a dignidade da diferença
06 de Agosto de 2009

 

 

O jornal Público iniciou há cerca de quatro semanas mais uma nova colecção sobre música, vendida com a edição de sábado – mas que pode ser adquirida separadamente por  apenas € 6,90 -, dedicada à bossa nova.

O conjunto de 12 volumes dedicados a esse magnífico movimento estético com raízes brasileiras e uma visão musical que atravessa – e de que maneira! – as suas fronteiras, tem uma apresentação bastante cuidada do género livro + CD (com a nostálgica mas agradável imitição do vinil), que, aliás, tem sido o (bom) hábito da casa.

Se a colecção deve ser, naturalmente, aconselhada pela prova de «bom gosto» demonstrada e pela qualidade global das gravações – eu próprio não dispensarei a aquisição dos números dedicados aos meus autores preferidos -, merece, contudo, um bem significativo reparo.

Sim, é verdade que estão lá os grandes nomes do movimento: Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Nara Leão, Marcos Valle ou Baden Powell; mas alguém me consegue explicar como é que se foram esquecer do genial João Gilberto, fundador e criador essencial da gramática que deu o sentido à bossa nova?

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:39 link do post
"CRIADOR essencial da gramática " ?!
A única canção que eu conheço que o João Gilberto escreveu foi o "Abraço a Bonfá" ... que é instrumental.
Nuno
Anónimo a 6 de Agosto de 2009 às 23:28
Só como exemplo (texto de Ruy Castro): «A volta de João gilberto ao Rio em 1957, arrebatando aquela geração à sua volta e implantando uma batida de violão que todos adotaram, deu um novo sentido à vida da turma. De repente, havia para quem compor, como e por quê.» Chega? E, já agora, podemos (voltar a) escutar o LP «Chega de Saudade». Bossa nova é tudo o que lá está. Não sei quantos fados a Amália escreveu, mas o Fado é Amália. Ou, explicando melhor, dois casos em que a interpretação é tão personalizada que se transforma num acto de criação. Mas o Nuno pode discordar, obviamente.
João tem outras composições sim, como "Bebel", "Hoba-la-la", "Bim-Bom"...

São poucas, mas não são elas que fazem de João Gilberto o grande CRIADOR (sim!) da bossa nova.

E se você não percebe o porquê, nem adianta tentar explicar...
Anónimo a 8 de Agosto de 2009 às 00:04
Também posso citar as palavras de Jobim (outro nome essencial da bossa nova): João Gilberto, em pouquíssimo tempo, influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores.

Ou as de Nelson Motta: De uma pequena cidade do interior da Bahia para - com a sua pequena voz e grande violão - mudar a música do planeta, como o genial criador da maior contribuição cultural que o Brasil deu ao mundo nos tempos modernos, conhecida como bossa nova, mas na verdade uma criação original de João Gilberto. Sem a sua batida de violão não existiria bossa nova, é a sua base e coração.

Afinal, mais não fiz do que dizer o mesmo por outras palavras. E não mudo uma virgula sequer.

«E se você não percebe o porquê, nem adianta tentar explicar... »

Essa arrogância fica-lhe mal.
Que grande mal entendido...
Eu sou o primeiro anónimo (o Nuno), que criticou a sua expressão, e não o segundo anónimo, que me criticava a mim e não a si.
Ainda não tive tempo para responder adequadamente, a si Rui G. Quanto ao outro anónimo, ele próprio deu a questão como encerrada.
Nuno
Anónimo a 10 de Agosto de 2009 às 18:44
Nuno:

É no que dá isto dos anónimos. Retiro o arrogante (no que me diz respeito, mas esteja à vontade para utilizar este espaço para se defender), mas mantenho o resto. Quando falo no João Gilberto como criador, não me refiro às composições dele, mas ao estilo que criou: a tal "batida do violão" e a voz "minimalista" que, na minha opinião - e não só na minha, mas isso agora não vem ao caso -, são essenciais para a identificação daquilo a que chamamos bossa nova. E, pode acreditar, não me incomoda nada que tenha uma opinião diferente.
Não leve a mal (estou a trabalhar desalmadamente, a tentar ir de férias na 4ª feira), vou ter de ser quase telegráfico.
O Rui não se limitou a dizer "criador", disse que era o criador da “gramática”. E foi isso que eu critiquei. Eu entendo que gramática é uma palavra que exprime uma ideia de construção de frases, de utilização de palavras, ou seja, um conceito adequado a um letrista (se se referisse ao Vinicius…). Por isso, eu enfatizei que a única composição que eu conhecia dele era instrumental. Um amigo meu chamou-me a atenção que se usa também a expressão "gramática musical" para exprimir (passe a redundância) o conjunto de regras ligadas à grafia musical (partituras, etc.). Embora seja um total ignorante nestas matérias, parece-me que o João Gilberto não foi inovador nesse campo (enfim, "penso eu de que").
Apesar de tudo, tenho de confessar, contra muitos entendidos na matéria, e eu não sou um (tenho dúvidas que o biógrafo Ruy Castro também o seja), que acho que a Bossa Nova é demasiado rica para reconhecer um papel tão decisivo ("o fundador", "o criador") ao João Gilberto. Ou melhor, foi decisivo, mas também o Jobim e o Vinicius (um subvalorizado da crítica nacional) o foram na mesma medida.
Bom, vou voltar ao meu trabalhinho…
Cordialmente,
Nuno
Anónimo a 10 de Agosto de 2009 às 22:34
Aceito "um dos" em vez de "o" fundador(es)/criador(es) da bossa nova" como uma expressão mais correcta.
Saudações cordiais.
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