a dignidade da diferença
19 de Abril de 2009

 

Robert Wyatt - Rock Bottom (1974)

 

 

 

 

Robert Wyatt, baterista e um dos fundadores dos Soft Machine – uma das raríssimas bandas de rock progressivo que, ainda hoje, merecem ser escutadas -, criou, depois de ter abandonado a banda logo que terminaram a gravação do seu quarto volume e após um terrível acidente ocorrido numa festa que foi provocado por uma queda do quarto andar – deixando-o com paralisia dos membros inferiores -, um dos mais impressionantes, dolorosos, irónicos e iluminados discos de toda a história da música popular.

Rock Bottom começa com Sea Song, uma canção metafísica em estado de graça que penetra na mágoa mais profunda. Ouvem-se dispersas notas de piano levadas pelo vento em desalinho com micro-percussões fantasmas e estruturadas em melodias à deriva alimentadas, simultaneamente, por uma angústia e luminosidade profundas. Last Straw e  Little Red Riding Hood Hit the Road ampliam o estado de letargia inicial conduzido por um sopro radiante e interior que devolve, literalmente, estas canções submersas à luz do dia.

Alifib e Alifie formam uma das mais arrepiantes e alucinantes sequências musicais que tivemos oportunidade de ouvir. Música e voz erguem-se dos escombros e articulam-se numa geometria de loucura, onde nada resta senão uma respiração negra e abissal que dissolve toda a atmosfera em redor num murmúrio dilacerante à beira do abismo.

E este monumento sonoro termina com Little Red Robin Hood Hit the Road, canção de redenção onde a voz cava e profunda de Ivon Cutler paira sobre uma concertina demente e acaba com uma insuportável angústia num riso alucinado e cruel.

Pouco mais fica por dizer desta obra genial que, num momento supremo e irrepetível, junta - em simultâneo ou separadamente – pedaços de jazz e blocos de gelo numa harmonia impossível com parcos esboços sinfónicos afundados numa cortante brisa de música de câmara.

Uma gravação genial que, ainda hoje, soa a pop futurista e de vanguarda. Resta acrescentar que o seu autor continua, de forma insistente e inventiva, a seguir um caminho único e personalizado na história da música contemporânea oferecendo-nos obras marcantes como Ruth is Stranger Than Richard, Shleep, Cuckooland ou o último e magnífico Comicopera.

 

 

 Little Red Riding Hood Hit the Road

publicado por adignidadedadiferenca às 20:35 link do post
Há álbuns que são obras-primas e que eu admiro mais do que gosto. Neste caso admiro e gosto (muito). Um dos meus álbuns preferidos. Está no meu top 10 de certeza.
Manuel a 19 de Abril de 2009 às 22:14
Parte da beleza do disco é que não há um segunto de consimeração.
quim seguro a 19 de Abril de 2009 às 22:29
É uma das razões, sim (a principal?). P.S. Bem-vindo ao blog!
Muito bonito... belo, direi.
E uma forma muito pessoal de escrever.
Não considere ... nada. Não responda.
É o que sempre pensei.

ionesco a 19 de Abril de 2009 às 22:35
Não respondo mas agradeço.
Também faz parte da lista dos meus 10 melhores de sempre, Manuel (partindo do princípio que isso dos melhores de sempre merece algum crédito).
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