se de uma tensão e concentração portentosas, questiona-se e amadurece no silêncio das notas, na sabedoria de uma expressividade que só vem com o tempo. Admirável e irrepetível.

 

 

 

30 de Julho de 2010

 

Music for 18 Musicians, Steve Reich and Musicians, 1997

   

 

Steve Reich, compositor americano, fez estudos na Julliard School e no Mills College, em Oakland, entre 1968 e 1963, e estudou composição com Berio e Milhaud. Foi um dos precursores do minimalismo e da música electrónica, criando, inclusive, o seu próprio estúdio de música electrónica (Kennedy, Michael, Dicionário Oxford de Música, Dom Quixote, Lisboa, 1994). 

Colocada, por vezes, lado a lado com a obra do compositor Philip Glass (um compositor particularmente interessante na fase inicial da sua carreira), a música de Steve Reich é, quanto a mim, muito mais complexa e os padrões rítmicos bem mais variados. No seu melhor, é uma música intensa assente numa sucessão lenta de harmonias que só aos ouvidos pouco educados parece repetitiva. 

É o que acontece nesta magnífica gravação de uma das suas obras fundamentais, Music For 18 Musicians, de 1976, a qual consiste na releitura do próprio autor efectuada em finais de 1996. Trata-se de uma interpretação brilhante e obsessiva onde todos os detalhes são trazidos e revelados à superfície por um “ensemble” impetuoso que hipnotiza, fascina e entusiasma quem escuta esta música até ao fim. 

Uma obra fundamental de um compositor essencial para se compreender grande parte da música contemporânea.

 

O início da obra de Reich, interpretada em 2008.

 

07 de Julho de 2010

 

 

Um disco prodigioso de Raymond Scott, um dos nomes maiores da música electrónica (e da música em geral, obviamente). Invenção, plasticidade, inovação e ousadia estética sustentam uma música que, ainda hoje, soa como nova, a qual se estende por abstracções rítmicas, ruídos e novos sons numa formidável aventura sonora. Uma obra, por vezes, difícil mas inesquecível, fruto de uma criatividade sem limites dedicada a um género musical, regra geral, injustamente menosprezado.

E, já agora, aproveito para agradecer ao Victor Afonso por me ter levado a revisitar a obra de Scott, ao publicar um post sobre o compositor no seu blog O Homem Que Sabia Demasiadoo qual nunca é demais aconselhar.

 

Limbo, The Organized Mind

publicado por adignidadedadiferenca às 01:23 link do post
10 de Junho de 2010

 

Dead Combo Vol.1 (2004)

 

 

«Algures no princípio do séc. XXI, juntaram-se à esquina, na cidade de Lisboa dois vadios, um “cavalo de fogo” magro de 66, solitário de cartão e face vincada, o outro alto de 70, vindo do meio escuro do jazz, signo “cão”, ambos juraram vingar os mortos e fazer ressuscitar os vivos. Marcados pela BD, trazem a saudade esbanjada nos bolsos e a alma muda perdida em filmes negros. Tocam Lisboa, a cidade do campo, das chaminés e das cúpulas brancas, cenários de um passado perdido, o fado, o western vadio, tudo junto num vudu de emoções, o Tejo, os amantes desencontrados, anjos abandonados nas encruzilhadas do destino, flores com cores trocadas, santos, câmaras ardentes, guitarras despidas, cuspidas e deitadas à rua, contrabaixo em fogo, cartolas, galinhas à solta e coisas que rolam na rua. Ali encostados à parede no meio desta confusão, os dois trincam pecados de maçã, enquanto olham para Ti…»

Nada mais exacto. Este pequeno texto, que acompanha a edição do disco de estreia dos Dead Combo, faz a radiografia perfeita da atmosfera sonora que se respira nesta obra notável. Música individualizada e personalizada, vincadamente portuguesa, mas que aceita todas as contaminações exteriores que contribuam para o seu enriquecimento.

O grupo seguiu, naturalmente, o seu caminho, tornando a sua música um pouco mais encorpada, acolhendo, aqui e ali, outros elementos que moldaram o seu trilho sonoro. Mas o que este disco trouxe de essencial ficou: Morricone semi-destilado, melancolia e fado em tom pastel, rosas queimadas em zinco e uma guitarra que se cansou de morder o pó da estrada.

Um pequeno mas notável gesto de amor livre e solitário.

 

Viúva Negra

 

publicado por adignidadedadiferenca às 02:07 link do post
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