a dignidade da diferença
08 de Setembro de 2008

 

Este pequeno texto serve apenas para vos recordar dois dos melhores exemplos que conheço do génio interpretativo da célebre violoncelista Jacqueline du Pré.

O extraordinário virtuosismo, a arrebatadora emoção e a força interior que du Pré põe na leitura do Concerto para violoncelo de Sir Edward Elgar, torna-a, quase sem oposição, na interpretação definitiva de uma das últimas composições de Elgar e é, seguramente, um dos expoentes máximos do violoncelo enquanto instrumento solista. Acompanha-a, brilhantemente, num estilo requintado e cheio de luz, John Barbirolli na direcção de orquestra.

Memorável é, igualmente, Jacqueline du Pré no Concerto para violoncelo Op.104 de Dvorak que, nesta actuação de 1967, contou com a colaboração da orquestra dirigida pelo assombroso Sergiu Celibidache.

 

Nova leitura magnífica, num jogo perfeito e radical de contrastes entre o lendário prolongamento dos tempos que o maestro romeno dilata de forma admirável, criando uma atmosfera única de tensão dramática e lirismo apaixonado que, quase miraculosamente, expõe, num traço transparente e vigoroso, o temperamento instável e arrebatador desse prodígio do violoncelo.

Duas gravações luminosas que se cruzam, de modo fascinante, nos nossos sentidos, sempre que nos dispomos a ouvi-las uma e outra vez.

 

Concerto para violoncelo - Elgar

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:03 link do post
03 de Setembro de 2008

 

Agora que já devorei o livro apresentado pela Fundação Calouste Gulbenkian e escrito por João Bénard da Costa, é hora de regressar a «Como o cinema era (é) belo».

No livro, fui, deliciado, percorrendo uma história cinematográfica sob um ponto de vista geográfico, recordando lenta e introspectivamente os belíssimos filmes que já tinha visto. Filmes italianos, franceses, do leste europeu, norte-americanos (a grande fatia), suecos, indianos, japoneses, árabes, dinamarqueses, ingleses e de outros pontos do planeta que seria exaustivo mencionar.

Vieram-me à memória realizadores de filmes mal-amados, filmes mudos, filmes a preto e branco, filmes de sempre e filmes esquecidos. Com os cineastas chegaram-me os actores e as actrizes. Bogart, Cary Grant, James Stewart, Wayne, Fonda, Welles, Warren Beatty, Tcherkassov, Michel Simon, Guru Dutt, Maureen O’Hara, Kim Novak, Dietrich, Jean Seberg, Gene Tierney, Natalie Wood, Elena Kuzmina, Ingrid Bergman, Alida Valli e mais um número infindável de nomes inesquecíveis.

De todos eles se falou neste livro. Como também se «mostraram» cinquenta filmes imensos que, no meu caso, serão guardados – uns mais do que outros, naturalmente – num cantinho qualquer da memória. De dois, principalmente, já quase me tinha esquecido, tão rara e difícil é a sua visão: do hiper-romântico e trágico Flores de papel do indiano Guru Dutt (de 1959) e do poético e milagroso À beira do mar azul do soviético - na altura - Boris Barnet (de 1936).

 

Vou, a partir daqui, seguir a mesma sequência lógica a que me propus no «post» inicial. Serão lembrados filmes do livro e filmes que aí não são referidos. O importante é (aproveitando a oportunidade) falar de como o cinema era, e ainda é, (muito) belo.

 

E, apenas porque o revi ontem, até vou começar por um filme estranho ao ciclo: Rumble fish de Francis Ford Coppola. Uma pérola intensa, cerebral, cheia de sombras e de nevoeiro, uma espécie de jóia negra com um Matt Dillon muito próximo, fisicamente e no tipo de atitude, daquilo que poderia ter sido um Jeff Buckley actor em vez de músico, um Mickey Rourke que nunca mais voltou a ser tão bom a fazer o papel de um tipo meio louco meio herói, sem esquecer uma BSO magnífica e experimental assinada por Stewart Copeland, perfeitamente enquadrada no ritmo das palavras e das imagens e suficientemente autónoma e personalizada para sobreviver sem essa âncora, que deixava a milhas de distância toda a discografia dos Police. Tal como Rumble fish estava a anos-luz do inocente e açucarado The Outsiders.

 

 

01 de Setembro de 2008

 

Old hag you have killed me - The Bothy Band (1976)

 

 

A poção mágica que veio da Irlanda

 

 

Se é certo que os The Chieftains, os Clannad ou os Plantxy têm um peso histórico porventura superior - se outro motivo não houvesse, bastaria invocar a longevidade da carreira de cada um deles –, e todos eles são exemplos paradigmáticos de óptima música irlandesa de inspiração tradicional (com muitos pontos altos e alguns menos meritórios, como acontece geralmente com os grupos ou bandas que permanecem juntos por longos anos), a verdade verdadinha é que a minha maior paixão musical daquele pequeno canto da Europa teve uma duração meteórica – apenas três álbuns publicados em meados da década de 1970 -, mas a excelência da sua música brilhou como poucas naquela época. 

São os The Bothy Band, caíram, com toda a certeza, no caldeirão da poção mágica, pois, só assim poderiam ter sido aquilo que foram: um autêntico cometa musical, vibrante e vertiginoso, que assinou, em 1976, a mais emblemática e avassaladora obra de música tradicional irlandesa: Old hag you have killed me.

 

 

 

Um fulgurante requinte instrumental serve de base à clareza e beleza alucinante da voz de Triona Ní Dhomhnaill. Flauta, violino, «uileann pipes», guitarras, bouzouki e tantos outros instrumentos convergem telepaticamente para uma estonteante harmonia numa sequência ímpar de canções imaculadas e perigosamente próximas da perfeição absoluta. E Calum sgaire converte logo à primeira audição o ateu mais convicto.

Um momento de génio e um marco inesquecível na história da música daquele país que, em 1995, deixou descendência directa: I won’t be afraid any more dos Nomos.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:07 link do post
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