a dignidade da diferença
04 de Junho de 2008

 

 

 

Buster Keaton foi um dos gigantes incontornáveis do burlesco americano. Conhecido por «o homem que nunca ri», Keaton foi dos primeiros cineastas a compreender as modificações que os ritmos novos (de então) iriam trazer à relação do ser humano com o espaço que tem pela frente, sendo, por isso, eternamente moderno.

 

Se Chaplin, outro dos mestres da época, entendia o cinema de forma mais humanista (embora, muitas vezes, um humanismo profundamente perverso), Keaton era mais maquinal, uma vez que ele se reinventava ao nível das formas genuínas do tempo e do espaço e da relação que entre elas se estabelecia através do movimento, o que o torna um dos mais abstractos cineastas de sempre.

 

Os seus filmes são construídos com uma precisão e rigor tal, que parecem autênticas peças de relojoaria. Sucedem-se, a um ritmo alucinante, os gags calculados, de forma quase maníaca, até ao mais ínfimo detalhe e elaborados com uma cadência e ajuste matemático que ainda hoje surpreendem pela forma como tudo parece jorrar do modo mais natural possível. Exemplos perfeitos encontram-se na prodigiosa mise-en-scène e na montagem de filmes como «The General», em que a acção se desenrola durante a guerra civil americana e serve de pretexto para a invenção de alguns dos mais geométricos, tresloucados e soberbos gags, ou como «Seven Changes» - veja-se a inacreditável cena em que o personagem tropeça numa pedra, que imediatamente arrasta atrás de si mais algumas e por aí fora em vertiginosa perseguição ao protagonista, até vermos, incrédulos, o mundo reorganizar-se e simultaneamente desabar inteiro perante os nossos olhos -, ou, por fim, esse filme dentro do próprio filme que é o espantoso «Sherlock, Jr.».

 

 

Sherlock, Jr.

 

 

Podia falar também de «Steamboat Bill Jr.» mas a lista ia parecer interminável. Buster Keaton perdeu relevância com o aparecimento do cinema sonoro, mas a sua arte individual e meticulosamente corporal continua, ainda hoje, ímpar e perfeitamente actual.

Um génio incontestado.

 

The General

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:50 link do post
Muito bom.
Terei que fazer mais pesquisas sobre a arte cinematográfica.
Mas...tenho tantos livros!
Conheço pessoas ligadas ao meio (actores) e às vezes falamos sobre tudo o que é feito durante as rodagens.
Pena é que haja falsos mitos.
Além disso acho que há uma estreita relação com o teatro.
Quando vejo os filmes italianos. É Isso.
E a pintura.
Quando foi feita a apresentação do monólogo de Molly Bloom, de Joyce, pelas " Boas Raparigas"lembrei-me de uma pintura.
A posição da actriz...na cadeira.
Um dia falarei disso.
ionesco a 6 de Junho de 2008 às 08:52
Como diz uma canção do Sérgio Godinho, isto anda tudo ligado.
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