a dignidade da diferença
19 de Agosto de 2009

 

José Afonso, Cantigas do Maio (1971)

 

 

O disco que, a par dos extraordinários Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades de José Mário Branco e Os Sobreviventes de Sérgio Godinho, deixou para trás, definitivamente, as «baladas choradeiras» e trouxe a modernidade para o coração da música popular portuguesa.

É nesta gravação fundamental que José Afonso introduz o surrealismo no seu reportório poético-musical (com um poema de António Quadros e outro da sua autoria) e que une, de um modo inovador e plenamente conseguido, a balada tradicional às sonoridades urbanas, contando, para o efeito, com a preciosíssima ajuda de José Mário Branco.

Já tudo se sabe e tudo se disse sobre este clássico absoluto da música portuguesa,  reservando-se a maior fatia de louvores para os prodigiosos arranjos/orquestrações de José Mário Branco que são o fruto natural da sua inesgotável riqueza de ideias para, através do uso minucioso da instrumentação, atingir a máxima expressividade artística em cada canção.

Se todo o álbum é magnífico, existem, pelo menos, duas canções onde o talento intuitivo e melódico de José Afonso e a ousadia arquitectónica de José Mário Branco raiam o sublime: Maio Maduro Maio, que combina na perfeição beleza e lirismo poético com uma notável modernidade musical, sublinhada pelo som do trompete em surdina, e a assombrosa Coro da Primavera, com um notável trabalho de percussão que dramatiza com uma profundidade quase insustentável a estrutura musical e o canto da canção.

Uma das raríssimas obras-primas da música portuguesa, da autoria de um músico que continuou a criar, durante os anos 70, uma obra de grande fulgor claramente acima da média nacional, cujos parâmetros de qualidade musical e ousadia estética só foram acompanhados - enquanto esperávamos pelo espírito aventureiro da música pop dos anos 80 - pelas gravações de Sérgio Godinho, José Mário Branco, Banda do Casaco e muito poucos mais.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:37 link do post
O autor da letra de uma das canções que refere foi o António Quadros (Pintor) e não o António Quadros (escritor).
Sinto-me na obrigação de dizer-lhe isto porque já vi em vários sítios confundirem um com o outro, levando um as palmas, e o outro o olvido.
O António Quadros que Zeca Afonso musicou foi um Homem talentoso e multifacetado de quem pode ler notícia aqui: http://www.ipv.pt/millenium/17_spec2.htm
Anónimo a 20 de Agosto de 2009 às 01:33
MÚSICA TRADICIONAL PORTUGUESA


José Afonso foi, sem dúvida, o maior cantautor da música popular portuguesa, não só em termos de composição, como de inovação – saliento a importância de José Mário Branco no caso – mas, igualmente, fundamental na reanimação e divulgação da música tradicional portuguesa, cujas consequências resultaram no aparecimento da Brigada Victor Jara com o “Eito Fora”, de 1977, de Adriano Correia de Oliveira com “Cantigas Portuguesas”, de 1978, dos Almanaque com “Descantes e Cantaréus”, de 1979, dos Terra a Terra com “Dançando e Purilando”, de 1980, de Júlio Pereira com o “Cavaquinho”, de 1981, dos Vai de Roda com o ”Vai de Roda”, de 1983.
Como é lógico, apenas, mencionei os primeiros álbuns de cada grupo ou interprete e não faço referências, nem a Fausto, nem a Vitorino porque abrangeram outras áreas de composição.

Jorge Brasil Mesquita
jorge brasil mesquita a 22 de Agosto de 2009 às 17:16
Falei do «Cantigas do Maio» por iniciar, como direi?, a fase mais «moderna» do Zeca - que atingiu outro momento superlativo no «Venham Mais Cinco». Mas a sua importância para o despertar de grupos ligados à música tradicional portuguesa é inquestionável. E os exemplos que deu são paradigmáticos. Outros haverá como o Gaiteiros de Lisboa, a Amélia Muge, os Realejo, etc etc, porque a influência do Zeca é inesgotável.
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