a dignidade da diferença
13 de Abril de 2013

 

 

Soube, pelo blogue do Victor Afonso, que a revista Sábado publicou uma interessante secção, intitulada O Que o Seu Filme Preferido Diz de Si, onde o psicólogo Nuno Amado procurou relacionar a preferência cinéfila das pessoas com a sua personalidade. Mas borra a pintura quando, sobre O Sétimo Selo, escreve: «Quem diz que este é o seu filme preferido costuma achar que a palavra “intelectual” é sempre um elogio. São pessoas que nunca leram um livro porque estão sempre a reler qualquer coisa, a maior parte das vezes filosofia alemã, e que se acham especiais por conseguirem assistir a este filme sem adormecer. Dizer que estas pessoas se levam demasiado a sério é um pouco como dizer que no Brasil até há quem goste de futebol. O segredo dos adeptos de 'O Sétimo Selo' é que, no fundo no fundo, preferem 'O Cinema Paraíso', mas não o querem admitir». Embora prefira outras obras de Ingmar Bergman, se há filme dele que discute magistralmente a dicotomia entre, por um lado, a angústia existencial e, por outro, a face solar da simplicidade vivencial - com óbvia vantagem para a segunda - é o celebérrimo O Sétimo Selo. Explicando melhor: se é o próprio filme a optar, na oposição entre um existencialismo sofrido e a simplicidade feliz da vida, pela ligeireza (ehrrr...) desta última, fará algum sentido afirmar que este é o filme preferido das «pessoas que nunca leram um livro porque estão sempre a reler qualquer coisa, a maior parte das vezes filosofia alemã, e que se acham especiais por conseguirem assistir a este filme sem adormecer»? Por conseguinte, perante o significado e o conteúdo do seu comentário (que o autor parece levar a sério), só se pode tirar uma de duas conclusões: ou o psicólogo Nuno Amado não quis compreender a profundidade do filme ou então acumulou uma série de preconceitos que se transformou progressivamente num incompreensível vírus anti-intelectual. Ainda assim, tamanho equívoco não justifica o chorrilho de disparates nem o fel que vomita. Incapaz de entender que os fenómenos culturais não têm como função exclusiva a mera distração, Nuno Amado despreza o universo diversificado de opiniões e posições de um determinado tipo de cinema, muito particularmente Bergman e o cinema europeu. Não o conseguindo explicar, cai no facilitismo torpe de enfiar tudo no saco do pretensiosismo. Para psicólogo, acho pouco.

Exacto! Já uma vez falei da Felipa Garnel, que dizia preferir o Sozinho em Casa ao Citizen Kane; o primeiro é sobre uma criança enquanto o segundo - Rosebuuud.. - é apenas sobre um magnata ricaço...
Manuel a 13 de Abril de 2013 às 03:14
Esta gente tem uma capacidade para compreender a psicologia das coisas verdadeiramente impressionante... :-)
O Sétimo Selo é um dos meus filmes preferidos de Bergman, e é-o pelas características que indica mas também porque foi o primeiro filme que vi do realizador e que desencadeou uma verdadeira revolução na forma como até então via o cinema .
Em relação ao comentário do psicólogo parece-me que cai na corrente, que ganha cada vez mais expressão, do que não percebemos e que não podemos apontar como sendo medíocre é então sinónimo de produto para consumo de críticos e pseudo-intelectuais, que fica bem mencionar mas que, porque nós não compreendemos, ninguém na realidade pode compreender. O problema desta visão unilateral é que se parece colocar de lado que a cultura é conquistada, que é necessário ir desenvolvendo as nossas competências estético-cognitivas. É claro que o mesmo tipo de educação pode não ter os mesmos resultados, mas essa seria outra discussão.
Se o artigo reflecte um pensamento sério eu diria que se trata de um recalcamento não resolvido.
C. a 14 de Abril de 2013 às 13:41
Pessoas que só apreciam coisas formatadas e mastigadas. Enfim, os leitores da Sábado na sua maioria também não serão muito exigentes. :-)
ele nem viu o filme, rui
sem-se-ver a 20 de Abril de 2013 às 11:48
Se calhar... :-)
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