a dignidade da diferença
17 de Maio de 2009

 

Jeff Buckley, Grace (1994)

 

 

 

 

Sou da opinião de que o culto gerado à volta de Jeff Buckley – principalmente, após a sua morte – terá sido, porventura, algo exagerado, face à razoável decepção que tive ao escutar a sua segunda gravação; o duplo Sketches For My Sweetheart The Drunk. Composto por um primeiro disco que nunca teve uma versão definitiva e que pouco mais não é do que uma actualização da matriz musical que fez história nos Led Zeppelin, acompanhada, aqui e ali, por um instinto pop razoavelmente apurado, por alguns trapos de folk sensível e por uma voz que, por vezes, soube voar bem alto. O segundo disco deixou uma impressão demasiado vincada a manta de retalhos, embora, num par (de esboços) de canções, por força do talento musical indiscutível de Buckley, francamente sedutora.

Contudo, também é verdade que o filho do lendário e genial Tim Buckley entrou directamente para a história da música, com uma das mais impressionantes e emocionalmente arrepiantes estreias musicais de que há memória.

Grace não é uma obra de ruptura com o passado musical e até convive bem com as marcas da época, mas deixa um traço absolutamente ímpar que é a impressionante naturalidade com que o autor domina, superiormente, os mais diversos géneros musicais, atravessando-os e trespassando-os literalmente, numa bela e singular demonstração de ecletismo musical, poético e estético.

Buckley assina, nesta gravação, um punhado de grandes canções clássicas, oferecendo-nos uma gama de recursos estílisticos soberba e variada que vai do espectro sonoro de Captain Beefheart até à sublime transfiguração romântica do sofrível Lilac Wine. Todas as canções possuem uma embriaguez sonora que é o reflexo de um estado de alma que caminha sempre no fio da navalha. Ternura e revolta tantas vezes de mãos dadas, como se pode escutar nestes espantosos espasmos sonoros que se afundam em pedaços de heavy-metal electrocutado e se elevam em sumptuosos e celestiais arranjos de cordas, superiormente conduzidos por uma assombrosa voz de anjo negro que voa, magnifica e livremente, sobre montanhas de desespero e abismos de paixão.

Claro que todos nós temos duas ou três canções preferidas num álbum como este e eu não escapo à regra. Sinto-me impotente perante a levitação vocal que acontece no final da magnífica Grace (nunca a voz de Jeff foi capaz de voar tão alto), não esqueço a frágil e emocional interpretação à beira do abismo de Corpus Christi Carol do compositor erudito Benjamin Britten, nem a inesquecível e solitária versão de Hallelujah do Leonard Cohen ou a espantosa e visceral Eternal Life, radiografia perfeita da emoção levada ao extremo da dor, da ira e da paixão.

Se todos os restos musicais de Jeff Buckley foram explorados até à náusea, sem que daí resultasse alguma mais-valia musical, existe mais uma gravação, porém, que vai servir para alimentar, merecidamente, o mito: o magnífico Live Al’Olympia, celebração exuberante do rock’n’roll quando já todos o julgávamos morto e enterrado.

E, já agora, o meu desejo é que o culto prestado a Jeff Buckley se estenda ao seu pai, Tim, autor de uma prodigiosa e semi-esquecida obra musical, nomeadamente os memoráveis e mui excelentes Goodbye and Hello, Happy Sad, Blue Afternoon, Lorca, o «live» Dream Letter e, acima de todos, Starsailor. 

 

 

 

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:18 link do post
17 de Maio de 2009

 

Numa deliciosa reportagem publicada pelo jornal Público, em meados da década de 90, sobre as carcaças ainda sobreviventes do movimento hippie no nosso país, sai-se com esta (mais palavra menos palavra), um dos entrevistados:

- Sim, continuamos a organizar encontros entre velhos amigos e aproveitamos a ocasião para ouvir muita da grande música que se fez nos anos 60, e que nós adorávamos. Até descobrimos, recentemente, que, afinal, os Byrds não eram tão maus como pareciam (sic)!

Já sabia que aquela malta sempre gostou de viver na lua ou no meio da lama, mas isto, para mim, era demais. Foi o dia em que enterrei, definitivamente, os hippies e toda a cangalhada que levavam atrás.

 

 

Don't Doubt Yourself, Babe

publicado por adignidadedadiferenca às 02:27 link do post
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