a dignidade da diferença
03 de Fevereiro de 2012

 

 

«A literatura difere da vida na medida em que a vida é homogeneamente repleta de detalhes, e raramente nos chama a atenção para eles, enquanto a literatura nos ensina a reparar – a reparar na maneira como a minha mãe, digamos, limpa os lábios antes de me beijar; no som de berbequim de um táxi londrino, quando o seu motor a diesel entra flacidamente em ponto morto; na semelhança das linhas brancas nos casacos de cabedal velho com as estrias de gordura em bocados de carne; na maneira como a neve recente “range” debaixo dos pés; na maneira como os braços de um bebé são tão gordos que parecem atados com cordéis (ah, os outros exemplos são meus, mas o último é de Tolstoi!). Esta educação é dialéctica. A literatura faz de nós melhores observadores da vida; e permite-nos exercitar o dom na própria vida; que por sua vez nos torna mais atentos ao detalhe na literatura; que por sua vez nos torna mais atentos ao detalhe na vida. E assim sucessivamente. Basta dar aulas de Literatura para perceber que muitos jovens leitores são fracos observadores. Os meus próprios livros, caprichosamente anotados, há vinte anos atrás, nos meus tempos de estudante, mostram-me que eu sublinhava, como dignos de aprovação, detalhes e imagens e metáforas que agora me parecem banais, enquanto ignorava serenamente coisas que agora me parecem maravilhosas. Vamos crescendo como leitores, e leitores de vinte anos são praticamente virgens. Ainda não leram literatura suficiente para serem ensinados por ela a lê-la melhor.»

James Wood, a mecânica da ficção, tradução: Rogério Casanova

É uma visão optimista. Pessoalmente vejo mais a leitura como uma forma de cegueira progressiva...mas pronto já sabes que eu sou um pessimista.
Manuel a 3 de Fevereiro de 2012 às 21:53
Depois de um tipo ficar cego recebe uma biblioteca com mais volumes que a do Pacheco Pereira, como aconteceu ao Borges...
Manuel a 3 de Fevereiro de 2012 às 22:01
"Cegueira progressiva"...muito profundo...
Manuel a 4 de Fevereiro de 2012 às 01:30
Mesmo na tua versão pessimista (chamar-lhe cegueira será forte demais), a atenção que a literatura dá ao detalhe continua a ser essencial para uma melhor compreensão da vida... :-)
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